CULTURA

Segunda-Feira, 17 de Abril de 2017, 09h:13 | Atualizado: 19/04/2017, 14h:33

AMANHÃ, NO CINE TEATRO

O Iluminado é o tipo de filme que transcende a obra literária original

Divulgação

O Iluminado Stanley Kubrick

Jack Nicholson persegue Shelley Duvall em uma das mais conhecidas sequências de O Iluminado

O poder do cinema do norte-americano Stanley Kubrick é do tipo que transcende as limitações das muitas incursões literárias as quais ele adorava traduzir para o cinema, fazendo, a partir delas, verdadeiras obras-primas. O Iluminado, a ser exibido nesta terça (18), às 19h, no Cine Teatro Cuiabá a preço simbólico, é um, e talvez o maior, desses exemplos.

Sabe o velho adágio "o livro é melhor", proferido quando se comparam as duas formas de expressão? Não é o caso aqui. O filme é muito maior.

Adaptação do romance best-seller The Shinning, lançado em 1977, nas mãos de qualquer outro cineasta, não passaria de um filme de horror. Sob as de Kubrick, tornou-se ferramenta para o cinema dos Estados Unidos impor-se, uma vez mais, como excelência técnica perante o restante dos realizadores de audiovisual do planeta.

História bem estruturada como ideia (é o ponto forte de King, a capacidade de, à parte a limitação de vocabulário e inovações formais, contar histórias com ritmo e resoluções surpreendentes), chegou à sétima arte como uma sucessão infernal de angústias.

Há sempre um mal subentendido, à espreita.

Essas sensações surgem de maneira simples, monótona até. Tudo começa quando uma família chega a um hotel para fazer a manutenção do lugar durante o inverno. A neve isola completamente quem lá decidir ficar. O dono do hotel adverte o escritor desempregado (ele está com um bloqueio criativo) Jack Torrance (Jack Nicholson) quanto a isso. A resposta se refere ao ator de escrever: “eu lido bem com a solidão”. No entanto, ele leva para lá a mulher e o filho.

Conforme as coisas começam a se desenrolar, o labirinto vivo da entrada do Hotel Overlook se mostra um recurso narrativo obrigatório no longa. Enquanto o menino (O Iluminado do título) pressente o porvir, mas não tem o que fazer com esse conhecimento (afinal, é só uma criança), Jack começa a tornar-se escravo das paranoias nascidas de seu casamento, da dependência química em álcool e das ocorrências sobrenaturais do lugar. Se no livro é sempre deixado claro que o surto de Jack Torrance é derivado de forças além dele, na obra-prima de Stanley Kubrick as coisas não são tão simples. Não se sabe se tudo não se trata meramente do personagem deixando vir à torna tudo quanto conseguia sublimar quando não era obrigado a ver-se consigo mesmo, em situações de estresse e isolamento extremo, ou se há, efetivamente, fantasmas do passado, de crimes horrendos, presos ali, a possuir o pobre protagonista.

O espectador é obrigado a sentir-se perdido junto com a esposa, Wendy (Shelley Duvall) e o indefeso Danny (Danny Lloyd) pelos corredores do Overlook. Esse desamparo vai sendo construído num crescendo poucas vezes tão bem conduzido em um filme ou qualquer outra expressão artística. A trilha, os efeitos e a captação de som se juntam à interpretação dos atores de modo a fazer dele cúmplice durante as várias tentativas de fuga por quartos, portas, janelas e sempre e sempre os corredores.

Kubrick é capaz de transportar para a tela, com propriedade e força, desde escritores eruditos até populares

Tomado pelos demônios (verdadeiros se se quiser acreditar na visão infantil do menino; alucinatórios se se quiser optar pela percepção de que se trata, afinal, de um dependente químico com diversas frustrações outras), Jack Torrance torna-se algoz atrás de presas, as únicas disponíveis ali, a própria esposa e o filho.

Uma vez mais, Kubrick arregaça na maneira como conduz sua câmera, ilumina os ambientes e compõe os quadros. Ora se corre com o velocípede do menino, ora se perde o fôlego com Wendy a tentar escapar do homem que ama. A sensação de isolamento é reforçada pelas cenas em profundidade (mesmo quando Torrance se vê rodeado de gente, na cena do baile imaginário em outra época, num salão suntuoso, ele parece irremediavelmente só) especialmente quando o foco é no menino. Contar mais seria estragar a experiência sempre viva de se assistir a O Iluminado, obra de arte de primeira linha, acima de tudo.

Enfim, uma vez mais Kubrick se mostra capaz de transportar para a tela, com propriedade e força, tanto escritores eruditos (como Arthur Schnitzler, em Eyes Wide Shut, e William Makepeace Thackeray, em Barry Lyndon) quanto populares como Stephen King e ou viscerais como Anthony Burgess (The Clockwork Orange).

O Projeto

O filme dá continuidade às atividades da Sessão Encontros com Cinema, projeto realizado pelo Cine Teatro Cuiabá em parceria com a Pró-reitoria de Cultura, Extensão & Vivência (PROCEV), Cineclube Coxiponés e Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Mato Grosso.

Há estacionamento grátis no Palácio da Instrução. O valor simbólico da entrada é de R$ 4 (inteira) e R$ 2 (meia).

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