ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 14 de Novembro de 2019, 14h:40 | Atualizado: 14/11/2019, 14h:50

Censura não vem só do governo, mas de quem apoia, diz MC sobre cultura marginal

MC Heitor Ahgave revela que seu trabalho é principalmente para incomodar quem está acomodado

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Heitor Ahgave

 

Na semana do Dia Mundial do Hip Hop, comemorado em 12 de novembro, debates sobre a cultura marginal e seu momento na mídia se reaquecem. Isso porque tal cultura há algum tempo não é tratada apenas como do “gueto”, mas parte da moda nas grandes gravadoras e indústrias como, por exemplo, as que promovem o rap. Para falar sobre isso, a reportagem entrevistou o MC, que também é músico e videomaker dessa cena, Heitor Ahgave. Ele falou sobre indústria, mercado crescente em Mato Grosso, contemplações de editais para realização de trabalhos, realidade dos artistas, críticas políticas nas composições e censura. Este ano, ele ainda pretende lançar seu primeiro clipe que intitulou de “Lucrar”, gravado junto com atores e a rapper Pacha Ana.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Como começou sua carreira enquanto músico, MC e videomaker?

A música vem antes do trabalho como MC, eu tinha projetos de rock, mas houve uma época que me envolvi com swingueira e por isso já havia passado por alguns estilos. Respectivamente, algumas matérias na Faculdade de Comunicação começaram a me aguçar o senso crítico. Com o tempo, passei a compor minhas próprias músicas, e, desde então, escolhi um nome artístico que é “Ahgave”. É da família de plantas das suculentas e que remete a uma certa característica ao povo do cerrado mato-grossense que vive com pouco, como os kactos e as suculentas que vivem com pouca água e sob esse sol escaldante.

Durante este tempo você saiu do Estado e retornou, como ocorreram seus trabalhos nesses momentos?

Estive em Florianópolis durante um ano e depois fui para São Paulo onde permaneci por um tempo, e esse momento foi de muito aprendizado para mim. Em alguns períodos eu não estava fazendo shows, mas sempre fazendo participações e em casa compondo, que é um trabalho meio que diário de anotação e pesquisas constantes. Então eu nunca parei.

Rodinei Crescêncio

Heitor Gomes (Ahgave)

O MC, que também é músico e videomaker dessa cena, Heitor Gomes, conhecido como Ahgave, em entrevista especial à jornalista Mirella Duarte

Como é ser MC aqui em MT? O que percebe de diferente com a bagagem que já tem de outros Estados?

É legal explicar esse termo que nem todo mundo é habituado. “MC” é o mesmo que mestre de cerimônia. Para mim é muito bom ser uma pessoa que tem oportunidade de pegar o microfone e comunicar com outras pessoas e dizer o que outras pessoas gostariam de falar e não tem essa oportunidade, por isso levo muito a sério e tenho respeito por isso. Aqui em Mato Grosso, hoje, a gente consegue ter uma visão de observar coisas que antes não percebia. Por estar envolvido com outros MCs de outras regiões também, vejo que ainda faltam recursos, ajuda de todos os meios. Não sei se eu posso dizer do Estado, que com esse a gente não pode contar mesmo, mas também a própria cena em si, como estúdios e equipamentos de audiovisual e outras coisas que não são muito acessíveis. Porque é toda uma cadeia profissional, não apenas no processo criativo, mas após a gravação, que vai pro profissional de áudio e vídeo que trata ela. Um trabalho recém gravado é interessante ser lançado com um clipe, ou seja, existe toda uma gama. Aqui existem muitos músicos, MCs e profissionais que gravam e editam que são originais e é um movimento forte que tem se fortalecido cada vez mais.

A cultura marginal se expande pela Capital, não está só nas periferias. Acredita que esse movimento está se fortalecendo com o passar dos anos?

Sim, acho que a gente ainda pode dizer que é uma cultura marginal, apesar de ter transgredido em espaço como TVs, rádio. Na moda, essa cultura sempre esteve, mas agora segue uma linha mais “hype”. Ela ainda está na margem, nas periferias, com as vertentes de break, grafite e de MC. Então, cada parte da cidade tem alguma dessas vertentes que é mais forte.

Qual a sua intenção enquanto artista? Deseja alcançar a fama ou ser mainstream?

Acho que é interessante a gente passar por esses meios de grande massa, mas não é a minha intenção principal. Minha intenção é continuar me apresentando e, se possível, continuar fazendo esse recorte que envolve apresentação em sarau cultural e outros tipos de festa que são organizados dentro de um núcleo menor de pessoas, e que talvez tenha um impacto maior.

Rodinei Crescêncio

Heitor Gomes (Ahgave)

Heitor Ahgave recebeu equipe do Rdnews em sua casa

Nas suas composições, muitas letras são políticas ou de críticas ao agronegócio, por exemplo. Você se considera militante? Como define suas visões?  

Sim, não costumo afirmar muito isso de ser militante. Acho que estando dentro deste movimento do rap ou slam, não é tão fácil você se desvincular de um movimento político. Existe pessoas que fazem isso, que falam sobre festas, baladas, mas ainda assim fazem algumas criticas. A missão dos MCs é mais questionar do que responder.

Enquanto artista e com posições políticas bastante questionadoras, como vê as afirmações do atual governo Bolsonaro? Tem medo de ser censurado? Acha que isso realmente pode ocorrer?

Acho que a censura dessa vez e nesse Governo não vai ser tão explicita, porque ela já está acontecendo, como corte de verbas para o audiovisual, logo o cinema que movimenta tanto o PIB, ninguém está especulando. Existe dados que comprovam isso. Desestrutura-se toda uma cadeia de produção e empregos diretos e indiretos ou também a questão da censura com o grafite, como o da Greta Thunberg e do cacique Raoni em Sinop, que após a intervenção, a censura ocorreu imediatamente. Essa censura não vem só do Estado, vem das pessoas que apoiam este governo também. Ela não virá em forma de Lei, não serão tão óbvios assim.

Seu trabalho é para incomodar?

Meu trabalho é principalmente para incomodar quem está acomodado. Quando houve a repercussão de um desses trabalhos chamado “Agrocypher”, onde não recebemos ameaças, mas muita críticas pesadas falando como “quero ver vocês colocando comida na mesa do povo”, como se fosse o agronegócio que colocasse a comida na boca do povo – é a agricultura familiar que produz cerca de 80% da comida no mundo.

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Comentários (4)

  • GILMAR DE PAULA | Sábado, 16 de Novembro de 2019, 16h37
    2
    0

    A lei Rouanet financiou uma porção de CDs porcaria, peças teatrais merrecas, shows que sequer merecem comentários e muitas outras "obras" absolutamente inúteis. Se esse lixo todo for cultura, então, a vaca já foi pro brejo. O que essa gente precisa é trabalhar e deixar de achar que o brasileiro é besta. Agora, a teta farta do dinheiro do contribuinte secou, daí esse desespero todo.

  • Xucro | Sábado, 16 de Novembro de 2019, 12h31
    3
    0

    Rapaz, é brincadeira esses petebas! Trabalhar que é bom não quer, só ficar criticando o governo e morando na casa do pai e da mãe. Nem lavar a cueca faz.

  • JÃO DO PORTO | Sábado, 16 de Novembro de 2019, 10h19
    3
    0

    Cultura Marginal ?? = CADEIA......rs

  • Moreira | Sexta-Feira, 15 de Novembro de 2019, 10h02
    3
    0

    Ou seja, quer mamar nas tetas estatais sem trabalhar.

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