Coronavírus

Quarta-Feira, 25 de Março de 2020, 11h:58 | Atualizado: 25/03/2020, 11h:59

"RESFRIADINHO"

Gilberto assina carta na qual conselho diz estar estarrecido com fala de Bolsonaro

Mayke Toscano

Gilberto Figueiredo

O secretário Gilberto Figueiredo, da Saúde, durante trasmissão de pronunciamento sobre atual quadro do novo coronavírus em MT, nesta terça

Estarrecido com o pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro, o secretário de Saúde de Mato Grosso, Gilberto Figueiredo, assinou junto ao Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde do Brasil uma carta na qual afirmam que as declarações são uma tentativa de desmobilizar a sociedade brasileira e as autoridades sanitárias de todo o país.

Na noite desta terça (24), Bolsonaro falou que a imprensa está criando histeria em torno do que entende ser apenas uma “gripinha” e “resfriadinho”. Para ele não há necessidade de confinamento e não entende a suspensão de aulas. “O que se passa no mundo tem mostrado que o grupo de risco é o das pessoas acima dos 60 anos. Então, por que fechar escolas?”

O Conass afirma que essa fala do presidente “dificulta o trabalho de todos, inclusive de seu ministro e técnicos”. Isso porque o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tem orientado no sentido contrário ao que defende o presidente.

Em entrevista à jornalistas durante a manhã desta quarta (25), Bolsonaro se referiu a governadores e prefeitos que tem mantido as restrições, como criminosos. Em Mato Grosso, o governador já anunciou que apesar do pronunciamento de ontem, vai manter os decretos e as posturas já adotas, em consonância com o secretário de Saúde, Gilberto Figueiredo.

Confira a íntegra da Carta:

"Carta dos Secretários Estaduais de Saúde do Brasil após pronunciamento do Presidente da República

Assistimos estarrecidos ao pronunciamento em cadeia nacional do Presidente da República, Jair Bolsonaro.

É preciso demonstrar ao Brasil as suas consequências e a necessidade de que a população perceba a gravidade do momento que estamos vivendo.

Temos, juntamente com o Ministério da Saúde, os municípios e a própria sociedade brasileira, empreendido uma intensa luta no enfrentamento da Covid-19.

Luta que envolve trabalho, sacrifício, solidariedade, empatia, compaixão com o sofrimento das pessoas e que depende de maneira imprescindível do alinhamento de entendimento e de ações, assim como da união de esforços e de uma direção única e firme.

Todas as decisões e recomendações do Conass e do Ministério da Saúde têm se baseado em evidências científicas, na realidade nacional e internacional e buscado inspiração nas melhores práticas e exemplos de condutas exitosas ao redor do mundo.

É este o esforço que temos empreendido em defesa de nossa pátria e de nossos irmãos e irmãs brasileiros. É dessa forma, desassombrada e corajosa, na direção correta que queremos seguir na missão de defender nossa gente.

Não temos qualquer intenção de politizar o problema. Temos construído, sem dificuldade, independente de colorações partidárias, políticas e ideológicas, consensos para o bem do Sistema Único de Saúde – o SUS e, sobretudo com a saúde do povo brasileiro. Este é nosso compromisso. É isso que norteia nossas ações e esforços.

Já temos dificuldades demais para enfrentar.

Não podemos permitir o dissenso e a dubiedade de condução do enfrentamento à Covid-19. Assim, é preciso que seja reparado o que nos parece ser um grave erro do Presidente da República.

Ao invés de desfazer todo o esforço e sacrifício que temos feito junto com o povo brasileiro, negando todas as recomendações tecnicamente embasadas e defendidas, inclusive, pelo seu Ministério da Saúde, deveríamos ver o Presidente da República liderando a luta, contribuindo para este esforço e conduzindo a nação para onde se espera de seu principal governante: um lugar seguro para se viver, com saúde e bem estar.

Infelizmente o que vimos em seu pronunciamento foi uma tentativa de desmobilizar a sociedade brasileira, as autoridades sanitárias de todo o país.

Sua fala dificulta o trabalho de todos, inclusive de seu ministro e técnicos.

Todo o apoio à atuação do Ministério da Saúde e sua equipe, que tem trabalhado técnica e cientificamente em todos os momentos. Com saúde não se pode brincar e nem fazer apostas, diante do risco que corremos. É preciso discernimento, coragem e determinação para liderar, unificar e auxiliar a nação a superar mais este desafio de Emergência em Saúde Pública.

Temos plena consciência de que o Brasil e o mundo irá enfrentar uma grave recessão econômica, aprofundamento das desigualdades sociais e empobrecimento.

A economia, com trabalho, disciplina, organização e espírito público, se recuperará. Seremos solidários e trabalharemos sem descanso para permitir uma rápida recuperação da nossa economia.

Mas é preciso que se entenda, vidas perdidas, não serão recuperadas jamais.

Que Deus abençoe cada um de nós que temos trabalhado intensivamente e dormido pouco.

Que Deus abençoe e proteja todos os brasileiros e brasileiras.

#ficaemcasa

Secretários de Estado da Saúde do Brasil"

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