CULTURA

Segunda-Feira, 03 de Julho de 2017, 14h:44 | Atualizado: 03/07/2017, 16h:49

Filme de Jean-Luc Godard abre ciclo do Cine Teatro cujo foco são road movies

Divulgação

Jean Luc Godard

Estrada como recurso narrativo e metáfora social é o cerne de O Demônio das Onze Horas

Clássico de Jean-Luc Godard lançado em 1965, O Demônio das Onze Horas (Pierrot Le Fou) abre o Ciclo Filmes de Estrada, no Cine Teatro Cuiabá, todas as terças, a partir das 19h, sob o valor simbólico de R$ 4 (inteira) e R$ 2 (meia). Até o mês de outubro, o projeto Encontros Com Cinema exibe filmes onde a estrada (e sua travessia) aparece como elemento de expressão da renovação estilística e comportamental que incidiu sobre o cinema a partir da segunda metade da década de 1960.

O conjunto dos filmes selecionados compõe um panorama da multiplicidade dos traços mais expressivos desse gênero bastante associado ao espírito libertário, tanto dos cineastas que os dirigem como dos personagens que os protagonizam. A curadoria do ciclo é dos pesquisadores Ana Maria Souza e Diego Baraldi.

Em O Demônio das Onze Horas, o professor Ferdinand (Jean-Paul Belmondo) vive insatisfeito com sua vida (ele é casado com uma italiana, pai de uma filha) e por isso resolve fugir com a babá da filha após uma festa. Juntos, os dois se envolvem com tráfico de armas e conspiração política.

“Pierrot le fou trata da passagem do amor burguês (Ferdinand e seu casamento) para o amour fou, um amor marginal, que vai revelando as entranhas e os limites da sociedade contemporânea. (...) O pensar cinematográfico do diretor recusa o cinema espetáculo, em que uma história é contada como um drama marcado por peripécias. (...) O novo ponto – e isto já está em Acossado (1959) – ganha mais evidência em Pierrot Le Fou. Fica-se agora com a necessidade de desmanchar a intriga, de isolar e dar autonomia a cada cena”, escreveu sobre o filme Enéas de Souza.

Para autores como David Laderman (2002), o gênero se constitui como uma manifestação do fascínio que a sociedade norte-americana (a escola cinematográfica que mais produziu obras do gênero) desenvolve pela estrada e pelos meios de locomoção mais individuais, como a motocicleta e o automóvel.

Os protagonistas desses filmes encontram na travessia da estrada um significativo vetor de aventura, de liberdade e de contestação das normas dominantes. Dirigir muitas vezes é uma das ações e motivações fundamentais para os personagens desses filmes. “Apenas dirija” é uma fala usual nos road movies.

Mais do que apenas mostrar a utilização de meios de locomoção para chegar a um destino determinado, esses filmes acentuam a viagem em si como experiência central para a narrativa. Para além desses aspectos iconográficos e narrativos envolvendo personagens se deslocando em rodovias (com a tensão de estar dentro ou fora da lei), atravessando paisagens (muitas vezes fronteiriças ou distantes do espaço mais urbano ou “civilizado”), frequentemente a bordo de veículos de locomoção, outro aspecto importante dos road movies envolve a reiteração de algumas técnicas cinematográficas específicas e que foram consolidando o gênero, mesmo se levarmos em conta sua heterogeneidade formal e temática.

Entre elas estão o uso dos travelling shots, planos que geralmente produzem um ponto de vista que o espectador pode associar como equivalente ao olhar daquele que atravessa o espaço ou, em alguns casos, ao olhar do próprio veículo em deslocamento na paisagem. Em muitos casos, a estrutura narrativa investe na montagem menos linear ou causal e no desfecho com final aberto.

 É recorrente no gênero a composição de enquadramentos múltiplos (quadro dentro do quadro), como quando vemos algo através dos vidros ou dos reflexos nos espelhos retrovisores dos veículos em locomoção

Também é recorrente no gênero a composição de enquadramentos múltiplos (quadro dentro do quadro), como quando vemos algo através dos vidros ou dos reflexos nos espelhos retrovisores dos veículos em locomoção. E como não associar certos road movies a uma trilha sonora marcante, outro traço estilístico importante para o gênero?

Os filmes Bonnie & Clyde: uma rajada de balas (Arthur Penn, 1967) e Easy Rider: sem destino (Dennis Hopper, 1969) podem ser lembrados como filmes modelares do gênero. Bonnie & Clyde, por exemplo, inverte as polaridades morais convencionais, fazendo com que o limiar entre vilões e bandidos torne-se mais tênue. Os vilões do filme eram as tradicionais figuras de autoridade: pais, delegados. É o próximo a ser exibido no ciclo, na próxima terça (11).

Complementa o ciclo, em horário alternativo, a exibição de outros filmes que estabelecem conexões com o road movie, tanto no que diz respeito aos seus antecedentes históricos -- como é o caso de As vinhas da Ira (John Ford, 1940) e Aconteceu Naquela Noite (Frank Capra, 1934), quanto a variações mais fluidas, onde o elemento libertário ou transgressor não parece produzir a tônica da narrativa -- como em De volta para o futuro (Robert Zemeckis, 1985) e Pequena Miss Sunshine (Jonathan Dayton & Valerie Faris, 2006).

Através de filmes que tematizam a liberalização dos costumes, a fuga das opressões sociais, os personagens marginais (alguns até para a fase inaugural do road movie, como é o caso das mulheres e dos gays), o projeto Encontros com Cinema pretende promover uma reflexão, mediada pela linguagem cinematográfica, sobre o gênero road movie e as ressonâncias que os filmes que compõem essa tradição estabelecem com questões que atravessam nossa contemporaneidade.

Estacionamento gratuito

Os participantes da Sessão Encontros com Cinema que forem ao Cine Teatro Cuiabá de carro contam com algumas possibilidades de estacionamento no entorno. O Palácio da Instrução (situado ao lado da Catedral Metropolitana) estará com estacionamento aberto e gratuito, mediante apresentação do canhoto da taxa de manutenção do Cine Teatro. Estacionamentos pagos também estarão abertos na terça-feira e custam a partir de R$10,00 (na Rua Barão de Melgaço).
Serviço
O quê: Exibição de “O demônio das onze horas” (Pierrot le fou, França/Itália,1965, 115 minutos), de Jean-Luc Godard.
Quando: Terça-feira, 04 de julho, 19:00.
Onde: Cine Teatro Cuiabá
Classificação indicativa: 16 anos
Entrada: R$4,00 (inteira) e R$2,00 (meia).

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