Coronavírus

Sábado, 01 de Agosto de 2020, 12h:18 | Atualizado: 01/08/2020, 12h:21

Mais de 60% das mortes por Covid-19 em Porto Esperidião são de chiquitanos saiba

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Ind�genas Chiquitanos

Em Porto Esperidião, existem três grupos que fazem a festa e se revezam para recebê-la a cada ano; a dona de uma destas casas foi vítima da Covid-19

No dia 15 de julho, o município de Porto Esperidião, em Mato Grosso, totalizava 264 casos confirmados e 12 óbitos por Covid-19. Segundo moradores do local, das 12 mortes, 8 eram de chiquitanos não aldeados e nem todos reivindicam a identidade indígena. A contabilização informal, partilhada por moradores, tem sido feita por meio dos sobrenomes, explica José Roberto de Oliveira Rodrigues, primeiro vereador e prefeito chiquitano do município.

Entre os que deixaram Porto Esperidião, estão personagens importantes do Curussé, manifestação cultural carnavalesca. Uma dessas pessoas era Maria Assunta Mendes, uma das que recebia a festa em sua casa. Manoel Inácio Massay Mendes, seu filho, conta que ela estava com a diabetes muito alta e foi internada em Cuiabá. Segundo ele, o primeiro teste de Covid-19, realizado em Porto Esperidião, atestou negativo, mas ao chegar na Capital a doença foi confirmada.

Traçar um panorama do impacto da pandemia na vida e na cultura da chiquitania é algo complexo. Primeiro porque eles estão dispersos por vários municípios sem que seu território originário tenha sido demarcado, segundo porque boa parte deles teve suas identidades indígenas massacradas pelo processo de colonização da fronteira do Brasil com a Bolívia.

 “Nós temos muitos chiquitanos que não se assumem como chiquitanos. No censo de 2010 os que se disseram chiquitanos são 412, mas se a gente contar todas as famílias nas várias periferias, a gente sem dúvida chega a uns 20 mil”, explica Aloir Pacini, antropólogo que escreveu sua tese de doutorado sobre a identidade étnica desse povo.

Os chiquitanos não aldeados e a alta vulnerabilidade à Covid-19

A ausência de território demarcado faz parte da realidade dos chiquitanos no Brasil. Atualmente, eles estão espalhados no sudoeste e centro-sul mato-grossenses, nos municípios de Cáceres, Porto Esperidião, Pontes e Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade. Na Terra Indígena Portal do Encantado (em processo de demarcação) vivem 432 chiquitanos, segundo dados de 2019 da secretaria especial de Saúde Indígena (Sesai).

Devido ao processo de colonização da fronteira com a Bolívia, os chiquitanos tiveram suas terras ocupadas por destacamentos militares, fazendeiros e outros. “Nós sabemos que as pessoas não estão todas concentradas dentro das aldeias por diversos motivos. Existem os chiquitanos que foram coagidos pelos invasores, fazendeiros”, explica Soilo Urupe Chue, chiquitano e integrante da Federação dos Povos e Organizações Indígenas de Mato Grosso (Fepoimt).

Essa situação torna esse povo ainda mais vulnerável que outros indígenas que possuem terras onde podem plantar, caçar e pescar. No bairro Aeroporto, em Porto Esperidião, toda a família de indígenas não aldeados de Aguinaldo Muquissai Massavi contraíram Covid-19. “São 32 pessoas que se identificam como indígenas no nosso bairro, na minha família somos 15, todos nós pegamos Covid”, relata. Agnaldo e seu pai ficaram internados por nove dias e seu irmão cinco, mas todos se salvaram da doença.

Em Jardim Aeroporto, periferia do município de Vila Bela de Santíssima Trindade a situação é uma das mais graves. Boa parte das famílias vivem do trabalho informal, algumas não têm recursos para alimentação e sequer para pagar o aluguel.

“Nós, enquanto chiquinato, que moramos aqui na cidade principalmente estamos reivindicando terra, porque a maioria mora de aluguel, não temos espaço nenhum, não temos apoio da parte dos nossos governantes”, explica Feliciana Maconho Paez, da Organização Chiquitana Aeroporto (OCA).

Embora situações como essas possam ser mapeadas, é difícil dimensionar os efeitos da Covid-19 nos chiquitanos. Muitos deles não reivindicam a identidade indígena. “Até o dia 22 de julho, a secretaria identificava 12 chiquitanos infectados e 7 casos suspeitos na T.I. Portal do Encantado. No entanto, não faz referência a outras possíveis mortes fora das aldeias.

Curussé perde seus festeiros para o vírus

Em Porto Esperidião, existem três grupos que fazem a festa e se revezam para recebê-la a cada ano. A dona de uma destas casas, Maria Assunta Mendes, foi vítima da doença. Além de Maria, também foram vítimas da doença Teodoro, que era tocador de caixa do grupo Asa Branca e Antônio Lourenço, do grupo Nativo, que era festeiro e juiz da festa, aquele que determinava o ritmo dos toques. Também faleceu Luzia Sié, do grupo Asa Branca que contribuía com culinária do festejo.

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Ind�genas Chiquitanos

A medicina tradicional chiquitana contra o coronavírus

Para além do Curussé, as ervas medicinais dos chiquitanos são outra tradição presente nas populações destas regiões. Roselino Parava Ramos, da aldeia Naltukirsch Piciorsch, se orgulha em dizer que até o momento da entrevista, dos oito infectados pela Covid-19 na T.I. Portal do Encantado, nenhum teve os sintomas graves da doença. “Foi descoberto que nossas ervas era um dos fatos que preveniu muito”, explica ao contar sobre a fama dos “remédios naturais” na região.

O antropólogo Aloir Pacini ressalta que os cuidados com alimentação e os conhecimentos das ervas são fatores importantes em como este povo tem enfrentado a pandemia. “O que é impressionante é a tradição deles de uso de chás e medicamentos naturais. Eles usam muitas plantas para cuidar da sua saúde, para banho. Eles têm conseguido manter a saúde porque eles têm uma alimentação bastante equilibrada”.

Perguntado sobre um sonho para o seu povo, o cacique José disse ser o território. “Defendemos nossos direitos à terra até porque o nosso povo ainda não tem nem uma terra demarcada e com essa doença somos muito prejudicados por não podermos sair para nos defender”.

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