Vivaldo Lopes

O agronegócio e a crise

Por 09/04/2020, 10h:14 - Atualizado: 09/04/2020, 10h:18

Dayanne Dallicani

Colunista Vivaldo Lopes

Diante do cenário de verdadeira guerra sanitária-econômica mundial contra a pandemia do coronavírus, a longa cadeia produtiva do agronegócio brasileiro será um dos poucos setores que vai conseguir atravessar a crise obtendo ganhos e mantendo sua posição de protagonismo na economia nacional e mundial.

O agronegócio brasileiro será um dos poucos setores que vai conseguir atravessar a crise obtendo ganhos e mantendo sua posição de protagonismo na economia nacional e mundial

Ainda sem atingir seu ponto máximo de intensidade e duração, a atual crise, já se tornou a maior de todas, quando comparada às grandes crises mundiais ( gripe espanhola em 1918-1920, grande depressão 1929-1933, segunda guerra mundial 1939-1945, crise financeira americana 2008-2009 ). Em todas as crises anteriores, a paralisação dos processos industriais e comerciais não foi tão intensa como na situação atual.

As autoridades sanitárias mundiais e a ciência médica recomendam como principal arma de combate preventivo à doença o isolamento social e restrição de aglomerações, ocasionando paralisia de quase todos os sistemas produtivos mundiais, exceto aqueles considerados essenciais. Como é o caso da produção e circulação de alimentos, beneficiando o setor de produção agropecuária e a indústria alimentícia.

Com estoques mundiais das principais commodities agropecuárias estão elevados e a redução de consumo, esses produtos agrícolas não sofreram, inicialmente, choques de preços. Ao contrário, os preços internacionais ficaram estabilizados e alguns produtos tiveram até mesmo quedas. A retomada das atividades na China reaqueceu as exportações em março e a disparada do dólar diante do real corrigiu as perdas causadas pela queda dos preços internacionais.

No mercado doméstico houve aumento de consumo de alimentos, após leve retração inicial, em razão das incertezas que levaram grande parte das famílias a comprarem mais que o usual para estocagem doméstica. A retração de consumo em bares e restaurantes foi um pouco compensado pelo aumento de alimentação pelos sistemas “deliverys”.

Os principais produtos de exportação de Mato Grosso são a soja e seus derivados, algodão, carnes e milho (...) nos três primeiros meses do ano as exportações desses produtos ficaram no mesmo patamar do mesmo trimestre de 2019 

Os principais produtos de exportação de Mato Grosso são a soja e seus derivados, algodão, carnes e milho. Boletim econômico divulgado semanalmente pelo Instituto Matogrossense de Economia Agrícola – IMEA, com base em dados do Ministério da Economia/Cacex, informa que nos três primeiros meses do ano as exportações desses produtos ficaram no mesmo patamar do mesmo trimestre de 2019. Provavelmente por que as restrições comerciais forçadas pela pandemia somente afetaram a comercialização desses produtos a partir do início do mês de março. Produtores e exportadores tiveram seus ganhos aumentados pela desvalorização do real perante o dólar americano que nesta semana chegou ao incrível patamar de R$ 5,35 por 1 dólar.

A soja, que em 2020 colherá safra recorde de 34 milhões de toneladas, teve volumes exportados no primeiro trimestre iguais às do mesmo período de 2019, tendo sua competitividade internacional impulsionada pela questão cambial. A ameaça às exportações de Mato Grosso surge sob a forma do acordo Estados Unidos-China que estabelece elevado volume de soja americana a ser comprado pela China.

No caso do algodão, houve aumento expressivo nas exportações da fibra em pluma. Mato Grosso foi responsável por 68% das exportações nacionais, de janeiro a março, tendo a China como a principal compradora.

A bovinocultura de corte foi o segmento da agropecuária que mais sentiu os efeitos da retração de consumo no mercado interno com o fechamento dos bares e restaurantes, que por sua vez, levou à paralisação de várias plantas industriais. A reativação das compras pela China e países da zona do Euro melhoram as expectativas de que o setor possa recuperar parte das perdas verificadas no mercado local.

A produção de milho que tem no mercado doméstico sua principal fonte de receitas, vinha destinando boa parte da produção para a produção de etanol. Sentiu a forte retração do consumo de combustível e consequente queda de preços. Os grandes compradores externos, com suas economias em frangalhos, reduziram importações. Como a maior parte da produção é colhida de julho a setembro, o setor trabalha com a expectativa de melhora do consumo interno no segundo semestre, quando a pandemia terá sua intensidade reduzida e a circulação de pessoas e mercadorias devem voltar à normalidade.

A boa performance produtiva e posicionamento no comércio global conquistadas pelo agro mato-grossense ao longo dos últimos quarenta anos devem contribuir novamente para mitigar os efeitos corrosivos da crise sobre a economia do estado. Trata-se de saudável relação ganha-ganha. A nação e o estado ajudaram a alavancar o agro com pesquisa cientifica, por meio de universidades públicas e Embrapa, crédito subsidiado e incentivos fiscais e, em contrapartida, em situação de aguda crise sistêmica, o setor agora retribui atuando para que o tombo do PIB seja amortizado.

Vivaldo Lopes é economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia.  É pós-graduado em MBA e Gestão Financeira Empresarial pela FIA/USP. Escreve nesta coluna com exclusividade às quintas-feiras. E-mail: vivaldo@uol.com.br

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Comentários (1)

  • Covid no Biroliro | Quinta-Feira, 09 de Abril de 2020, 17h02
    1
    0

    O agronegócio é o PARASITA do Brasil! Recebem incentivos financeiros que são refinanciados com prazos a perder de vista, além de isenções fiscais para compra de insumos, máquinas, carros e caminhonetes. Por outro lado, não pagam um centavo de ICMS para os produtos de exportação, a exemplo da soja e do algodão, por conta da Lei Kandir.

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