ENTREVISTA ESPECIAL

Sábado, 26 de Dezembro de 2020, 07h:08 | Atualizado: 26/12/2020, 10h:47

Ao intubar, fechei os olhos, orei e pensei na família, diz sobrevivente da Covid-19

Rodinei Crescêncio

Angélica Pereira Sardinha

A gestora de eventos no resort Malai Manso, Angélica Pereira Sardinha, 41 anos, de Cuiabá, ganhou o melhor presente de Natal: a vida. Agora no final do ano, ficou 2 meses internada com Covid-19 e escapou. O caso dela é um recorde nesta pandemia. Deu entrada no hospital em 7 de outubro e, desde então, foram 57 dias na UTI, 42 em coma induzido e 35 traqueostomizada. De forma agressiva, o coronavírus chegou a ocupar 90% de seus pulmões. Nem intubada conseguia respirar o suficiente e foi preciso abrir uma fenda no pescoço para facilitar a entrada e saída de ar, vital a todo ser humano. A morte esteve perto, no entanto, por “milagre” – sim, até os médicos usaram essa expressão – recebeu uma nova chance de renascimento. Acordou do coma ouvindo a voz do marido, recuperou-se bem e teve alta dia 8 deste mês, para alegria dela, dele, o advogado Paulo José Lopez de Oliveira, e dos dois filhos: Lorenzo, 6, e Sofia, 11. A ceia deste ano foi de muita gratidão, sem aglomeração. Além dos quatro, somente as avós participaram. Elas que tanto ajudaram com os netos, na ausência forçada da mãe. Nesta entrevista exclusiva ao , Angélica, ainda muito emocionada com tudo que passou, conta desde o diagnóstico, passando pelo período hospitalar e o pós-Covid. Uma lição tirada por ela de tudo isso é a valorização do momento presente, viver o hoje, com amor e intensidade: "a vida é um sopro".

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Se a gente voltar no tempo há 3 meses, o que sentiu no início de outubro, quando foi diagnosticada com Covid-19?

Meu marido contraiu o vírus primeiro, foi ao médico e se tratou em casa. Quando ele estava terminando o tratamento, comecei a sentir uma dor moderada no corpo e já estava alerta para qualquer sintoma que aparecesse. Fiz o teste e deu positivo. Peguei o kit-Covid e comecei a tomar. Com o adoecimento dele, a gente tinha comprado oxímetro, que mede a saturação (oxigênio no sangue), e, conforme orientação médica, caso baixasse de 90, era para ir ao hospital. No quinto dia, medi minha saturação e deu 89. No Hospital da Unimed, que é meu plano de saúde, exames mostraram que já estava com de 25% a 50% dos pulmões comprometidos, decidiram me internar. Isso foi no dia 7 de outubro. Até então, estava tranquila.

Rodinei Crescêncio

Angélica Pereira Sardinha

 

Quando foram me anestesiar para me intubar, fiquei tranquila, fechei os olhos, fiz uma oração, pedi proteção a Deus, pensei no meu marido, meus filhos, fechei os olhos, e só lembro até aí

E quando seu quadro começou a piorar?

Fiquei mais preocupada, porque, com quatro dias de internação, lá no Hospital da Unimed, me deu falta de ar, muita falta de ar mesmo. E o médico orientou me encaminhar para UTI. Achamos vaga na Santa Casa. Internei lá pelo SUS dia 11 de outubro. Na Santa Casa, fiquei uma semana consciente, mas não melhorava a saturação e dia 16 me intubaram. Sentia muita falta de ar e não conseguia usar aquela máscara, a VNI, que é um procedimento feito duas vezes ao dia em torno de 1h por vez. Quando a colocava, teria que respirar pelo nariz e soltar pela boca, mas me dava crise de pânico e não conseguia. Então, a saída foi me intubar. Estava ciente do que poderia acontecer infelizmente, mas realmente não conseguia usar a máscara. Quando foram me anestesiar para me intubar, fiquei tranquila, fechei os olhos, fiz uma oração, pedi proteção a Deus para passar seja pelo que for, pensei no meu marido, meus filhos, em todo mundo que eu amo e só lembro até aí.

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Quando você acordou?

Fui acordar 42 dias depois, já no Hospital Santa Rosa (para onde fui transferida dia 28 de outubro, na tentativa de salvarem a minha vida, porque havia risco de morte e já tinham feito tudo que podiam na Santa Casa). Tudo que se passou durante o coma, só fiquei sabendo depois, não ouvi nada, não senti nada. Meu marido fez uns contatos e ficou sabendo que o médico Luciano Corrêa, que está à frente do combate à Covid-19 no Santa Rosa é o melhor nisso. Me levaram de UTI móvel para lá. Dia 4 de novembro, meu marido foi chamado, para avisar que iam fazer uma traqueostomia, porque, mesmo intubada, a respiração estava ruim, a saturação não melhorava. Nesse momento, ele teve medo do pior. Mas os dias foram passando e eu acordei, dia 18 de novembro, por volta da hora do almoço, com a voz do Paulo (marido), ele estava falando comigo. Eu me sentia bem desorientada, com aquela sensação de que dormi profundo ontem e estou acordando hoje. Ele perguntou se eu sabia quantos dias estava dormindo. Acenei que não. Ele respondeu que há 42 dias. Fiquei surpresa. Depois disso, da UTI fui para a enfermaria, finalizar minha recuperação antes da alta.

E quanto você viu seus filhos?

Só quando tive alta, dia 8 de dezembro, fiquei traumatizada e, apesar da saudade enorme, não queria que eles entrassem no hospital, tinha medo daquele ambiente. Já tinham tido Covid, porque eles também pegaram, junto com a gente, mas, mesmo assim, fiquei com medo de reinfecção, estava cismada. Não queria visita nenhuma.

E como foi sair do hospital, rever os filhos?

Muito emocionante, ver a família, que não via há quase 2 meses, abraçar meus filhos...

Nunca tinha passado tanto tempo longe?

Nunca!

Rodinei Crescêncio

Angélica Pereira Sardinha

Vocês sempre se cuidaram, desde início da pandemia, ou só acreditaram, com a dor, no potencial ofensivo da doença?

Tomamos cuidados sim, sempre usávamos máscaras, álcool em gel, mas todo cuidado é pouco, temos que ser muito criteriosos, é uma doença muito agressiva. Ao mesmo tempo que no início parece branda, de repente se agrava rápido e ninguém sabe quem ao certo vai ter complicações. Meu irmão pegou, ficou 15 dias internado. E curou. Meu marido também, mas eu tive todas essas complicações, quase morri, sem ter nenhuma comorbidade.

O que aprendeu com esse processo dolorido?

Passei muito próximo da morte, no meu caso tive complicações graves, mais de 90% do meu pulmão ficou comprometido, é um milagre a minha recuperação. Foi um renascimento.

Você atribui esse “milagre” a quem?

Metade aos médicos e os outros 50% às orações, às muitas mensagens que recebi, grupos fazendo oração, gente que nem conhecida torcendo por mim. Acredito demais nessa energia. A experiência que fica é que precisamos valorizar as coisas mais simples. A vida é um sopro. Essa doença é super agressiva. Podemos passar por outras situações gravíssima, como a que eu passei com a Covid. Por isso, é preciso agradecer pelo dia de hoje, viver intensamente o momento.

E como estão seus filhos? Ficaram muito abalados durante a internação?

A experiência que fica é que precisamos valorizar as coisas mais simples. A vida é um sopro. Essa doença é super agressiva. Podemos passar por outras situações gravíssima, como a que eu passei. Por isso, é preciso agradecer pelo dia de hoje, viver intensamente o momento

Estavam cientes da internação, mas não têm maturidade para entender a gravidade do meu quadro de saúde, Paulo (marido) explicava que ainda estava no médico e ele estava cuidando de mim, mas eles sentiam muito falta, quando cheguei em casa ficaram grudados em mim por uma semana, um grude.

Sua cura foi o melhor presente de Natal. Está comemorando uma espécie de renascimento?

Demais, vou comemorar meu aniversário duas vezes por ano, no dia que nasci e no dia da alta.

E seu emocional agora? Como está?

Sou chorona, estou emotiva, à noite sinto dificuldade para dormir, tem noites que durmo bem, acordo de madrugada, outras não durmo, fico pensando em todo processo. Me sinto meio abalada. Tomo um fitoterápico calmante. Faço fisioterapia, para recuperar a parte motora. Fiquei muito tempo em coma, fiquei com a perna direita e pé dormentes. Perdi a coordenação motora da perna direita. A mão direita ficou imobilizada. Mas, com a fisio, já melhorou bastante. Mas não consigo ainda andar sem apoio, ainda uso andador, perdi o equilíbrio, preciso recuperá-lo.

Além dessas sequelas, mais alguma?

A fala ainda ficou um pouco comprometida, por conta da traqueostomia. Até a alta, estava com mais dificuldade de falar, mas a fonoaudióloga me passou exercícios para fazer em casa e foi melhorando muito. Eu ainda sinto dificuldade para pronunciar algumas palavras. Quem escuta não percebe, mas eu percebo que ainda não está normal.

Já voltou a trabalhar?

A previsão é para 8 de janeiro, mas dependendo do andamento da fisio. Se não estiver 100%, posso prorrogar. A empresa (Malai Manso) me deu maior apoio e os amigos de lá estão felizes com meu desfecho.

Arquivo Pessoal

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Angélia ao lado dos filhos e do marido na ceia de Natal deste ano. Ela celebra o renascimento no dia do nascimento de Jesus e agrade pelo milagre da vida

Como foi a ceia neste Natal na sua casa este ano?

Só nós 4, a minha mãe, que veio da cidade dela para ajudar a cuidar das crianças, e a mãe do meu marido, que também ajudou muito. Elas nos ajudaram demais. Fizemos um Natal sem aglomeração. Mas com muita gratidão pela vida.

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Comentários (1)

  • Lidiane PEDRA Preta CPA | Sábado, 26 de Dezembro de 2020, 10h21
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    7

    Na Rua PEDRA Preta CPA 2, ontem uma aglomeração de pessoas desrespeitando as quase 200 mil mortes coronavirus, crianças irritantes brincando na rua e transmitindo coronavirus. Tem professores nessa rua. Dar aula não querem né? Churrasco e shopping podem né? Detesto brasileiros.

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