CULTURA

Segunda-Feira, 03 de Abril de 2017, 11h:12 | Atualizado: 03/04/2017, 11h:34

Ultraviolência dos dias atuais é o principal mote de Laranja Mecânica

Divulgação

Stanley Kubrick Laranja Mec�nica

Em Laranja Mecânica, a violência é retratada como falibilidade humana mas esteticamente atraente

A maneira como a violência, a distopia e a existência em sociedade tornaram-se a regra dos dias atuais é o mote principal do livro A Laranja Mecânica, do britânico Anthony Burgess, adaptado de maneira fiel pelo norte-americano Stanley Kubrick. Nem mesmo as expressões e neologismos inventados – alguns deles intraduzíveis em forma original – ficaram de fora. O resultado do encontro de dois grandes artistas é o filme de mesmo nome a ser exibido nesta terça (3), às 19h, no Cine Teatro Cuiabá, a preço simbólico de R$ 4 (R$ 2 a meia).

Partindo de uma estrutura caótica, apenas maneira de confundir os mais desatentos, como a do livro, o mundo é retratado a partir das reminiscências de Alex Delarge, enquanto caminha pelas ruas de uma cidade que parece ser Londres. Alex reclama furiosamente do saudosismo dos velhos e declara seu ódio por bêbados. Encontra tanto um quanto o outro nesse exato momento. Não tem dúvidas e espanca ambos, o indefeso e a ideia de respeito aos mais frágeis (no caso, velhos).

A sequência seguinte é um estupro coletivo de outra indefesa, no caso, uma mulher.

O filme, como o livro, segue nesse passo. E os jovens, a acompanhar o labirinto da narrativa, por meio das expressões lunáticas e eventos violentos sem motivo aparente, parecem animais, não os selvagens, mas plenamente conscientes do que se tornaram.

Mesmo que algumas coisas – como a superexposição à televisão como parte do condicionamento do personagem principal – pareçam datadas, a mensagem por trás delas está longe, muito longe disso. Basta lembrar serem exatamente as telas (de celulares, tablets, microcomputadores, videogames) o espelho negro por onde a maioria maciça da humanidade se observa a maior parte do tempo nos dias que correm. E as cenas ali mostradas e vistas raríssimas vezes passam longe da ultraviolência, opressão e sexo expostos o tempo todo no longa finalizado e lançado em 1971.

Se a sociedade torna as pessoas violentas ou se apenas traz à tona tudo o que escondemos todo dia é pergunta colocada pelo filme

A maneira utilizada por Kubrick para transformar em natural a forma crua como nossos baixos instintos são representados foi a música. Clássica e popular. Mais de uma vez, o próprio Burgess falou sobre ser o nome de sua obra uma oposição entre algo doce, natural (a laranja), subvertida por algo frio, inventado por nós (as engrenagens mecânicas, físicas ou conceituais). Essas oposições são colocadas na tela o tempo todo. Ainda que o que Alex e sua gangue façam seja horrendo, isso é mostrado de maneira esteticamente irretocável. Vem daí a confusão de sentimentos e o desconforto experimentado por quem vê o filme, não importa quantas vezes o faça.

Colocar a música de cantando na chuva, algo extremamente leve, feliz, para um espancamento cruel e um estupro impiedoso é só o exemplo mais imediato. E aqui utilizado por ser a cena mais lembrada; isso porém não é menos forte que o assassinato com uma escultura de pênis ou os espancamentos constantes cometidos por Alex e contra ele.

Se a sociedade torna as pessoas violentas ou se apenas traz à tona tudo o que escondemos de nós mesmos todo santo dia, ao colocarmos nossas máscaras cotidianas, é a grande pergunta (jamais respondida, mas sempre repetida, praticamente a cada enquadramento) pelo filmaço do cineasta nova-iorquino.

 

Essa sensação permeia o livro e chega quase à náusea no filme. Mais ou menos como acontece com Alex depois do condicionamento para esquecer o condicionamento que o tornou um droog.

A traição dos amigos e os 14 anos de cadeia a que é condenado o fazem ver exatamente o quanto sua fruição da dor alheia não era algo exclusivo de si, mas de tudo quanto o rodeava. Pessoas, governo. Infelizmente pra ele, tarde demais.

A série Encontros com Cinema foi quem proporcionou o Ciclo Kubrick. A curadoria é de Diego Baraldi e Ana Maria Souza. Completam o ciclo os também imperdíveis Barry Lyndon (11); O Iluminado (18); Nascido para Matar (25), De olhos Bem Fechados (02/05) e o documentário Stanley Kubrick: Imagens de Uma Vida, dirigido por Jan Harlan, dos principais parceiros intelectuais do cineasta. As informações sobre horário e a ordem dos filmes são da assessoria.

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Comentários (1)

  • JEFERSON MATOS | Segunda-Feira, 03 de Abril de 2017, 14h19
    1
    0

    Kubrick é um mestre!!!

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