Ditadura

Perseguidos eram trancados no porão do Alencastro que tem fama de assombrado

Selo Cuiab� 300 anos

O chão da Praça Alencastro sustenta há muitos anos os passos acelerados dos que atravessavam as avenidas rumo suas rotinas. Algumas destas, bastante tranquilas e outras, conturbadas. Hoje, carros de som, um falatório constante, e muita gente se esquiva de estatuetas de diferentes personalidades que por ali também passaram. Os bustos representam autoridades de múltiplos momentos históricos, bem como o próprio local escolhido para erguê-los. É que na praça, desde o período imperial, até o regime militar ou no retorno das eleições diretas, sempre afloraram interesses e discussões políticas.

Arquivo público

Pal�cio Alencastro foi tamb�m delegacia DOPS na �poca da Ditadura Militar

Palácio Alencastro foi também Delegacia de Ordem Política e Social (Dops) na época da Ditadura Militar, perseguidos políticos temiam torturas no local

Na frente dela, onde hoje se abriga o prédio da Prefeitura de Cuiabá, nomeado Palácio Alencastro, ficava o Antigo Palácio Presidencial, que acolheu presidentes e governadores. Em 1959, a estrutura foi demolida para dar espaço a atual estrutura e atividades.

 Antiga delegacia da Dops

O subsolo do Palácio Alencastro, nos primeiros anos do regime militar, foi a Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), sigla temida pelos perseguidos políticos pela forma como eram abordados, presos e mantidos na delegacia ou batalhão do exército. 

Quem esteve no poder, o usou para perseguir pessoas, mesmo que elas não estivessem contra o regime

Cientísta político João Edisom

Documentos nacionais revelam listas com nomes de presos, torturados e desaparecidos naquele momento. Os métodos aplicados para obter informações políticas eram de responsabilidades dos militares, denominados Homens de Ouro, e a tortura estava entre os macetes.

Nas crendices populares, entre os locais “mal assombrados” está o Palácio Alencastro. Isso porque muitos teriam sido presos e mortos durante a ditadura. Outros, executados na praça ou dentro do prédio pelos pistoleiros que circulavam por ali. O prédio é antigo e frequentemente tem problemas na fiação e elevadores. Toda essa situação mexe com o imaginário dos mais supersticiosos. 

Arquivo público

Capit�o Filinto M�ller e outros militares posam para foto

Capitão Müller e outros militares posam para foto em meio à Ditadura

Após reformas, não existem mais vestígios das celas nas quais foram mantidos os presos. No subsolo restam apenas banheiros, almoxarifado e outras dependências da prefeitura. Para o analista político João Edisom, durante a ditadura militar é preciso avaliar bem o recorte interiorano diante das ordens que partiam das grandes Capitais como São Paulo e Rio de Janeiro.

“Cuiabá ainda não tinha a Universidade Federal e, então, não havia movimento estudantil. Aqui sempre foram muito voltados à direita, apesar de existirem alguns resquícios de relações partidárias, como a do partido Comunista, mas não sofreu um movimento como nas grandes Capitais”, argumenta.

Para o analista, as perseguições políticas em Cuiabá e em outras partes do Estado se davam por interesses particulares, não ideológicos. “Quem esteve no poder, o usou para perseguir pessoas, mesmo que elas não estivessem contra o regime. Bastava que fosse contra eles politicamente. Não havia engajados comunistas ou um partido opositor”, define João.

Neste momento, o que ele avalia é que as mortes eram motivadas por outras situações, distante das ordens dadas pelos militares das grandes Capitais. Além disso, discorre sobre Mato Grosso ser uma grande área habitada por camponeses, analfabetos e viajantes que chegavam pelos municípios movidos pela oferta de emprego. “Existia muito trabalho, mas a gente tem que entender que esse trabalho estava completamente fora de qualquer regime trabalhista, com salário minúsculo. Eram também os paus rodados. Em algumas fazendas existiam mais de 50 famílias morando, em troca de comida e roupa. Quando eram mandados embora não recebiam direito algum”, reflete. 

Arquivo público

Na ditadura ind�genas, negros e pobres tamb�m sofriam repres�lias

Na ditadura, indígenas, negros e pobres também sofriam represálias. O poder ficava na mão de poucos, que eram ricos tinham comércio no exterior ou no RJ

Segundo o cientista político, quem morava aqui não tinha a menor noção de nada, era conduzido pela política paroquial do Estado. Era a maneira mais eficaz de persegui-los e matá-los. “Era uma perseguição desenfreada e burra, não era por estar ligado a um partido ou representar algo. Aqui não tinha oposição nenhuma, todos os partidos obedeciam às ordens militares. Era uma questão apenas de autoritarismo e do poder excessivo dado a algumas pessoas”, avalia.

Fato que o analista pondera ainda se estabelecer em Mato Grosso, ao considerar que muitas alianças políticas são feitas através de afinidade e não por coerência de partidos ou pautas. “Continuamos a ter uma relação periférica e rasa com a política central do Brasil", acredita. 

Na praça da prefeitura, antes do anos 2000, ainda era cheia de pistoleiros

Cientísta político João Edisom

Uma das exemplificações de Edisom é que a fama de Mato Grosso em outros cantos do país era que aqui “a justiça era de 44” imperava, o que, para ele, perdurou até os anos 90. “Dizia-se que aqui não havia Justiça, quem tem arma manda. Foi só depois da execução do Juiz Leopoldino Marques do Amaral que as coisas se tornaram diferentes. Na praça da prefeitura, antes do anos 2000, (muito após o império ou a ditadura militar) ainda era cheia de pistoleiros”, pontua.

Para ele, a pessoalidade não se estabelece apenas nas escolhas partidárias (que podem se tornar ideológicas), mas nos crimes cometidos na política mato-grossense. “Boa parte das execuções foram por problemas de negócios ou por motivo passional”.

A economia no Regime Militar era inflacionada e as pessoas viviam em situações precárias

Dados do Banco Mundial revelam que a dívida externa cresceu quase 30 vezes e saltou de R$ 3,4 bilhões para R$ 100 bilhões, entre 1964 e 1985, período que durou o regime. No fim da ditadura, a inflação anual era de 231%. Devido o arrocho fiscal, houve desvalorização de 50% do salário mínimo e o resultado foi à concentração da renda na mão de poucos. Enquanto em 1964, o 1% mais rico detinha de 15% a 20% da riqueza, no fim do regime o percentual chegou a 30%.

Banco Mundial

Dados do Banco Mundial revelam que a d�vida externa cresceu quase 30 vezes e saltou de R$ 3,4 bilh�es para R$ 100 bilh�es, entre 1964 e 1985, per�odo que durou o regime

Dados do Banco Mundial revelam que a dívida externa cresceu quase 30 vezes e saltou de R$ 3,4 bi para R$ 100 bi

O analista faz a equiparação de quem ditava as ordens, hoje os que conhecemos como os empreiteiros. Na época, eles eram os que tinham comércio no exterior ou no Rio de Janeiro, além dos que mantinham ligação com as cortes religiosas. Mato Grosso ainda era um território só, não havia ocorrido à divisão do Estado.

A Universidade Federal, por exemplo, foi construída durante o regime. Além dela, estradas foram construídas. “Elas seriam abertas com ou sem aquele regime. No entanto, com o momento político, algumas decisões foram aceleradas. Até para ganhar o apoio popular, para mostrar serviço. Eles abriram a BR-163, mas ela foi asfaltada a partir de 1982 até 1985, que já era o fim do regime militar”, explica.

Para o especialista, quem defende a ditadura tem a capacidade de excluir todos os malefícios contra as pessoas e considerar apenas o patrimônio que foi erguido. “Todos eles construídos através de absurdas inflações e ausência de direitos trabalhistas”, argumenta. 

Arquivo público

Reuni�o para divis�o de Mato Grosso, planejavam avan�o ao sul do Estado

Reunião para divisão do Estado, planejavam avanço ao Sul do com cidade planejada

O endividamento do setor público e o aumento da desigualdade social, mesmo após anos do regime, ainda é um problema enfrentado pelo país. Para o analista, os militares conseguiram modernizar a economia, mas por alto preço que ainda é pago após a redemocratização, como hiperinflação e dívida externa estratosférica.

O que João analisa, além da economia inflacionada e outros dados do Estado, é que as obras palpáveis são mais fáceis de lembrar e os sofrimentos esquecidos. “Cuiabá tinha um ar imperial formada por fazendeiros de gados. Naquele período, Várzea Grande também chegou a ser chamada de cidade industrial, mas Mato Grosso era uma economia muito mais pecuarista do que industrial”, revela. 

Existia muito trabalho, mas a gente tem que entender que esse trabalho estava completamente fora de qualquer regime trabalhista, com salário minúsculo

Cientísta político João Edisom

 

Segundo o cientista político, também se esperava uma guinada à esquerda dos sulistas vividos tais quais Leonel Brizola, o que não ocorreu, inclusive pelas brigas de terras que alguns viveram por “usucapião”. Sendo assim, habituando-se aos costumes.  “Para quem tinha questões políticas, tudo era regime até 1980. No último presidente, João batista Figueiredo, ele era tão maltratado quanto a Dilma foi um dia. A inflação era de 30 a 40 ao mês. Ninguém defendia mais o regime”, afirma.

Alianças por afinidade e a relação periférica com a política nacional

Em Mato Grosso, o regime começa a se dissolver com a eleição de Júlio Campos. Para o cientista, depois da ditadura, se tornou uma espécie de status social alegar perseguição política. “Esse é outro fator que não deixa a história ser tão limpa. Começam a aparecer muitas vítimas do regime, que não foram perseguidos. Todo mundo foi para o MDB (antigo PMDB), partido que era contra o regime”, comenta João Edisom.

Quando se findou o regime militar, com o desgaste econômico oriundo de inflações e dívidas externas, quase não havia apoiadores e as pessoas negavam que tinham pertencido aos poderes daquele momento. “Além disso, inventavam versões de que eram contra. Os discursos da década de 80 permeavam essa questão. Migravam de partido feitos loucos”, finaliza. 

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