ENTREVISTA ESPECIAL

Sábado, 12 de Setembro de 2020, 08h:30 | Atualizado: 13/09/2020, 18h:40

Ambientalista cita cenário catastrófico no Pantanal e condena discurso permissivo

Engenheiro florestal do ICV afirma que pelo menos 15% da área do Pantanal foi consumida pelo fogo

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Vin�cius Silgueiro

O ano de 2020 não está sendo fácil. Além da pandemia da Covid-19, o cenário catastrófico causado pelas queimadas ilegais em Mato Grosso, principalmente no Pantanal, será lembrado pelos próximos anos. Verdadeiro massacre da biodiversidade. Na cidade grande a fumaça faz o cuiabano ter grande dificuldade para respirar há várias semanas. No interior, animais carbonizados, vegetação reduzida a cinzas e chamas que devastam tudo ao seu redor são indícios dos danos irreparáveis para a diversidade da maior área úmida tropical do mundo. Infelizmente, as labaredas não destroem apenas o Pantanal, mas também o Cerrado e a Amazônia. Em entrevista ao , o engenheiro florestal Vinícius Silgueiro, do Instituto Centro de Vida (ICV), afirma que nesse ano, pelo menos 15% da área do Pantanal foi consumida pelo fogo, sendo que na maioria das vezes o início ocorreu em imóveis rurais privados regulares. O que mostra, segundo ele, o discurso permissivo do governo, principalmente federal, que reforça a sensação de impunidade para quem pratica a queimada ilegal.

Confira os principais trechos da entrevista:

Aparentemente, nunca foi tão difícil respirar como tem sido desde agosto, principalmente na Capital. 2020, além da pandemia da Covid-19, também será lembrado pelo aumento dos focos de calor?

Não se tinha registro de um cenário de queimadas tão trágico no Pantanal como estamos vivendo esse ano. Entre janeiro e agosto foram registrados 10.153 focos de calor em todo bioma Pantanal brasileiro. É o maior número da série histórica de dados do Inpe, desde 1998. O pior cenário, próximo a esse, ocorreu em 2005, quando 8.408 focos de calor foram registrados nesse mesmo período do ano. E, nesse mês de setembro, a porção do Pantanal em Mato Grosso superou a de Mato Grosso do Sul em área total atingida pelos incêndios. Isso também não havia ocorrido ainda. O Cerrado e a Amazônia queimam num mesmo ritmo crítico que o ano passado. Estamos todos vendo com tristeza e sentindo a fumaça de todos esses incêndios que nesse momento pairam sobre Cuiabá e muitas outras cidades do estado.

O Pantanal, segundo nota técnica do ICV, é, proporcionalmente, o bioma mais atingido pelas queimadas. É possível apontar o motivo?

Os dados que adotamos na nota técnica são da NASA até 17 de agosto. Mais de 1,7 milhões de hectares haviam sido atingidos por incêndios em todo Mato Grosso. Aí nos 15 dias seguintes, ou seja, até 1º de setembro, a área atingida pelo fogo no estado alcançou 2,7 milhões de hectares. O Pantanal já é o bioma com a maior extensão de área atingida por incêndio, com quase 1 milhão de hectares. Poconé, Barão de Melgaço e Cáceres, juntos, respondem por 51% do total de área queimada no estado. O cenário de redução de chuvas e seca mais drástica desse ano já havia sido alertado desde o final do ano passado. O Inpe emitiu nota técnica no início desse ano apontando para essa situação e também tem estudos que correlacionam o desmatamento acumulado e acelerado na Amazônia a esse cenário. Infelizmente tudo indica que teremos anos ainda mais críticos pela frente.

O Pantanal já é o bioma com a maior extensão de área atingida por incêndio, com quase 1 milhão de hectares

Vinícius Silgueiro

Perícia divulgada pelo Governo do Estado aponta que os incêndios registrados no Pantanal foram provocados por ação humana. Entres os meses de janeiro a setembro de 2020, mais de 5 mil focos de calor foram localizados em propriedades privadas, cerca de 3 mil em terras indígenas e 890 em unidades de conservação. Os dados são compatíveis com os levantados pelo ICV?

Segundo o satélite de referência adotado pelo Inpe, entre janeiro e agosto desse ano, foram registrados 5.425 focos de calor na porção mato-grossense do Pantanal. Desse total, 3.327 focos (62%) foram detectados em imóveis rurais privados já inscritos no Cadastro Ambiental Rural (CAR), seguido de 1.720 focos (32%) em imóveis ainda não cadastrados, 207 focos (4%) em unidades de conservação de proteção integral e domínio público, e 148 focos (3%) em terras indígenas. Pode ser que esses dados citados abranjam a porção do Pantanal em Mato Grosso do Sul também ou que estejam sendo utilizados dados de outros satélites de forma complementar. De qualquer modo, as conclusões das perícias realizadas e dos levantamentos que fizemos são compatíveis, ao apontar a origem a partir da ação humana, e não um fenômeno natural ou cíclico.

Tendo em vista as características peculiares do Pantanal em relação à capacidade de recuperação da fauna e da flora, é possível neste momento avaliar o impacto das queimadas deste ano para o futuro do Pantanal?

As consequências para a biodiversidade e equilíbrio ambiental do Pantanal são enormes. Pelo menos 15% da área do bioma foi consumida pelo fogo e análise que fizemos mostra que 95% das áreas atingidas são áreas de vegetação nativa. São habitats de dezenas de espécies animais e vegetais, que dependem uma da outra, que são impactadas todas de uma vez. Um verdadeiro colapso ambiental. Como o que estamos vendo nunca havia acontecido antes, não se tem estudos e informações sobre quanto tempo levará para essas áreas atingidas pelos incêndios se recuperarem. Nesse sentido, o futuro é incerto. Inclusive para a economia dessa região, já que um impacto como esse compromete diretamente o turismo, que depende dessa exuberância natural do bioma para se viabilizar.

Qual a origem das queimadas no Pantanal nestes últimos meses, que causou todo esse dano?

Assim como os focos de calor, mais da metade da área atingida pelo fogo no Pantanal está em imóveis rurais privados já cadastrados no CAR. São fazendas e sítios, que tem uso agropecuário. É a categoria fundiária que mais ocupa área no Pantanal e, de forma geral, em todo o estado, bem acima do que ocupam assentamentos, terras indígenas e unidades de conservação. Então, quando os incêndios fogem do controle e se alastram, é compreensível que essas fazendas e sítios sejam mais atingidos. Mas, a partir da combinação dos dados da NASA de áreas afetadas pelo fogo e uma sequência de imagens de satélite, identificamos que apenas nove pontos deram início a incêndios que atingiram 67,5% do total de área queimada no bioma entre 1º de julho e a metade de agosto. E desses nove, cinco pontos de início foram em imóveis privados já cadastrados no CAR, três em imóveis não cadastrados e um na terra indígena Perigara.

ICV

queimadas ICV

ICV: apenas 9 pontos deram início a incêndios que atingiram 67,5% do total de área queimada no Pantanal entre 1º de julho e metade de agosto

A política ambiental dos governos federal e estadual tem alguma influência nesses dados e no comportamento dos produtores?

O enfraquecimento da gestão ambiental é algo que a gente vem alertando desde 2012, quando o desmatamento voltou a aumentar. Mas nunca vivemos um momento em que o chefe do Executivo Federal (Jair Bolsonaro) não condena claramente atos ilegais como as queimadas sem autorização, chegando até a debochar, que “uma coisa é ter o decreto proibitivo das queimadas, outra coisa é o cumprimento dele”. A mensagem que chega em muitos lugares é de que esse tipo de infração será tolerado. Além desse discurso permissivo, tem o desmonte dos órgãos ambientais de fiscalização, como o Ibama, por exemplo, com equipes desestruturadas, vários servidores da linha de frente exonerados e corte de recursos. Isso certamente têm efeito no que estamos vivendo. Por exemplo, ano passado foi um ano bastante crítico. O desmatamento batendo recorde e com omaior número de focos de calor em relação aos últimos 11 anos anteriores. Teve até “dia do fogo”, quando grupos combinaram atear fogo numa região no sul do Pará. Não se sabe e nem se divulga que os responsáveis foram punidos, que quem fizer isso será punido. Pelo contrário, reina a sensação de impunidade, de que não dará em nada, e se for multado, recorre na justiça e nunca irá pagar.

E o melhor que o governo de Mato Grosso pode fazer é reconhecer a gravidade da situação

Vinícius Silgueiro

O governador Mauro Mendes afirma que há um interesse internacional em “queimar” a imagem de Mato Grosso e, principalmente, do agronegócio. A repercussão do aumento dos focos de queimada no Estado é uma tentativa de prejudicar a economia e o agro?

A repercussão é fruto do interesse da maior parte da sociedade brasileira e mundial na manutenção e uso sustentável dos nossos recursos naturais. Quando uma catástrofe dessa acontece, como já havia acontecido em regiões da Amazônia e Cerrado no ano passado, todo mundo fica chocado. Os cidadãos e o mercado, nem aqui e nenhum lugar do mundo, querem ser coniventes com crime ambiental, com destruição dos recursos naturais, vegetação em chamas, animais carbonizados. O monitoramento do governo de Mato Grosso aponta para uma situação atípica no Pantanal em 2020 e a repercussão é proporcional a essa realidade. E o próprio governo já apresentou resultados de perícias que apontam para ações humanas como causa dos principais incêndios. Então não faz sentido atribuir a fatores externos ou perseguição. É um fato grave que exige ações urgentes. E o melhor que o governo de Mato Grosso pode fazer é reconhecer a gravidade da situação, tomar medidas para mitigar os impactos do que está acontecendo e para que um cenário como esse não aconteça mais. É preciso fiscalizar e responsabilizar, com multas, embargos, formas de restringir o acesso ao mercado por parte de quem comete crime ambiental. E divulgar isso. E também fortalecer cada vez mais as equipes de combate aos incêndios em número de efetivos, formação de brigadas comunitárias, frotas e equipamentos apropriados.

O Estado de MT divulgou que já aplicou mais de R$ 100 milhões em multas por queimadas ilegais. Aplicar tal penalidade resolve? O ICV sabe onde esses recursos são aplicados?

Uma vez que a maior parte dos incêndios tem origem em imóveis já cadastrados no CAR, significa que os governos estadual e federal têm a identificação dos proprietários e a responsabilização por esse crime é possível. Especialmente em Mato Grosso, que dispõe de ferramenta de alta tecnologia de imagens de satélite e um corpo técnico capacitado para utiliza-las, isso deve ser feito. Os recursos arrecadados com as multas devem ir pro Fundo Estadual do Meio Ambiente, mas uma porção irrisória delas são efetivamente pagas, a maioria prescreve e os infratores não são cobrados. Mas além das multas, os embargos são uma forma de separar o joio, do trigo. Isso porque, tal qual ocorre com o desmatamento, é um pequeno número de propriedades em que os incêndios iniciam e acabam afetando a todos. E os embargos possibilitam ao mercado e toda sociedade saber quem são.

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Comentários (5)

  • antonio da silva | Segunda-Feira, 14 de Setembro de 2020, 07h41
    2
    3

    ambientalistas de apartamento NUNCA APAGOU UM FOGO.

  • Moreira | Domingo, 13 de Setembro de 2020, 15h12
    2
    11

    As latitudes da nossa região são propícias para incêndios devido a baixa umidade e material vegetal seco nesta época do ano. Se tem gente destruindo a vegetação em sua maioria se chamam índios e posseiros. O produtor Rural que esta com seus devidos registros e produzindo, não tem nada a ver com os incêndios e muito menos com a devastação florestal atualmente. No mais, existe uma trama da Europa para usar os incêndios criminosos que estão acontecendo no Brasil para desestimular a compra dos produtos agropecuarios do Brasil. Não enxergar isso é pura demagogia e oportunismo.

  • Produtor | Domingo, 13 de Setembro de 2020, 12h16
    9
    15

    Em 1911 tinha floresta em Cuiabá! E não tinha ambientalistas de apartamento. E o calor era o mesmo.

  • Bruno | Domingo, 13 de Setembro de 2020, 11h15
    11
    6

    Ótima entrevista! Necessária! Parabéns ao jornalista e ao entrevistado.

  • walter liz | Sábado, 12 de Setembro de 2020, 09h26
    10
    4

    Antes de politicar a catástrofe das queimadas ,ponha pingo nos " is", antes do governo federal, tem o estadual que é o principal responsável pelo problema, este e todos anteriores foram OMISSOS, não se prepararam nem planejam absolutamente nada , mesmo sabendo que todo ano vai acontecer as queimadas, ficam INERTES , essa tragédia do Pantanal e outras estão sendo ignoradas solenemente, não decretaram emergência, não pediram ajuda , é o fogo contra uma estrutura mínima de heroicos e abnegados Bombeiros e voluntários, e lógico não se exclui nenhum governante, nem mesmo o ministério Publico que sequer fala alguma coisa , omissos tambem

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