ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 27 de Dezembro de 2018, 10h:10 | Atualizado: 27/12/2018, 16h:22

Conservadorismo cresce na política e no Brasil sustentação é a religião, diz analista

Chistiany Fonseca diz que Taques ficou desgastado após embate com servidores e defende taxação do agro

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Christiany Fonseca

 

Dias de intensos embates e reviravoltas. Assim pode ser definido o ano de 2018, que ficará marcado pelas eleições presidenciais, com a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) e, em Mato Grosso, com a histórica derrota do governador Pedro Taques (PSDB) e ascensão de seu ex-aliado Mauro Mendes (DEM) ao comando do Palácio Paiaguás. Neste período de análise do que se passou e definição de metas para o próximo ano, o conversou com a cientista política Chistiany Fonseca. Uma das únicas mulheres do Estado a se aventurar na análise do mundo político, a cuiabana fala sobre a rejeição ao Governo Tucano, expectativa para a nova administração e o que pode ter motivado a vitória de Bolsonaro em um momento de extremo conservadorismo do país.

Confira os melhores trechos da entrevista:

A política, de uma forma geral, é um espaço ocupado e discutido majoritariamente por homens. Você como estudiosa da área está entre as poucas mulheres do meio. Como avalia a importância da mulher na política e já enfrentou dificuldades?

 Acho relevante mulheres que discutem política em uma área que é majoritariamente masculina em Mato Grosso. Se analisarmos aqui, até os partidos políticos, tradicionalmente, são liderados por agentes políticos masculinos. Ser mulher entrando em um ambiente com maioria masculina faz com que esse enfrentamento seja muito maior e a gente precisa fazer isso ainda mais para que se consolide no espaço. Fala-se muito da participação das mulheres na política e ela é muito mais que só ser candidata, mas é também poder analisar política e estar inserida nesse processo e estar discutindo, porque daí sim você vai conseguir criar ferramenta para que mais mulheres possam estar nesse espaço.

Ao que atribui a rejeição do governador Pedro Taques nas urnas?

Uma das coisas que pesam muito em relação ao governador Pedro Taques é que a gente vem vivendo esse processo antissistema. A própria eleição de Jair Bolsonaro teve essa característica. Muita gente votou em Bolsonaro, não porque acredita ideologicamente nele, mas porque é antissistema. Em tese, o Taques veio do judiciário para fazer toda uma limpeza naquele processo de corrupção, de vícios da estrutura política mato-grossense. Tanto é que ele foi um dos grandes algozes em relação ao ex-governador Silval Barbosa, mas, de repente, você lida com uma gestão que passa a ter os mesmos problemas que a antiga. Então, esse discurso do antissistema ou pelo menos esse discurso da anticorrupção foi ficando fragilizado com Taques. Não só isso, Mato Grosso é um Estado majoritariamente formado pelo funcionalismo público, só do Estado temos mais de 100 mil servidores públicos. O governador fez um enfrentamento histórico com esse funcionalismo, como na questão da RGA, o que desgastou o governador.

Rodinei Crescêncio

Christiany Fonseca

A cientista política Christiany Fonseca em entrevista na sede do Rdnews; ela faz análise sobre Gestão Taques e projeções para Mauro e Bolsonaro

Acredita que a população se decepcionou com o governador nos últimos anos?

Se decepcionou na medida em que os votos têm sido baseados em não eleger candidatos com lastros com a corrupção. Por ter vindo do judiciário, as pessoas esperam que você esteja blindado de qualquer perspectiva que envolva corrupção, crimes relacionados ao patrimônio público. Dentro dessa gestão tem o problema com o coração do Estado, que é a educação, um dos primeiros escândalos do governo vem aí com os desvios relacionados a Seduc. Outras pessoas e pontos ligados ao governador, como a "Grampolandia", por exemplo, também demonstra algo que historicamente só vimos na Ditadura Militar, em que as pessoas eram gravadas e censuradas. De repente, em pleno século XXI você tem essas ações dentro de Mato Grosso para pautar uma política utilitária e individual e cerceando o direito de liberdade de algumas pessoas, monitorando elas. Isso só se viu em período de ditadura e também se quebra expectativas.

Acredita que faltou estratégia política?

 O Governo Taques foi muito seguro em sua gestão. Ele teve uma votação maiúscula inicialmente e com autoconfiança muito grande. Mas o processo político é baseado em dividir para somar, e o mandato de Taques esteve muito concentrado em alguns grupos. Você percebe que até a chapa, quando ela foi construída para disputar a reeleição, ficou dentro do próprio PSDB. Ela não expandiu. O Rui Prado veio como candidato a vice, mas o leque de alianças foi se fechando. A própria perda que eles tiveram no meio do caminho do apoio do PSL foi muito ruim para candidatura do Taques. Selma Arruda que foi eleita senadora preferiu se colar com Bolsonaro e desfazer a cola com Taques, que vinha tendo uma serie de repercussões e escândalos em seu governo. Faltou habilidade para manter aliados.

Este ano as candidaturas para Senado estiveram inflacionadas, mas ela parece ter continuado com representatividade nos mesmos grandes setores, exemplo, o agronegócio. Como avalia isso?

 Tivemos onze candidatos ao Senado nessa eleição, alguns com mais chances de vitória e outros com menos, mas marcando em posicionamentos ideológicos e partidários. No entanto, nós percebemos ainda que a eleição acabou se concentrando nos candidatos do agronegócio e com os nomes que demonstraram uma candidatura com conjuntura nacional, que foi o efeito Bolsonaro - que leva a vitória de senadores no país todo e com um número também interessante de deputados federais. Hoje, a bancada do PSL dentro do Congresso é a segunda maior bancada. A que teve maior número de votos dentro desse cenário.

Rodinei Crescêncio

Christiany Fonseca

Christiany Fonseca durante entrevista ao Rdnews

Como avalia os dados e declarações de Mauro Mendes para os próximos anos em relação a reforma administrativa e iniciação de seu governo?

 Em tese, esse Governo começa a fazer uma reforma administrativa, mas acho que mais do que isso, Mato Grosso precisa aumentar a receita. Mais do que cortar é aumentar a receita. Para isso, é preciso passar pela taxação de um setor que vem sendo privilegiado pela Lei Kandhir, mas que acaba não tendo o feedback ao Estado. Por outro lado, sabemos que a candidatura de Mauro teve grandes aliados deste setor, o que pode dificultar ele conseguir implantar essa taxação de forma efetiva. Esse discurso vem crescendo e tivemos agora uma audiência pública sobre esse assunto, o presidente da Assembleia Eduardo Botelho (DEM) já se posicionou favorável. Jayme Campos (DEM), eleito senador, vem fazendo declarações incisivas em relação ao agro. Ampliar essa receita pressupõe hoje que o agro precisa contribuir mais com o Estado.

Qual avalia ser a expectativa da população para o Governo Mauro?

 A população se coloca com grande expectativa, tanto na conjuntura nacional como na local. Agora, o que vai definir isso é o primeiro ano de governo. Mauro Mendes já tem dado indícios de que a questão com funcionalismo público, que foi o grande calcanhar de Aquiles de Taques, também vai ser o enfrentamento de seu Governo. Ele já disse que há possibilidades de atrasar o salário, que há possibilidades de tentar repensar a RGA, ou seja, um Estado que vive majoritariamente do funcionalismo público, o governador pode ter um duro enfrentamento aos longos dos anos. O Estado realmente acumula uma dívida ao longo dos anos e está fragilizado na sua estrutura financeira, cabe ao governador eleito a manutenção disso. Cabe o questionamento, se o governador eleito irá reduzir esses custos da máquina só com o povo e funcionalismo ou também vai levar essa discussão para outros setores maiores.

Houve uma forte comoção em relação as eleições, principalmente presidencial. Discursos mais inflamados tendem a esfriar nas últimas semanas?

 Nós teremos um ano marcado pelo alto número de pautas ideológicas. Bolsonaro foi eleito como um candidato antissistema, ainda que ele não seja antissistema, a gente está falando de uma figura que está no cenário político há mais de trinta anos, só como deputado federal, ele esteve 28 anos e dentro do PP, que é um partido tradicional do Brasil. Então, nós não temos, necessariamente, uma figura que é um político novo, mas foi eleito com o discurso antissistema. Não só com o discurso antissistema, mas com um discurso bastante moral. Nós temos uma característica do brasileiro que é ser conservador. O brasileiro é religioso, e nas comunidades ou nos bairros você não tem, muitas vezes um posto de saúde, uma escola, creche, mas tem uma igreja. A igreja tem uma forte ascensão sobre essas pessoas e nesse processo, Bolsonaro entra com a pauta moral dentro de um conservadorismo muito forte. Esse novo mandato rompe com a perspectiva petista, que talvez foi um pouco mais progressista e libertária com relação as essas pautas morais de Jair Bolsonaro. Passaremos a ter um Congresso muito mais polarizado.

Como avalia o comportamento dos eleitores em relação aos governos de esquerda ou direita?

O Brasil não é um país que vota na esquerda ou na direita, até porque o número de partidos que nós temos ainda não consegue delimitar ideológicamente para onde é que esse voto vai. O voto do brasileiro é para um projeto de mudança. Então, é nesse processo que a esquerda pode voltar a ser protagonista sim, e vai depender de como ela vai fazer esse enfrentamento com a gestão de Jair Bolsonaro. Enfrentamento que também passa pelo PT. Ainda que o campo da oposição tenha o isolado, ele ainda é o partido que tem o maior número de deputados eleitos. O governo de Bolsonaro, em contraponto, já demonstrou que não é um governo que está blindado e já vai iniciar uma gestão também com escândalos. Demonstrou que o discurso antissistema e anticorrupção não é verídico. Muito pelo contrário, está muito próximo e até relacionado aos seus filhos que estão inseridos dentro da política.

Veja vídeo com trecho da entrevista:

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Comentários (2)

  • Raimundo Hedvaldo | Domingo, 30 de Dezembro de 2018, 07h59
    0
    0

    Sustentação não é a religião, são os religiosos, ou seja, o povo cansou da putaria que governa os poderes, eu disse os poderes no Brasil. A maioria das pessoas pensa diferente da ideologia defendida pela grande mídia, pela ONU e pela devastadora é populista esquerda.

  • sid | Sábado, 29 de Dezembro de 2018, 22h24
    2
    0

    Está longe da politica brasileira se apresentar como viés de direita ou de esquerda. Obrigado ou não, o eleitor brasileiro votará sempre em figuras que apresentem mudanças imediatas ao fortalecimento da economia e consequentemente o social. O povo está como fome de comida e dinheiro, entre outras necessidades. Quatro anos é pouco para tantos debates. As falas das ruas, têm sido usadas maldosamente, nos últimos tempos, contra as expectativas da população, durante as campanhas eleitorais. Não está restando nem mesmo a religião, mas somente a fé de cada um por dias melhores.

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