Vivaldo Lopes

MT e a disputa comercial EUA e China

Por 22/08/2019, 08h:21 - Atualizado: 22/08/2019, 08h:32

Dayanne Dallicani

Colunista Vivaldo Lopes

Nem o mais otimista analista de mercado poderia imaginar que a insana guerra comercial entre os dois gigantes poderia beneficiar os produtores de soja de nosso estado

De forma não planejada a soja de Mato Grosso está no centro da famigerada disputa comercial iniciada pelo presidente americano Donald Trump contra a China.

Nem o mais otimista analista de mercado poderia imaginar que a insana guerra comercial entre os dois gigantes poderia beneficiar os produtores de soja de nosso Estado.

Tendo praticamente toda sua produção industrial sobretaxada pelos americanos, um dos contragolpes desferidos pelos chineses foi a drástica redução das importações da soja americana.

Ato contínuo, para garantir o elevado consumo dessa proteína, a China passou a comprar mais soja brasileira e de Mato Grosso. Brasil e Estados Unidos travam acirrada disputa pelo fornecimento de soja para o mercado chinês, com os americanos em primeiro lugar e o Brasil em segundo.

A pressão dos produtores agrícolas americanos, aliados aos consumidores de produtos industrializados, fez com que o presidente americano adiasse para o início de 2020 a sobretaxação dos produtos importados da China.

Neste ano teremos considerável aumento nas exportações de soja para a China

A redução da demanda chinesa provocou a queda de expectativa da produção de soja daquele país. Efeito contrário será notado na produção de soja brasileira. Relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos ( USDA ), divulgado nesta semana, indica que pela primeira vez na história a produção de soja americana será inferior à do Brasil. O departamento estima em 112 milhões de toneladas a produção de soja americana e 123 milhões a do Brasil.

Os reflexos dessas medidas chegaram imediatamente aos campos matogrossenses. E de forma positiva. Há vários anos a China já ocupa o primeiro lugar nas exportações de soja de Mato Grosso. Neste ano teremos considerável aumento nas exportações de soja para a China. Diante das boas expectativas no cenário das exportações, os fazendeiros de soja do estado deverão expandir a produção para a próxima safra de 2020. A nossa produção de soja em 2019 foi de 32,5 milhões de toneladas. Estima-se que em 2020 a produção será superior a 33 milhões de toneladas, estimulada pela boa cotação dos preços internacionais, valorização do dólar e aumento das compras chinesas.

Especialistas em geopolítica e comércio internacional estimam que a guerra comercial entre americanos e chineses deve ter uma solução negociada a partir do segundo semestre de 2020. Mato Grosso deve surfar essa onda comercial positiva no curto prazo

Especialistas em geopolítica e comércio internacional estimam que a guerra comercial entre americanos e chineses deve ter uma solução negociada a partir do segundo semestre de 2020. Mato Grosso deve surfar essa onda comercial positiva no curto prazo, estendendo-se até a comercialização antecipada da safra agrícola de 2021. Fechado o acordo comercial, o quadro deve retornar à situação atual na qual os americanos continuarão sendo os principais fornecedores de soja para o mercado chinês. Isso porque uma das condições que Donald Trump deverá exigir da China para fechar o acordo será a garantia de aumento da compra da soja dos agricultores americanos. Estes, são eleitores de Donald Trump e já se manifestam contrariados com as perdas em seus lucros que resultam das estapafúrdias decisões econômicas tomadas pelo presidente americano. Ao contrário do que imaginam alguns “pensadores” da atual política externa brasileira, os Estados unidos não são um país amigo do Brasil. São, sim, um fortíssimo concorrente do agro brasileiro e mato-grossense.

A janela de oportunidades abertas com a guerra comercial tem como ameaças a possibilidade do seu prolongamento, o que pode levar a uma recessão mundial e consequente redução de consumo, inclusive da China. Nesse caso, os efeitos serão desastrosos para toda a economia global, com impactos mais profundos nos paises emergentes, como é o caso do Brasil. Resta à Mato Grosso utilizar bem a oportunidade comercial e torcer para que um acordo comercial entre EUA e a China aconteça o mais breve possível.

Vivaldo Lopes é economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia.  É pós-graduado em MBA e Gestão Financeira Empresarial pela FIA/USP. Escreve nesta coluna com exclusividade às quintas-feiras. E-mail: vivaldo@uol.com.br

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