Vivaldo Lopes

Juros surreais

Por 06/06/2019, 00h:01 - Atualizado: 06/06/2019, 00h:33

Dayanne Dallicani

Colunista Vivaldo Lopes

 

Agentes e analistas do mercado financeiro têm dificuldades em compreender as razões do Banco Central do Brasil para manter a conservadora política de taxa básica de juros muito elevada em ambiente de retração da atividade econômica e inflação baixa. Mesmo diante da forte deterioração da economia e sinais de baixo crescimento no exterior. A inflação domesticada e o país enfrentando a maior recessão de sua história, são fatores que gritam pela redução da taxa de juros. Ainda assim, o Bacen mantém inalterada a Selic em 6,50% ao ano desde março de 2018. Lembro que de 2014 a 2016 o PIB do país sofreu queda acumulada de 7,2% e a inflação anual manteve-se abaixo de 4%.

A principal razão da política monetária é controlar a inflação e manter a estabilidade da moeda do país. A taxa de juros é um importante instrumento para o cumprimento desse escopo da autoridade monetária. Taxa básica de juros alta inibe o crédito que, por sua vez, reduz o consumo e evita o aumento da inflação. Ocorre que a realidade recessiva do país cuidou de reduzir o consumo das famílias, das empresas e do governo, fato que manteve a inflação baixa.

Trabalho com o cenário de que a partir de julho o Banco Central fará o primeiro movimento de redução da Selic, com a sinalização de aprovação da reforma previdenciária

Vivaldo Lopes

A classe empresarial brasileira criou grande expectativa de que a retomada do crescimento econômico daria os primeiros sinais já no primeiro trimestre deste ano. Essa expectativa transformou-se uma grande frustração com a divulgação pelo IBGE de que o PIB do Brasil teve queda de 0,2% nesse período. As previsões para o segundo trimestre também não são as melhores. O amadorismo da coordenação política do atual governo fez o mercado estabelecer outubro como a data provável de aprovação da reforma da previdência, adiando para 2020 a possibilidade de um crescimento mais robusto da atividade econômica.

A desaceleração da inflação atua para retirar qualquer argumento técnico para manutenção da taxa Selic no elevado patamar atual. O índice mensal de inflação de maio deve situar-se próximo de zero e podemos ter deflação em junho. O cenário internacional, como resultado das insanas guerras comerciais deflagradas pelo presidente americano, Donald Trump, contra a China e a União Europeia, sinaliza tendência global de um ano de crescimento e inflação baixos. O cenário econômico local e internacional e a mitigação do balanço de riscos da inflação devem alterar o discurso excessivamente cauteloso do Banco Central, que pode iniciar movimentos de redução da Selic mesmo antes da aprovação final da reforma da previdência pela Câmara e pelo Senado Federal. A modernização da previdência sozinha não vai proporcionar crescimento econômico, pois produzirá resultados a médio e longo prazo. Mas é sinalizadora da força política da administração federal e do esforço pelo equilíbrio fiscal. Atuará como um gatilho para aprovação de outras importantes reformas, como a tributária e o programa de privatizações que reduzirão o tamanho do estado e podem torná-lo mais eficiente.

Trabalho com o cenário de que a partir de julho o Banco Central  fará o primeiro movimento de redução da Selic, com a sinalização de aprovação da reforma previdenciária no último trimestre do ano. Em outubro podemos ter nova movimentação que reduziria a Selic para 6%, indicando ao mercado interno e externo que as outras reformas também serão aprovadas, destravando os investimentos que são extremamente necessários para o país sair do ciclo recessivo que nos fustiga impiedosamente desde 2014.

Vivaldo Lopes é economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia.  É pós-graduado em MBA e Gestão Financeira Empresarial pela FIA/USP. Escreve nesta coluna com exclusividade às quintas-feiras. E-mail: vivaldo@uol.com.br

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