ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 23 de Agosto de 2018, 09h:59 | Atualizado: 23/08/2018, 14h:51

Ator cuiabano há 10 anos no exterior cita preconceito social aos artistas brasileiros

Royer Matos, 32 anos, relata experiência com a atuação em países da Europa e avalia cenário nacional

Rodinei Crescêncio/Arte

Royer Matos

 

Royer Matos é um jovem cuiabano que decidiu se aventurar fora do país e investiu na carreira de ator, área em que teve trabalhos bem sucedidos. Atuou na série Centro Médico exibida na TVE da Espanha, as peças El Zoo de Cristal e El Baul Mágico no mesmo país e fez participações em séries, como a portuguesa Inspetor Max da TVI. Ele descobriu os talentos ainda quando estudava Licenciatura em Artes na UFMT. Quando fez à matéria de expressão corporal, descobriu que deveria atuar. Hoje, ele mora em Málaga, no sul da Espanha, mas costuma viajar por todo continente europeu, aonde aparecem os trabalhos, como as capitais Madrid, Barcelona ou Lisboa. Na entrevista, ele conta como é morar fora do país neste ramo e sobre a valorização dos artistas regionais, bem como projetos que incentivam a arte e cultura para novos talentos.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Por que foi para fora do país?

Sempre fui uma criança com grande instinto aventureiro, Lembro do meu pai dizer que ele tinha certeza de que eu “voaria”, assim que tivesse oportunidade. Então, as suspeitas dele foram confirmadas quando decidi sair do Brasil. A situação no Brasil não estava muito boa e juntou vários fatores, a vontade de melhorar a qualidade de vida, de aprender idiomas, de estudar artes e claro o desejo de conhecer outras culturas.

Como foi o início da sua carreira como ator? Teve dificuldades?

 Vôte, assim você me faz sentir um velhinho, mas quando paro para pensar é verdade. Vejo que realmente já estou a algum tempo nesse caminho relacionado ao mundo da interpretação. Acontece que nunca me considerei um veterano e oxalá siga assim. Sempre imagino que sou um ator iniciante, na procura pelo crescimento profissional. Respondendo a tua pergunta, creio que não só pra mim, mas também para amigos de infância o começo da busca pela realização profissional é um caminho meio difícil, porém confesso que hoje em dia a luta segue, mudamos os objetivos, vamos em frente e queremos crescer profissionalmente a cada dia e claro, acaba aparecendo novas dificuldades e novos desafios. No entanto, isso é bom porque assim saboreamos melhor o gostinho das nossas conquistas.

Reprodução

Royer Matos

Royer durante cena de um dos seus trabalhos de atuação na Europa, onde está desde 2007, quando deixou o Brasil para trabalhar e aprender novas culturas

Qual trabalho já fez no Brasil e fora dele?

Quando estava no Brasil comecei em Cuiabá, era mais acessível para mim o mundo teatral do que a Tv. Fiz Saltimbanco, minha primeira peça com a direção de Simone Pompeo. Depois fiz também O Sítio do Pica-Pau-Amarelo com a mesma companhia teatral, onde iniciei minha formação na área, a Cia Teatral que era formada pelos alunos do curso de Licenciatura em Artes da UFMT. Fora do Brasil fiz as peças Por culpa de la crisis, El Zoo de Cristal e El Baul Mágico na Espanha. Em Lisboa participei nos espetáculos Cabaret Lola, A Rainha da Neve e Anne Sullivan y Heler Keller ambas dirigidas por Roberto Cordovani. Na Tv fiz a série espanhola “Centro Médico” do canal TVE interpretando João Constanza e a serie portuguesa Inspetor Max interpretando o cantor Rafa.

Acredita que no Brasil os artistas são desvalorizados? Você conseguiu ser melhor sucedido fora?

Pois é, temos aqui uma questão polêmica. Eu acredito sim que temos uma dívida com os artistas brasileiros, sobretudo com todos aqueles que não estão na grande mídia. Seja ele ator, músico, cantor, bailarino, pintor, escritor. Temos que valorizar não só desde o ponto de vista econômico, mas também do ponto de vista social e cultural. Ainda existe muito preconceito social quando falamos do mundo artístico, muitos companheiros tiveram que lutar contra a própria família pra seguir o caminho profissional desejado. Esse processo de valorização e respeito pela arte deve começar em casa e logo desde a educação primaria, fundamentando o nosso país desde a base.

Você acompanha os artistas e desenvolvimento da arte cênica por MT? O que achou de iniciativas como o MT Escola de Teatro?

Por mais que estou longe, sempre tento acompanhar o movimento artístico de Mato Grosso. Tenho amigos artistas mato-grossenses e quase sempre através deles obtenho informação a respeito. Hoje em dia vejo que o desenvolvimento nos últimos anos tem sido incrível. Por exemplo, acompanho o projeto do “Instituto Ciranda” desde o inicio e sei que segue formando músicos de alto nível. Logo na área do cinema, recentemente, o curta-metragem cuiabano Sombras arrebatou o prêmio da categoria de melhor Super Curta de Comédia, outorgado pelo Television and Script film Festival, em Los Angeles. Recentemente Cuiabá também acolheu as gravações do filme Loop dirigido pelo mato-grossense Bruno Bini, com grandes nomes, como Bruno Gagliasso, Sandro Lucose e Romeu Benedicto. Sem falar em tantos produtos audiovisuais que estão sendo produzidos em Cuiabá para o âmbito web, como o canal de Youtube Não Convém, capitaneado pelos roteiristas Eduardo Butakka e Thyago Mourão. Iniciativas com a criação do projeto MT Escola de Teatro são mais do que necessárias, estimulando assim o desenvolvimento e a ampliação do movimento cênico do nosso estado, ainda mais sabendo que o projeto esta inspirando na exitosa experiência formativa da SP Escola de Teatro.

Arquivo Pessoal

Royer Matos

Royer se dedica aos estudos na área do audiovisual

Como MT é visto fora do país? O que os estrangeiros dizem do Brasil e do Estado?

Graças a esses movimentos artísticos, Mato Grosso vem sendo lembrado como um Estado que se preocupa sim com a cultura e a arte local. Logo, o reconhecimento é conseqüência desse trabalho de valorização cultural que vem sendo feito no nosso Estado. Normalmente, os estrangeiros não distinguem os nossos Estados, eles generalizam todos como brasileiros. Mas sempre gosto de contar e falar de onde vim, sobre nossos costumes e da nossa cultura.

Já surgiram propostas aqui para que voltasse? Imagina esta possibilidade se houver convite? Tem família em Mato Grosso?

Seria um prazer poder trabalhar no Brasil, já estive em contato com alguns projetos audiovisuais do nosso Estado que, no final, não encaixaram por questão de agenda. Minha família mora em Mato Grosso, aqui fora tenho meus irmãos.

Atualmente, está trabalhando em algum projeto?

Atualmente estou fazendo um Master em Realização e Produção Audiovisual, que termino em dezembro. Estou desenvolvendo um projeto-piloto de humorístico para Web que gravaremos em breve, também no meio de tudo isso estou envolvido com as gravações de um videoclipe. É que não falta trabalho, verdade.

Considerando sua experiência na área, quais conselhos daria para aqueles que estão começando ou sonham em atuar?

Como tudo na vida, o primeiro que devemos ter é foco. Logo devemos ser persistentes e muito cautelosos em cada passo que damos. Nem tudo que brilha é ouro. Procure formação, se prepare para o mercado de trabalho, porque enquanto você “dorme no ponto” milhares de pessoas estão trabalhando duro para alcançar os seus objetivos. Acredito que devemos deixar de lado os sonhos e estabelecer objetivos. É muito importante saber escolher com quem você quer colaborar na hora de construir teu caminho, se junte com pessoas que estão um passo a frente, pois elas vão te ajudar a dar o teu próximo passo e muito cuidado com “Lobos”.

O que quer dizer como isso?

Se não tivermos cuidado acabamos ficando cegos pela vontade de alcançar o sucesso, o que acho natural e normal, já que todos querem ser numero 1 naquilo que faz. O problema vem quando não sabemos identificar caminhos que são fraudulentos. Devemos fugir de agências que prometem muito, de falsos representantes, de contratos de exclusividade quando ainda não temos uma imagem a construir na mídia. Aconselho que investiguem, perguntem e conheçam o meio que estão trabalhando, além de saber identificar o que realmente vale a pena em cada momento.

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