CUIABÁ 300

Segunda-Feira, 08 de Abril de 2019, 07h:14 | Atualizado: 08/04/2019, 13h:32

Entre o abandono e o descaso, casarões se desfazem como papéis antigos fotos

Selo Cuiab� 300 anos

Quem passa pelas ruas do centro de Cuiabá observa que a arquitetura inspirada na arte barroca se misturou com prédios industriais setecentistas e, aos poucos, também com esquinas que dão espaço para um ou outro arranha-céu.

Essas construções guardam memórias desde a chegada dos imigrantes no século 18, mas também tem marcas dos anos 70 e 80, quando grandes fábricas se instalaram na Capital ou quando empreendedores e políticos investiram, em diferentes momentos, em aberturas de avenidas e na ampliação de bairros que cercam a área central da cidade.

Determinadas obras, após três séculos, caíram. Outras, sem surpreender ninguém, só aguardam a força do tempo. Em cada tijolo já erguido, quando despenca, se vai um pedaço da memória e fica um pouco do descaso. Obras também são abandonadas, incluindo ruas e escadarias, sem prestação de contas para a população.

Exemplo recente é a estrutura da Casa de Bem Bem, na Rua Barão de Melgaço, que desmoronou em 2017. Neste ano, a maior parte de outro casarão histórico (antiga Gráfica do Pepe), que se localiza ao lado do Museu de Imagem e Som de Cuiabá (Misc), também caiu. A restauração da Escadaria do Beco Alto, que era atravessada por negros e indígenas para construir o Centro Histórico, também foi abandonada.

Galeria: Casarões do centro histórico

Com a expansão da cidade, algumas destas construções foram abandonadas pelos seus donos ou seguem em brigas judiciais (por se tratarem de herança de família) e, com a falta de intervenção do Poder Público, não resistem às intensas correntes de vento e se desfalecem com as chuvas – como pedaços de papel.

Taipa de pilão, sangue animal e ouro

Já se sabe que muitos dos casarões coloniais foram erguidos no século 18 por africanos e indígenas que foram escravizados naquele período. Cada momento com sua peculiaridade. Entre as obras está a igreja mais antiga da cidade, Nossa Senhora do Rosário e São Benedito.

Ela guarda histórias da devoção dos cuiabanos e reúne fiéis de São Benedito, padroeiro da cidade, mas  também marca a Capital pela forma como foi construída. Estudiosos afirmam que, por não existir cimento naquela época, acrescentavam, aos restos de construção, fezes de animais, sangue e um barro de taipa de pilão. 

Rodinei Crescêncio

Foto hist�rica e atual da Igreja de S�o Benedito e da Prainha. Regi�o foi garimpo durante a febre do ouro

Foto histórica e atual da Igreja de São Benedito e da Prainha. Ficou pronta em 1725, mas a inauguração se apenas deu cinco anos depois. Nas paredes, há lascas de ouro e sangue. Antes de chegar até a igreja mais antiga da Capital, negros e indígenas atravessavam ainda pela centenária Escadaria do Beco Alto 

As colunas que sustentam as imagens dos santos são em formato de espiral, identificadas por arquitetos como uma estrutura “salomônica”. Além delas, algumas colunas com padrão mais liso e reto no estilo barroco rococó. Algumas paredes variam entre 90 e 40 centímetros de espessura.

“Essa igreja gerou uma confusão entre os próprios moradores e traz memórias materiais e espirituais para diferentes culturas. Ela ficou pronta em 1725, mas a inauguração se deu cinco anos depois. Foi levantada por um grupo de escravos compostos por negros forros e escravos libertos”, comenta o historiador Pedro Félix.

O grupo que ele se refere era chamado de Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos de Cuiabá. Em sua restauração, foram encontrados restos de animais, couro e lascas de barro antigas com resíduos, provavelmente da Prainha, carregados de ouro.

Antes de chegar até a igreja mais antiga, negros e indígenas atravessavam também pela centenária Escadaria do Beco Alto, no Centro Histórico, próxima a Praça da Mandioca. Em janeiro deste ano, arquitetos criticaram o abandono da obra. A restauração havia sido avaliada em R$ 202 mil, em 2018, mas os trabalhos ficaram parados por três meses. Hoje, não tem tapumes, placas e nenhuma sinalização que informe a continuidade da obra. Antes, a escadaria era cortada por árvores, que foram arrancadas e nada foi dito sobre a sua inauguração.

Outra obra antiga é a do primeiro hospital de Cuiabá. Ela existe há 202 anos, e foi criado quando a Capital ainda era Vila Bela da Santíssima Trindade. Na época, a obra foi considerada a primeira construção imponente da cidade e, hoje situada no bairro que nomeado de Bandeirantes, antes conhecido como Mundéu, por sua grande extensão.

A arquitetura que se ampliou a partir dos anos 70

Após a maior enchente enfrentada pelos cuiabanos em 74, a cidade passou por modificações improvisadas e a construção de novos bairros. Avenidas foram construídas no mesmo período e investimentos tiveram de ser feitos para que a cidade não fosse destruída ou pessoas ficassem isoladas outras vezes. 

No especial sobre esta enchente, o constatou que a área central da cidade, por este motivo, teve a população ampliada. A concentração popular na área do Centro Histórico, inclusive nas margens da Prainha, que já eram populosas por conta da antiga exploração mineral, ganhou mão de obra e reforço comercial. 

No Centro Histórico de Cuiabá fica também o primeiro prédio vertical de Mato Grosso, o Edifício Maria Joaquina. Ele foi construído na década 60. As portas foram abertas em 8 de abril de 1969 e, no primeiro momento, era moradia da sociedade "enquicada" cuiabana, e símbolo de uma "nova era" que se aproximava para a cuiabania.

Ápice do abandono

O descaso tem a ver com a visão do gestor público de uma modernidade que pressupunha a destruição

Pedro Félix

Segundo análise do historiador Pedro Félix, os anos 80 foram um dos que mais marcaram esta falta de preservação e tombamento de casarões antigos para dar espaço ao modernismo. Na época, Pedro entrava no seu primeiro emprego no departamento de Cultura e Turismo, que hoje é secretaria municipal de Educação.

“Como eu era estudante de história, fiquei no setor de fotografias e elas me fizeram ter uma radiografia de vários momentos da cidade. Me chamou a atenção a falta de preservação das autoridades. Houve uma grande derrubada de casarões no Centro Histórico”, comenta o historiador. 

Os principais casarões, que Félix se refere, ficavam onde hoje estão muitas sedes de bancos particulares e públicos. “O descaso tem a ver com a visão do gestor público de uma modernidade que pressupunha a destruição. Era literalmente o tombamento destes casarões, entre elas, a própria destruição da antiga catedral. Era como se o modernismo tivesse que vir, chegar e se consubstanciar no centro da cidade”, pondera. 

Rodinei Crescencio

Prédios antigos marcam mudanças arquitetônicas na cidade

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O historiador ainda compara a Capital com Ouro Preto e acredita que o ideal seria preservar para fomentar o turismo. “Com o tempo e a destruição de outros casarões, a visão era de trazer a arquitetura para um Centro-Sul, e assim foi feito. Hoje, temos um IPHAN tentando salvar o que resta através de uma visão errônea”, avalia.

Ressalta que a Casa de Bem-Bem foi construída com dinheiro público, como muitos coronéis faziam na época. “O ideal seria revitalizar e usar para um cunho popular estes casarões para que as pessoas olhassem com outros olhos para esses monumentos”, argumenta.

Neste mesmo período, a avenida do CPA ganhou grande extensão e, aos poucos, se ocupou com prédios mais modernos e hoje é um dos locais da cidade onde mais se situam prédios estilo arranha-céu.

Promessas de revitalização

Mais um projeto para a revitalização de Centro Histórico de Cuiabá começou a ser produzido em março e deve ser entregue até dezembro deste ano.

O trabalho tem a previsão de ser feito a partir de uma parceria entre Academia de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso (AAU-MT) e Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Serão investidos 63 mil dólares, cerca de R$ 236 mil, captados junto à Partnership for Action on Green Economy – Page, por meio da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido), para aplicação em nove projetos.

As ações envolverão várias instituições, como a Building Research Establishment (BRE), Prefeitura de Cuiabá, Governo do Estado, Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), Arquidiocese da Capital, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Instituto Histórico e Geográfico de MT, Academia Mato-grossense de Letras, empresários, investidores, associações e proprietários de casarões.

O projeto compreende a modelagem econômica estratégica para operações estruturadas de funding, parcerias público-privadas e implantação de instrumentos de captação de mais-valias urbanas e de fomento a investimentos por meio de mecanismos de inserção tributária. A elaboração da metodologia para a participação direta dos envolvidos no plano deve ocorrer de março a dezembro.

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