CULTURA

Quarta-Feira, 19 de Abril de 2017, 13h:50 | Atualizado: 19/04/2017, 14h:58

Índios do Xingu preparam livro e querem preservação de tradições

Lideranças da etnia indígena wauja, uma das 16 que vivem dentro do Território Indígena do Xingu, estiveram na capital na semana passada, mais especificamente dentro do Palácio Paiaguás. O objetivo era fazer um discurso durante a cerimônia de assinatura dos contratos de editais da secretaria estadual de Cultura para a realização de um projeto chamado Circuito Kamukuwaká: O Livro de Kamukuwaká e Yakuwixeku, cuja temática central é a preservação do conhecimento tradicional da etnia por meio da literatura.

O projeto será realizado via coparticipação entre o Instituto Homem Brasileiro (IHB) e os indígenas e a ideia é fazer com que novas gerações de índios fiquem à vontade e se familiarizem com suas tradições ancestrais. É maneira, defende o IHB, de preservar, portanto, esse saber de outras eras, essencialmente oral até então.

Mato Grosso possui 200 etnias indígenas conhecidas. Manter esse conhecimento vivo, acreditam os idealizadores, é maneira de fazer com que essas pessoas preservem seu modo de vida e os padrões de sua cultura.

A composição do livro, que será implementado nas escolas wauja, será por meio da realização de oficinas de registro etnográfico. Tudo que ali for acumulado será o escopo de um livro didático. O alvo é a potencialização da autonomia wauja, pois ter mais suportes de registro ajudarão a preservar a própria oralidade do povo, ao mesmo tempo em que ajudará no registro de saberes e práticas ancestrais. Meio de preservar e repassar, lembra a arquéologa Gabriele Viega Garcia, representante do IHB.

Galeria: Circuito Kamukuwaká

“Estes aspectos são sentidos na pele pelos wauja. Nada mais natural do que deixá-los falar sobre o assunto”, lembra Viega Garcia. Presentes ao palácio, além dela, estavam os líderes indígenas Apayupi Waurá e Akari Waurá e o professor de letras Piratá Waurá.

Com mais autonomia, talvez os povos brasileiros consigam contornar reveses como, por exemplo, serem 51 mil pessoas no Estado (de acordo com os dados do último censo do IBGE, feito em 2010), mas somente 42.525 destas viverem em terras indígenas, enquanto outras 46.564 pessoas não indígenas vivem em suas terras.

Os índios viajaram durante dois dias, saindo do Alto Xingu, para chegar ao Palácio Paiaguás.

Além dos wauja, os mikis, que vivem na região de Brasnorte, também foram contemplados com um edital cujo objetivo é um projeto para preservação de conhecimento e cultura ancestral. Com a parte cultural, os livros também tem foco ambiental e de subsistência das nações.

De acordo com estudos etnográficos realizados desde 2014 por pesquisadores do IHB, as novas gerações têm passado por um afastamento gradual de sua cultura. Isso pode acarretar em dissolução definitiva do saber tradicional.

Os aspectos citados por ela são referentes à gradual dissolução do conhecimento tradicional dos povos wauja devido a um certo “afastamento” por parte das novas gerações, fato constatado a partir de estudos etnográficas realizadas por pesquisadores do Instituto desde 2014. Segundo Garcia, muito se deve à falta de registro, já que tudo é transmitido de maneira oral.

Tema do livro

Reprodução

indios wuaja

Projeto busca preservar os costumes - como o banho no rio -  e o conhecimento tradicional dos índios

O projeto dos wauja vai registrar as narrativas do mito de Kamukuwaká e do pescador Yakuwixekú. Os dois são o centro do ritual de furação de orelha, uma cerimônia de iniciação do jovem wauja. Rituais de passagem, em comunidades aborígenes ao redor do mundo, são pilares de identidade e de seu cotidiano.

Para os wauja, Kamukuwaká liderou seu povo no confronto contra Kamo (o Sol), que, por inveja, enviou seres malignos até eles. O herói, no entanto, os conduziu ao céu, onde se refugiaram. Em tempos diferentes, a história de Yakuwixekú e seus irmãos conta uma nova subida ao céu, onde aprenderam tudo sobre o rito de iniciação.

Entretanto, a gruta Kamukuwaká, onde se passam as narrativas, fica localizada fora dos limites do Xingu, o que restringe a experiência dos jovens índios apenas ao relato oral dos grandes feitos dos heróis, impossibilitando que conheçam pessoalmente o espaço físico onde teriam ocorrido tais façanhas. Esta vivência, apostam os pesquisadores, despertaria uma maior fascinação pela mitologia e identidade de seu povo, como acontecera com seus antepassados.

"O nosso almejo principal é a autonomia dos wauja, na execução dos trabalhos de registro e pesquisa sobre a sua cultura"

A gruta, lembra o IHB, é um importante sítio arqueológico de arte rupestre, situado na margem esquerda do rio Batovi. Sua relevância arqueológica, histórica, antropológica e ambiental a levou a ser tombada como patrimônio da União em 2010, quando passou a se chamar Complexo Sagrado de Kamukuwaká.

“Do ponto de vista wauja, estes espaços têm muito mais do que uma significação mitológica, são também áreas de circulação, exploração, sociabilização e reprodução cultural. Consequentemente merecem cuidados específicos e permanentes”, explica a arqueóloga Viega Garcia. 

Para ela e outros pesquisadores do IHB, a exploração agropecuária representam ameaça à preservação do lugar devido ao mau uso dos recursos ambientais e a aproximação cada vez maior ano após ano. A equipe de pesquisadores é interétnica (conta com pesquisadores indígenas e não indígenas), composta por arqueólogos, antropólogos, professores, alunos, fotógrafos, historiadores e anciãos wauja. “O nosso almejo principal é a autonomia dos wauja, na execução dos trabalhos de registro e pesquisa sobre a sua cultura. Essa autonomia vem com as ações conjuntas de registro etnográfico que viemos desenvolvendo, fomentando também uma familiarização com as novas tecnologias de informação”. (Com Assessoria)

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