ENTREVISTA ESPECIAL

Sábado, 23 de Janeiro de 2021, 08h:05 | Atualizado: 23/01/2021, 08h:27

Com acesso a crédito, servidores estão atolados em dívidas e coach aponta saídas

Renata Mello entrevista especial

O salário da servidora pública Renata Mello Alves Ferreira, 39 anos, de Cuiabá, dobrou da noite para o dia, há 11 anos, quando passou no concurso da Secretaria de Estado de Segurança Pública, onde trabalha. Animada, saiu comprando coisas, fazendo gastos sem limites. Não demorou muito para, apesar de estar ganhando bem, cair no vale das sombras do endividamento.

Para piorar, separou-se do primeiro marido e herdou mais dívidas de financiamentos que tinha feito, principalmente para movimentar a empresa do ex, com as facilidades que o servidor tem e acesso ao crédito.

Tudo começou comigo mesma (...) , quando entrei no concurso de 2008 (...) meu salário dobrou. Comecei a consumir e não fazer o controle dos gastos

Foi quando resolveu dar um basta. Começou a buscar ajuda espontânea na rede e ouvir influenciadores como Natália Arcuri e Gustavo Cerbasi, que ensinam a sair do vermelho.

Um belo dia, olhando para os filhos, pensou que seria importante eles aprenderem também a ter controle financeiro, só que desde cedo, para que não sofressem com endividamento mais tarde.

Assim, começou a fazer cursos e mais cursos, tornando-se pós-especialista em educação financeira e coach, além de arquiteta, formada pela UFMT, e servidora.

Nesse processo, redescobriu-se como consumidora e dona do próprio bolso. Ainda bem, porque tem uma família grande para sustentar, junto com o atual marido, que é dono de academia. É mãe de três filhos – Aurora de 3 meses, Angelina, 7 anos, e Lucas, 9 - e abraçou também duas enteadas - Maria Clara, 9, e Maria Luísa, 6. É uma criançada animada que dá sentido à vida do casal. Essa galerinha toda já está aprendendo a usar dinheiro e nesta entrevista Renata explica como se dá essa iniciação precoce.

Renata Mello Alves Ferreira

Renata garante que não é a única servidora pública a se “embananar” com dívida, já que a carreira facilita mesmo o acesso a crédito e compras, inclusive com desconto em folha. E muitos ganham bem, para realidade brasileira, então tendem a ir gastando a esmo. Mas, segundo afirma, não importa quanto você ganha, se é pouco ou muito. Importante é como lida com o dinheiro. Isso se aplica a todos, exceto – é claro - os que estão abaixo da linha da pobreza.

Saber usar o dinheiro, de acordo com ela,  é questão de aprendizado e consciência e essa lição - muitas vezes - dói, corta na carne, é como uma terapia, tem que mexer nas estruturas e ter coragem para mudar de comportamento. Tudo em busca da paz financeira. Confira principais trechos da entrevista exclusiva que deu ao .

Como se interessou por educação financeira?

A vida inteira a gente aprende a trabalhar para ganhar dinheiro, mas ninguém ensina o que fazer com esse dinheiro, eu também não tive essa orientação e me perdi

Tudo começou comigo mesma, sou funcionária pública e, quando entrei no concurso de 2008, como analista administrativo na Segurança Pública, meu salário dobrou. Comecei a consumir e não fazer o controle dos gastos e me encontrei endividada, fiz muitos empréstimos consignados, principalmente para movimentar a microemprensa do meu ex-marido. Acabei me divorciando, e fiquei com as dívidas. Na minha busca por terapia, autoconhecimento, identifiquei que ser uma devedora era um dos motivos que me deixavam desanimada (na vida). Era uma bagunça financeira e não tinha como dormir bem toda endividada. Um dia olhei para meus filhos e pensei: se eu não ensinar educação financeira a eles, quem vai ensiná-los? A vida inteira a gente aprende a trabalhar para ganhar dinheiro, mas ninguém ensina o que fazer com esse dinheiro, eu também não tive essa orientação e me perdi.

Como começou a se informar sobre isso?

Na internet, com os youtubers Natalia Arcure e Gustavo Cerbasi, por exemplo, que ensinam a sair do vermelho.

Mas você não é a única servidora a se endividar, é?

Não, são muitos, porque o servidor tem crédito no mercado, tem estabilidade e mais facilidade de acesso a financiamentos, isso acaba seduzindo muito. É muito fácil comprar sendo servidor público.

Renata Mello Alves Ferreira

Mas comprar o que?

Nem me refiro a compras grandes, como carro e casa, mas sim gastos do dia a dia, consumo excerbado, fazer viagens e vão trocando uma dívida por outra e gastando. Pagam cartão de crédito com cheque especial e etc.

Não é difícil se perder no consumo, não é? A oferta é grande.

Oferta e disponibilidade de crédito, além do marketing que atinge até crianças. Na televisão, 90% é propaganda e menor parte conteúdo. Na internet, também. O consumidor é inclusive rastreado e bombaerdeado e, por vezes, acaba comprando mesmo sem precisar. Vendedores usam até gatilhos mentais, do tipo a promoção vai acabar daqui a pouco, aproveite, ou, promoção somente por este mês. O fato é que a gente, quando sai na rua (ou internet) para comprar, os vendedores estão treinados para nos vender e temos de estar preparados também, sabendo o que cabe em nosso orçamento.

Caso contrário, a gente fica enforcado.

Sim, no meu caso, com o concurso, meu salário dobrou e deslumbrei. Fiquei com a corda no pescoço e comecei a buscar ajuda espontânea. O despertar para trabalhar com isso foi quando percebi que eu mesma poderia aprender e ensinar aos meus filhos a usar o dinheiro e fui fazer cursos para me qualificar.

Quando é a hora de parar e reorganizar as finanças?

A partir do momento que não está conseguindo honrar seus compromisso. Não é não ter dívidas. Há dívidas boas e ruins. Dívida boa é aquela que você está conseguindo pagar. A partir do momento que você usa cheque especial, cartão de crédito e faz empréstimo consignado, começa a pagar o mínimo de cartão de crédito, começa se enrolar, aí tem que parar e se reorganizar.

Qual o primeiro passo?

Conscientizar que está precisando de ajuda e querer passar pelo processo de ajuste. Porque o endividamento é mais comportamental do que técnico. Todos sabem que temos que gastar menos do que ganhamos. Mas por que a gente não faz isso? Porque deixa nossas emoções falarem mais alto. Compra para aliviar as tensões, compra para aliviar minha cabeça. Sai para comemorar se a vida está boa e sai para aliviar se está ruim. 

E o que é preciso fazer para conseguir sair do vermelho?

Ter paciência para se reorganizar, porque a gente não se endivida da noite para o dia. É igual a engordar, vai ocorrendo aos poucos, e depois quer emagrecer rapidamente. Tem que conhecer o que entra (de dinheiro) e o que sai (gastos). Tem que saber o que é salário bruto e líquido. Tem gente que ganha R$ 15 mil e inconscientemente fica com o valor bruto em mente, quer se enganar, vive em um patamar como se ganhasse 15, mas na verdade o que cai na conta, com os descontos, é 8. Então a pessoa tem que saber que ganha 8. Outra coisa, tem que identificar gastos, primeiro os gastos essenciais: moradia, alimentação, vestuário, transporte e educação. Viver de acordo com o padrão, mas muita gente almeja ter mais do que o salário pode pagar. Então a saída (para não se endividar) é, antes de gastar, ir buscar novas formas de renda e uma forma de aumentar renda é também sempre se qualificar.

Muitas mulheres de baixa renda, como, por exemplo manicures, fazem isso. Não só fazem unha, como também vendem perfume e roupas.

Sim. Então é o que digo, o importante não é o quanto você ganha, mas o que você faz, o mais importante é seu comportamento perante sua renda. Um dos princípios para manter-se em bom patamar é viver um nível abaixo do que você ganha, o problema é que as pessoas querem ostentar. Aí vêm as despesas não essenciais, alimentação fora, compra parcelada e até cafezinhos.

Até o cafezinho pode ser o vilão e tem que ser contabilizado?

A princípio sim, tem que anotar o cafezinho, não que vá viver desesperadamente colocando tudo no papel, mas para fazer o diagnóstico é preciso. O levantamento de dívidas, no computador ou no papel, onde a pessoa se sentir mais à vontade. Hoje em dia tem aplicativos que oferecem planilha básica ou vinculados à conta bancária. No final do mês, te dão um balanço de com que você gastou mais.

Quanto tempo é preciso para reorganizar contas?

Meus clientes passam 30 dias fazendo anotação de gastos, é impressionante como se surpreendem com o que gastam. Na pandemia, a surpresa é para o volume de compras on line, por aplicativos como iFood ou Uber Eats.

Buscar credores, tem que ter essa coragem de buscá-los, essa é a pior parte, de enfrentamento

Cozinhar e comer em casa é muito mais barato...

Muito mais barato!

Depois de diagnosticar gastos, qual o segundo passo?

Buscar credores, tem que ter essa coragem de procurá-los, essa é a pior parte, de enfrentamento, muito chato isso. Reconhecer-se como credor, eu não gosto quando me deparo com a Renata devedora, gastadeira, que fez o compromisso e não honrou, muitos desistem nessa hora, dão as costas e continuam devendo, porque tomar consciência disso é assustador.

Quais contas devem ser pagas primeiro?

Tem que montar estratégia caso a caso, não tem uma regra geral. Existe uma máxima que é pagar as dívidas mais caras, quitar cartão de crédito, sair do cheque especial, que têm taxas maiores.

Tem que quebrar o cartão de crédito?

Não sugiro isso não, o cartão de crédito não é o vilão e sim o que fazemos com ele. E o cheque especial também, que é um empréstimo instantâneo, já liberado, para casos urgente, para despesa essencial, mas tem uma das maiores taxas de juros. E atenção para as contas que envolvem bens em garantia, como por exemplo, financiamento de casa e carro. A Caixa toma. Com 3 parcelas em atraso, já está indo para protesto em cartório.

Mas quais dívidas devem ser priorizadas então?

Cada caso é um caso, se o pai está devendo a escola e todo dia vai levar a criança para aula e isso é constrangedor, gera um sofrimento diário, dependendo da análise da situação, essa conta pode ser priorizada, porque a pessoa precisa respirar e ver a luz no fim do túnel. É uma estratégia que busca qualidade de vida. Toda dívida tem um fator psicológico. Importante levar isso em consideração. Além de pagar as contas, tem que pensar em fazer uma reserva emergencial e também prever o próximo mês, apontar para o futuro, elencar as contas fixas, como luz, água, telefone, mercado e fazer provisão. Fazer também uma estimativa das despesas não essenciais, tudo isso de acordo com a realidade da pessoa. E se perguntar: estou podendo gastar com alimentação fora de casa (por exemplo)? Em seguida eleger prioridades e definir cortes no orçamento. Fazer uma varredura, verificar taxas e tarifas que você pode evitar, com renegociação. Suspender serviços, que podem ser retomados mais tarde, como TV por assinatura. Fazer tais cortes até pagar as contas urgentes. Saber, ao certo, para que rumo está indo. Depois retoma, se avaliar que é possível.

Quanto tempo demora para sair do vermelho e reorganizar o bolso?

Em torno de 6 meses a 2 anos para sair desse vale das sombras (do endividamento)

Em torno de 6 meses a 2 anos para sair desse vale das sombras.

Quem te contrata é pessoa comum ou empresa?

Maioria pessoa comum. Em janeiro aumenta a procura, porque começa o ano e têm as promessas de mudança de vida, a pessoa diz: agora vou me organizar.

Mais alguma dica?

Quer arcar com seu custo de vida? E só descer o nível, viver com o que ganha, ou buscar aumentar a renda.  O corte de prazeres é doloroso, mas vale a pena e não é para sempre.

E quando as crianças devem começar a aprender a lidar com dinheiro?

Cedo. Primeiro tem que ensinar o que é dinheiro, que não cai do céu, a mesada é um excelente instrumento de educação financeira. De 2 a 6 anos, sugiro na verdade a semanada. Acabou, acabou. E não adianta só entregar o dinheiro e se vira. Tem que ajudá-la a entender suas prioridades. Na minha casa, meus filhos têm 4 potes. O 1º pote é o potinho do hoje. Se a criança ganha R$ 40 por semana, coloca R$ 10 lá no pote do hoje, para uma balinha, uma figurinha. Com o potinho do amanhã já começa a planejar o gasto, coloca lá mais R$ 10. Aqui em casa, a gente só compra presente em datas especiais. Então, fora disso as crianças listam desejos: quero esse brinquedo, então tem que juntar dinheiro. Se a prioridade é um carrinho da Hotwells, então quanto custa? Quanto a criança tem? Os filhos se sentem parte do processo e costumam valorizar mais o brinquedo comprado por eles do que o que é recebido de presente. Tem também o pote do futuro, que é para retirar somente quando tiver 18 anos, isso faz entender sobre investimento. Pega um pouco desse dinheiro e guarda no banco, explica que é igual fermento no bolo, vai crescendo aos poucos. Aplico para eles em contas remuneradas, rende pouco, mas vai rendendo, pouquinho a pouquinho e vou mostrando eventualmente: olha, aumentou mais um pouco. E o 4º potinho é o da gratidão, junta ali o ano todo e no final fazemos doação. Gosto de ensinar isso aos meus filhos.

Não é fácil, dá um trabalhinho fazer isso.

Sim e tem que estar inserido na rotina. Não é algo que você faz um dia e depois larga para lá, mas depois que passa por esses processos de organização e educação financeira o comportamento se torna automático.

O que se tem a ganhar com isso?

Paz, tranquilidade financeira e qualidade de vida. Você aprende a consumir melhor, evita desperdício e isso se reflete na saúde física e mental.

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Comentários (1)

  • Zvilmar | Domingo, 24 de Janeiro de 2021, 15h31
    0
    0

    Tudo bem que a falta de educaçao financeira leva muitos para um elevado nivel de endividamento...no caso dos funcionarios publicos existe um outro fator que fizeram muitos mergulharem nessa onda de elevando nivel de endividamento...

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