Vivaldo Lopes

Biden e Mato Grosso

Por 12/11/2020, 08h:24 - Atualizado: 12/11/2020, 08h:28

Dayanne Dallicani

Colunista Vivaldo Lopes

Uma questão que tem sido colocada aos analistas econômicos são as alterações das relações comerciais dos Estados Unidos com o Brasil a partir de janeiro de 2021 quando Joe Biden assumir a presidência daquele país. E os reflexos dessa nova política externa na economia de Mato Grosso. Trabalho com o cenário que a agropecuária de Mato Grosso sentirá os efeitos positivos e negativos da nova política externa americana a partir do segundo ano da gestão Biden, com redução do volume exportado para a China e tendo de se adaptar à nova política climática do democrata que conterá mais exigências de proteção climática, rastreabilidade ambiental e defesa dos direitos humanos.

O democrata deve começar com ações domésticas para garantir segurança alimentar, deixando as alterações de acordos internacionais para uma segunda etapa.

A promessa de Biden de proteger o futuro econômico do seu país deve estabilizar e equilibrar demanda externa e preços internacionais das commodities agrícolas

Vivaldo Lopes

A política de comércio internacional americana deve sofrer profundas alterações a se considerar que Biden venceu as eleições exatamente com uma proposta anti-Trump em todos os aspectos, especialmente em sua irracional política ultranacionalista, antiglobalista, quebra de acordos internacionais e de guerras comerciais com as principais economias do planeta como os países da zona do euro e a China. A política de negócios imposta por Donald Trump prejudicou a agropecuária americana e favoreceu o agro brasileiro. Exceto o norte da África, que não tem participação expressiva no comércio internacional agrícola, Trump levou os Estados Unidos a perder espaços nas exportações em todos os demais continentes.  Para citar apenas um exemplo, uma das primeiras decisões de Trump foi sair do acordo Transpacífico (TPP), que garantia aos americanos um mercado de 11 países com intensa demanda por produtos agropecuários com taxas zeradas ou reduzidas. EUA e Brasil são os dois maiores competidores mundiais do agronegócio. O comércio bilateral entre ambos é inexpressivo, mas o movimento de um altera imediatamente as exportações do outro. Com esse rompimento, o Brasil avançou nesse mercado, principalmente nos países asiáticos. A guerra comercial dos EUA com a China proporcionou vantagens competitivas ao Brasil que expandiu expressivamente suas exportações de produtos agropecuários para aquele país asiático. Vantagens que permanecerão a curto prazo, até que o novo presidente americano possa alterar o rumo do transatlântico que é a economia americana. Espera-se que Biden seja cauteloso e não atenda de imediato a solicitação que os chineses devem apresentar logo em janeiro para revisão do acordo assinado com Trump. Mesmo não concordando com as condições do termo, alterá-lo imediatamente pode emitir sinais de fraqueza diante da China, fato que pode irritar os produtores americanos, boa parte deles admiradores de Trump e adeptos da fratricida guerra comercial estabelecida nos últimos quatro anos.

Seguramente a nova política agrícola de Biden vai procurar compatibilizar agricultura e clima. Isso gera riscos e oportunidades para o agro brasileiro. Para não ficar ainda mais isolado, o Brasil precisará dar novo rumo à sua política de proteção ambiental. O setor apresenta considerável dificuldade em reconhecer erros na questão ambiental e apresentar soluções, A permanência do setor como um dos maiores “players” mundiais exige alteração de comportamento nesse quesito. A oportunidade surge quando Biden promete liderar política mundial de economia limpa. Afirmou ontem (11), que vai liberar três trilhões de dólares nos próximos quatro anos para essa finalidade. Nesse campo, O Brasil pode oferecer alternativas na produção e exportação de produtos ligado a esse segmento, beneficiando, por exemplo, a indústria do etanol. Na questão ambiental, Trump fez lá o que o ministro do ambiente queria fazer aqui: “passou a boiada”.  Privilegiou as refinadoras de petróleo, a indústria do carvão, flexibilizou as agências reguladoras. O novo presidente está mais para o etanol que para o carvão e petróleo.

O setor agropecuário de Mato Grosso surfa ondas favoráveis nos últimos anos, devido à sua própria eficiência e ocupando espaços comerciais deixados pela errática política comercial americana dos últimos anos. Mas continua sofrendo com os gargalos de infraestrutura como falta de ferrovias, deficiência de rodovias e banda larga, o que aumenta os seus custos de produção. A forte expansão da demanda externa e câmbio favorável tem escamoteado um pouco essa fraqueza. A promessa de Biden de proteger o futuro econômico do seu país deve estabilizar e equilibrar demanda externa e preços internacionais das commodities agrícolas, fato que exigirá do Brasil e de Mato Grosso aumentar ainda mais a eficiência do agro para mantê-lo competitivo no mercado global. Enfim, a nova política comercial de Washington deve produzir reflexos na renda agrícola da cidade de Sorriso, no meio norte mato-grossense.

Vivaldo Lopes, economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia. É pós-graduado em  MBA Gestão Financeira Empresarial-FIA/USP  (vivaldo@uol.com.br)

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