ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 09 de Maio de 2019, 11h:55 | Atualizado: 09/05/2019, 12h:24

Ambientalista do ICV expõe calote: 99% das multas por desmate não são pagas

raio x alice

 

A francesa Alice Thuault é ambientalista do Instituto Centro de Vida (ICV) em Cuiabá. Há 15 anos acompanha um problema que expõe negativamente a imagem de Mato Grosso no mundo: o desmatamento ilegal, colocando em risco a floresta amazônica. Segundo ela, a situação perdura, porque crimes ambientais compensam, já que somente 1% das multas aplicadas contra infratores são pagas.

Olhando imagens de satélite, ela diz que a verdade, em Mato Grosso, fica gritante. A pecuária é a atividade que mais provoca desmate para "colocar boi" no pasto. Assentados desmatam pouco e indígenas funcionam como os grandes protetores do santuário internacional, que é a floresta. Qualquer informação diferente disso - avisa - é fake news.

Alice alerta que a onda de conservadorismo traz de volta a crítica aos ambientalistas, como se fossem inoportunos, e isso, na opinião dela, é muito perigoso, porque têm o papel de alertar e não serem eco-chatos.

Mesmo assim, acredita que não é alimentando o embate ou o ódio entre as partes envolvidas ou criminalizando uma profissão, como a dos pecuaristas, que iremos parar a serra elétrica e os correntões. É preciso mais que isso.

Confira trechos da entrevista que ela concedeu ao , direito da Colômbia.

Ibama

Desmatamento

Área desmatada vista de cima na floresta amazônica em território mato-grossense

Ano a ano, levantamentos mostram o grande desmate na Amazônia, inclusive em território mato-grossense. Quem afinal mais desmata?

O desmatamento continua sendo a maior preocupação, quando se fala de atingir um equilíbrio socioambiental em Mato Grosso. Ano passado foram 1.749 km² de floresta derrubada, a maior taxa dos últimos 10 anos. Isso tem um impacto negativo em vários níveis. Primeiro para a população que vive diretamente essa realidade, pois costumam ser regiões onde a ilegalidade prevalece e com ela estão associadas situações de violações de direitos humanos como invasões de terra, trabalho em condições precárias e violências de diferentes ordens. Na sequência, tem um impacto enorme sobre

Quase metade de todo o desmatamento detectado em imóveis rurais privados são grandes polígonos facilmente identificados por ferramentas e análises geoespaciais e concentrados em grandes propriedades

o próprio Estado, já que essa diminuição da floresta impacta a chuva, a água, o próprio agronegócio, mas também pode a muito curto prazo cortar alguns programas estaduais, já que financiadores e investidores querem financiar e investir em produção livre de desmatamento. Em nível global, com esse desmatamento impactamos o clima como um todo, levando as próximas gerações a viver em um mundo menos seguro, com mais desastres ambientais e com mais conflitos. Obviamente o Estado de Mato Grosso não é o único que desmata. O estado do Pará tem conseguido o primeiro lugar no ranking, mas isso não quer dizer que a gente não deva urgentemente achar soluções para acabar com o desmatamento no nosso Estado. Se olhar para os números e os dados geográficos, as saídas passam por achar soluções para uma pecuária sustentável. Em 2016, mostramos que nos 10 municípios que mais desmatavam, 60% das terras desmatadas eram usadas para colocar boi.

É possível afirmar que os pecuaristas são os que mais desmatam?

Já sabemos que 85% do desmatamento é ilegal e que metade está dentro do CAR. Quase metade de todo o desmatamento detectado em imóveis rurais privados são grandes polígonos facilmente identificados por ferramentas e análises geoespaciais e concentrados em grandes propriedades. Mas eu não usaria essa afirmação. Não acho que criminalizar uma profissão seja a solução.

Mas não temos que apontar os responsáveis?

Sim, mas temos que nos organizar coletivamente para que esses responsáveis sejam responsabilizados. Isso significa um processo de responsabilização criminal e administrativo que o governo deve fortalecer. Temos que passar uma mensagem mais firme de que o crime não compensa.

Atualmente o desmate ilegal é impune?

 Sabemos que é menos de 1% das multas que são pagas e isso faz do desmatamento ilegal hoje uma prática impune do ponto de vista da lei

Hoje existe uma grande quantidade de brechas que garantem que os desmatadores não sejam responsabilizados, com isso é até difícil te dar um percentual de quantas multas são pagas ou não. Elas são divididas em várias parcelas, penhoradas... tem vários processos que são questionados na justiça com sucesso, o que não deveria ser. Mas sabemos que é menos de 1% das multas que são pagas e isso faz do desmatamento ilegal hoje uma prática impune do ponto de vista da lei. A melhor aplicação da lei é uma das questões que precisa ser resolvida com formações dos juízes e com melhores dados. Outra forma de trabalhar isso que tem mostrado alguns resultados promissores são os acordos de cadeia. Como sabemos que existe muito desmatamento na cadeia da pecuária, é fundamental que os compradores se comprometam em comprar animais que não vem de terras desmatadas depois de 2008. Isso vem acontecendo em parte, mas ainda precisa muito melhorar.

ICV

Alice

Alice Thuault participa de eventos internacionais, relativos a meio ambiente, clima, desmatamento e outros assuntos correlatos à saúde do planeta

Nos últimos anos tem voltado um discurso conservador e conspiracionista que tenta colocar a organizações socioambientais e os movimentos sociais dentro de uma categoria de 'malucos ideologizados' que trabalham contra o Brasil. Isso é extremamente perigoso

Assentados e indígenas também praticam desmatamento ilegal?

Quando você olha o desmatamento em assentamentos vê que nunca passa de 15 a 20% do total em Mato Grosso, apesar de ter uma fake news perpétua de que são eles que mais desmatam. Não é verdade. O desmatamento em terras indígena nunca foi muito alto, quando você olha Mato Grosso de cima vê que eles são os maiores protetores das florestas, já que as Terras Indígenas são ilhas verdes nas imagens de satélites. No entanto, o desmatamento tem aumentado em algumas TI específicas.

É real o embate entre ambientalistas e agropecuaristas ou isso está mudando? Muitos têm consciência ambiental ou não?

Nos últimos anos tem voltado um discurso conservador e conspiracionista que tenta colocar organizações socioambientais e os movimentos sociais dentro de uma categoria de "malucos ideologizados" que trabalham contra o Brasil. Isso é extremamente perigoso e tende a colocar ainda mais em perigo brasileiros em situação de vulnerabilidade: são populações indígenas que estão lutando para a demarcação do território onde eles sempre moraram, como os chiquitanos, são militantes dos direitos humanos e defensores da agroecologia como o Edmar Rodrigues Branco que foi assassinado mês passado na Chapada dos Guimaraes. Isso também tem sido a lenha para alguns projetos de lei ou decisões tomadas em nível federal que são retrocessos imensos (vide o recente corte da verba das universidades ou o projeto de lei que acaba com a reserva legal). Não considero que isso é um embate entre ambientalista e agropecuaristas, pois conheço os que defendem a reserva legal e vejo nas lideranças com as quais trabalhamos na região norte pessoas que entendem que têm que ter um olhar ambiental para trabalhar uma propriedade agropecuária. Eu vejo aqui um embate entre pessoas que estão guiadas por interesses pessoais de muito curto prazo e com uma certa ideologia e pessoas que lutam para o bem estar comum e que se baseam em dados.

Como o Brasil é, hoje em dia, visto na Europa, por ser grande desmatador?

Internacionalmente, muita gente está preocupada. Sinto realmente pessoas preocupadas e ansiosas para verem o Brasil retificar os tiros pela culatra que estão sendo dados

Internacionalmente, muita gente está preocupada. Sinto realmente pessoas preocupadas e ansiosas para verem o Brasil retificar os tiros pela culatra que estão sendo dados. O diagnóstico da maioria das pessoas é que algo extremamente grave está acontecendo no Brasil: direitos estão sendo ameaçados, pessoas estão sendo assassinadas e o nosso patrimônio ambiental de florestas, aguas e chuvas está diminuindo com isso. Como são várias parcerias de decadas com a Noruega, a Alemanha, o Reino Unido, vejo que tem financiadores e investidores que estão esperando por um sinal de luz para não ameaçar vários instrumentos que já comprovaram eficácia. Esse sinal de luz pode vir dos estados com declarações de que se importem com as suas florestas, populações tradicionais e agricultura. Mas de forma geral, existe internacionalmente um entendimento de que o Brasil é importante demais no equilibrio mundial da água e do clima para deixar o sistema de controle ambiental desmoronar. Espero que vários compradores mantenham os critérios de compra como comprovação de que a carne não vem de terra desmatada, que vem de terra com CAR e etc.

O que o cidadão comum pode fazer para coibir a derrubada da florestas?

A primeira resposta que me vem em mente seria ter um voto consciente e não dar o seu voto para alguém que faz apologia ao desmatamento, mas sim para deputados, senadores, governadores e senadores que entendem que o desmatamento é um dos piores inimigos do brasileiro. Acaba com o patrimônio ambiental dele, atinge a produtividade agropecuária dele, impacta a saúde dele e ainda acaba com possíveis captações de recursos internacionais para as regiões que mais precisam. Além disso, acho que vale ter uma conscientização enquanto consumidor. É preciso cobrar das empresas ou de nossos vendedores diretos uma carne que não venha de desmatamento, um produto sem agrotóxico. É preciso dar prioridade aos produtos de pequenos produtores, de perto da gente e que são livres de desmatamento e de agrotóxicos.

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Comentários (3)

  • elias | Sábado, 11 de Maio de 2019, 14h24
    1
    1

    Agora com Bolsonaro vai para 100%

  • Tobias de Aguiar | Sexta-Feira, 10 de Maio de 2019, 10h52
    6
    1

    Rogério, verifique os processos, mas pelas instituições que você acredita, consigo ouvir o barulho da sua motosserra!

  • Rogério | Quinta-Feira, 09 de Maio de 2019, 15h55
    2
    9

    Fake news é a conversa fiada dessa eco-chata, ambientalista de ar condicionado. Acredito mais no pessoal da Acrimat ou Famato do que nessa senhora.

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