CULTURA

Terça-Feira, 11 de Agosto de 2020, 19h:21 | Atualizado: 12/08/2020, 13h:47

Pro paraíso das orgias das frutas e flores, adeus ao erótico e apaixonado Adir Sodré

Reprodução

Artista pl�stico Adir Sodr�

A indefinição do tempo de um artista, seja ela de vida ou morte, é um clichê romântico. Talvez isso torne mais dramáticas suas cores, além das dores, dando vida a uma inexatidão. Tem gente que recusa se curvar ao tempo, ser previsível ou decifrável. Uma morte súbita, que segue o roteiro quase que perfeito de toda sua existência, teima esfriar o corpo que quer partir em um sólo ainda quente, do dia caloroso que se passou. 

Foi assim, em constante e proposital contradição, que o artista plástico Adir Sodré, aos 58 anos, tomou as capas dos jornais e sites. Presente em muitas ruas, sejam elas de Cuiabá, São Paulo, Rio de Janeiro ou as que localizam museus de París, seguiu marcando pela ousadia.

Entre as exposições mais marcantes, "Modernidade, Arte Brasileira no Século XX", que ocorreu no Museu de Arte Moderna de Paris, em 1987. Nem retratista ou surrealista, à imprensa sempre se entitulava "neo alguma coisa", não gostava de rótulos. Mesmo que com repercussão em outras nacionalidades, sempre gostou de ambientes populares, e isso esteve presente em boa parte de suas obras, em que aborda temas que mostram à cultura regional, sociedade contemporânea, cultura negra e indígena. Um muralista erótico e apaixonado em todas suas passagens.

Reprodução instagram

Obra A Sex�loga circulou o mundo, a tela foi disponibilizada para exposi��o em SP no ano de 2018

A Sexóloga circulou o mundo e esteve em exposição em SP

Quem sabe por isso tenha sido na mesma rua que escolheu "morar" onde teve de "morrer". Juntou o sentido dos verbos para nem ir ou ficar. Na rua 12 de junho, Centro Histórico de Cuiabá, endereço com nome de Dia dos Namorados. Quase sozinho, ainda que socorrido, se manteve deitado naquela calçada. Seu vizinho, Márcio Borges, também amigo de longa data, foi o primeiro a suplicar que não partisse. "Disse para ele ficar. 'Fica Adir, aguenta que já está chegando (o socorro)', mas ele foi se esvaindo e morreu nas minhas mãos. Ficar com ele até esse último momento vai me marcar pelo resto da vida", lembra. 

Márcio conheceu Sodré há 38 anos e ele já era artista plástico notório e com certa repercussão internacional. Fez amizade com uma importante cantora punk alemã da época chamada Nina Roguers, já que rock and roll era uma vertente que também lhe agradava, pois permitia até ensaio de banda em sua casa - como a banda do Márcio, Linha de Montagem. Foi Márcio quem chamou o socorro que não custou a chegar após ouvir um barulho alto no portão da frente. Ele não sabia que era Adir, tentou fazer massagem cardíaca, mas mesmo assim ele não resistiu e, rapidamente, faleceu.

Outro amigo próximo e que se emocionou quando soube de sua partida foi o ator André D'Lucca, ainda vestido de sua personagem Almerinda, gravou uma publicação em seu storie com a maquiagem borrando em lágrimas ao cancelar o compromisso que havia feito com o público. Abalado, ele só disse que não tinha condições de continuar. Sua casa também é cheia de obras de Adir, quando o artista o presenteou, todas que ele guarda com muito carinho. 

Um homem da rua, dos muros e dos museus

Algumas das obras de Adir que ganharam grande notoriedade foram Falos e Flores (1986) e Orgia das Frutas (1987). Pesquisador e apaixonado pela história da arte, em vida disse que eram muitas as referências, entre elas mencionou pintores como Vincent van Gogh (1853-1890) e Diego Velázquez (1599-1660). Crítico e politizado, nos anos 80 começou a reforçar seus posicionamentos com temas que evidenciavam, por exemplo, as causas que prejudicavam os povos indígenas, como as constantes tomadas de terras e o consumismo que prejudica a natureza, representado em algumas de suas obras notadas pela crítica, entre elas, Dolores Descartável (1984).

O laudo que confirma a causa de sua morte ainda não foi divulgado pelos familiares. Adir foi sepultado na tarde desta terça (11), no cemitério Parque Bom Jesus, em Cuiabá.

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