Tenho medo até do vento...

Por 28/01/2019, 00h:00 - Atualizado: 28/01/2019, 08h:41

sirlei articulista fixo

Sirlei Theis

Foram muitas humilhações. Palavras que iam matando o seu amor próprio dia a dia, que somado ao controle absoluto da sua vida pessoal e financeira, lhe fazia pensar que aquela vida não valia mais a pena. Como enfrentar tamanho carrasco, se todos os dias ele fazia questão de lhe lembrar que era muito “burra”, “incapaz”, “idiota”, “incompetente”, que não conseguiria viver sem ele ou sem o conforto que lhe proporcionava.

As palavras carinhosas e também o homem gentil que fazia tudo para lhe agradar no início do relacionamento ficaram para trás. Sirlei, assim como Maria, Marta, Joana, Terezinha ou Rose, entre tantas outras, acreditou que teria encontrado o homem perfeito e que o seu casamento era para sempre, mas essa história teve um desfecho bem diferente.

Assim que ele percebeu que estava no controle, o amor se foi como num passe de mágica. A ele só interessava o amor “próprio” e ter uma mulher “submissa”, que cumprisse suas ordens. Quando ela percebeu que vivia uma relação abusiva, também percebeu que estava dependente daquilo tudo, pois por mais que quisesse se libertar ainda tinha o medo, sua filha e o patrimônio construído em quase 10 anos de vida conjugal.

Não seria justo ter que sair dessa relação abusiva fugindo e deixando tudo para trás. Anos de servidão e medo. Foi quando decidiu procurar ajuda e enfrentar o seu carrasco. Depois de ter conversado na coordenadoria da mulher, com a psicóloga, amigos e policiais, também soube que precisaria de um advogado para entrar com a ação de separação para preservar os seus direitos e também os da sua filha.

Mesmo diante de todas essas dificuldades agregadas à fragilidade do sistema de proteção à mulher, ela entendeu que a melhor solução seria a denúncia. Porém, diante da demora na concessão das medidas protetivas começou a sentir medo de tudo. Sentiu vontade de voltar atrás, pois toda aquela coragem que veio antes da denúncia parecia que estava se esvanecendo. O medo começou a lhe dar calafrios e náuseas só de pensar no que ele poderia lhe fazer se soubesse que tinha denunciado.

Já se passavam 4 dias e nada de sair a medida protetiva. O medo daquele que lhe conhecia tão bem quanto a si mesmo, crescia a cada dia que passava sem que tivesse notícias acerca das medidas protetivas. Afinal, ele conhecia seus pontos fracos, fortes, onde morava, onde trabalhava, seus costumes, amigos e familiares. Assim ele poderia aparecer a qualquer momento, como o vento, de repente, em qualquer lugar.

A morosidade na concessão das medidas protetivas é um dos fatores que mais preocupa as vítimas de violência doméstica, principalmente aquelas que tem filhos e também são dependentes financeiramente do agressor. Os dias de espera são constituídos de muita tensão, confusão de sentimentos e medo.

Mesmo diante de todas essas dificuldades , ela entendeu que a melhor solução seria a denúncia

De acordo com os levantamentos do Ministério dos Direitos Humanos (MDH), que administra a Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, o Ligue 180, no ano de 2018, registrou mais de 350 denúncias de violência doméstica por dia no Brasil. A jornalista Laís Modelli do site Uol Notícias apresenta uma situação preocupante.

De acordo com o texto que você pode acompanhar no link (01), apenas 5% de todas as denúncias têm andamento na Justiça, geralmente os casos mais novos, pois os antigos acabam se arrastando, fatores que tornam a denúncia algo muito difícil para a vítima. Diante de resultados tão complicados a mulher vive dias de pânico depois que consegue fazer a denúncia. De fato, até mesmo o vento começa a assustar.

Ainda assim o número de mulheres que denunciam esta crescendo. Desde 2016 este crescimento chegou a 16%, mas também foi levantado pelo Instituto Datafolha um dado alarmante de que 52% das vítimas de violência doméstica nada fazem, sequer contam a um amigo. Isso é preocupante pois demonstra que a fragilidade do sistema de proteção à mulher não encoraja a vítima a denunciar.

Mato Grosso, por exemplo, tem figurado nas pesquisas em segundo lugar nas questões relacionadas a violência doméstica e em primeiro lugar no crime de feminicídio. Isso reflete a falta de investimento nesse segmento, tendo como exemplo, o descaso para a questão das delegacias especializadas da mulher, pois a última foi criada no ano de 2013, em Sinop, mas somente foi instalada em 2018.

Atualmente, Mato Grosso com 141 municípios tem apenas 7 Delegacias especializadas no atendimento à mulher e essas funcionam apenas em horário comercial de expediente. Sabemos que a maioria dos casos de agressão ocorrem justamente fora do horário comercial. Assim, a vítima de violência doméstica quando procura ajuda acaba numa Delegacia de Plantão, que não tem estrutura adequada para atender este tipo de ocorrência.

Se coloque no lugar de uma vítima. O que você faria se fosse agredida à noite, num final de semana ou então num feriado? É comum a vítima ao precisar de atendimento, acabar dando de cara com o agressor no mesmo ambiente.

A realidade da violência doméstica só vai mudar quando além de se investir em políticas de repressão, também se faça investimentos em políticas preventivas, qualificação dos profissionais envolvidos e ampliação da rede de atendimento em parceria com municípios, Ministério Público, Judiciário, Polícia Civil e Militar.

Importante destacar que essa luta precisa sim ser fortalecida pelo poder público e passou da hora da sociedade tirar a venda dos olhos para algo que é muito mais grave do que se imagina. Pesquisas demonstram que “toda” mulher, independentemente do grau de escolaridade, poder aquisitivo, raça e idade, em algum momento da sua vida é uma vítima em potencial.

É preciso combater comportamentos e pensamentos de que “se a mulher apanhou e continua com ele é porque gosta de apanhar ou deu motivos”, “se ela de fato quisesse se separava dele”, “ela apanha, mas daqui a pouco ta lá com ele”, “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, “roupa suja se lava em casa”.

Tenhamos empatia com a causa e eduquemos nossos filhos para não replicar a cultura do machismo, pois a educação é a base para o combate a qualquer tipo de crime. Isso é prevenção e pode ser praticada por todos nós. Colocar-se no lugar do outro é o mínimo que nós, seres “civilizados”, podemos fazer.

Sirlei Theis é advogada, especialista em gestão pública e escreve com exclusividade para esta coluna às segundas-feiras. E-mail: sirleitheis@gmail.com. Instagram: @sirleitheis. Facebook: sirleitheisoficial

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Comentários (4)

  • Iane | Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2019, 21h57
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    0

    Acredito muito nas políticas de prevenção, os governos precisam investir mais nesse trabalho de conscientização do agressor, evitando que a agressão em si aconteça. Em várias cidades a prevenção já é uma realidade e tem ajudado muitas mulheres. O agressor precisa se conscientizar e entender que não se bate ou espanca quem se ama, ou a mãe de seus filhos, e é só com amor que se reestrutura um relacionamento, se reestrutura uma família, e se reestrutura uma sociedade. A vítima precisa ter coragem de denunciar e não se calar com medo das ameaças que recebe do seu parceiro. Parabéns Sirlei! Seu artigo informa e orienta quem está vivendo em momento de agressão, e como é importante a vítima saber que não está só, e que pode contar com ajuda.

  • Gonçalina | Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2019, 14h10
    5
    0

    Parabéns Sirlei, é bem assim mesmo, é um círculo vicioso terrível e agonizante.

  • Marta | Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2019, 09h41
    6
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    "SE permanecer numa relação abusiva causa medo,sair também causa medo "Escolha um medo e siga! Siga em busca de dias melhores,infelizmente nesses momentos somos abandonados por aquelas pessoas que acreditávamos que mais iriam nos amparar;porém nao devemos,nem podemos desistir;Se olharmos bem pra dentro de nós encontraremos um motivo,uma força,um sonho,uma vida! Dentro de nós existe algo maravilhoso,pulsando e nos dizendo:Eu Preciso viver!Eu quero viver! Eu tenho o direito de ser feliz! O vento foi feito para refrescar,jamais posso ser impedida de sentir todos os benefícios que ele pode me trazer,por medo de sair.

  • Mel Di Pietro | Segunda-Feira, 28 de Janeiro de 2019, 09h11
    6
    0

    Muito bom, matéria incrível! Realmente o medo nos domina, é muito difícil sair de um relacionamento abusivo visto que não temos nenhum suporte, nenhum apoio e nenhuma proteção da justiça brasileira. A cada dia que passa os números aumentam e nada é feito para mudar essa realidade. Fora a sociedade que julgam colocando na maioria das vezes as mulheres como culpadas como se algo justificasse agressão.

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