ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 21 de Março de 2019, 13h:34 | Atualizado: 21/03/2019, 14h:11

Nutricionista defende o fim dos padrões e detona "indústria do emagrecimento" veja

Ricardo Durante questiona famosas dietas mirabolantes e defende o respeito aos diversos tipos de corpos

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Ricardo Durante

 

A indústria da beleza é aliada a do emagrecimento e as pessoas, cada vez mais, são vítimas de um padrão inalcansável. Para tentar manter o corpo "perfeito", fazem dietas mirabolantes e cortam nutrientes importantes da alimentação. Na contra mão disso, o nutricionista comportamental Ricardo Durante, 26 anos, acredita em uma atuação que titula de mais gentil. Com mais de 60 mil seguidores no Instagram e um recente canal no Youtube, com dicas, lives e bate-papo com seus seguidores e pacientes, ele desmistifica muitos tabus sobre alimentação e aconselha que quanto mais próximo o alimento estiver da natureza, melhor.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Porque acredita que as pessoas estão insatisfeitas com seus corpos? Existe alguma indústria tal qual a da beleza interessadas, comercialmente, na infelicidade das pessoas?

O que move muito dinheiro é a indústria do emagrecimento e da beleza, porque se a amanhã todas as pessoas acordassem amando seus corpos, quantas empresas iriam falir? Hoje em dia existe toda uma indústria que te empurra problemas que não existem, falam que seu corpo é inadequado, que você tem que emagrecer ou criam soluções para seu problema que não são eficazes. Aí, há quem coloque o dedo na cara da pessoa e coloca a culpa nela, dizendo que é só ter “foco, força e fé” para ficar mais magra. Sendo que já tem estudos mostrando que cerca de 95% das pessoas que fazem dietas ressentidas, acabam regredindo e ganhando peso em menos de cinco anos.

Pacientes chegam até você se queixando da falta de resultados com dietas? Dietas funcionam?

Tem pessoas que chegam e falam pra mim que já fizeram todo tipo de dieta. Só que a verdadeira questão não é que a pessoa não consegue fazer, é que este método para ela não funciona. Foi aí que percebi que não posso continuar este tipo de protocolo, porque, apesar de toda análise, ainda não dava autonomia para meu paciente. Parti para a área comportamental que tem essa idéia muito mais ampla, de olhar para uma pessoa não apenas como um amontoado de células, mas para uma pessoa que tem sentimentos, pensamentos e aquela questão do seu corpo perfeito, que não existe.

Quanto mais natural e menos industrializado melhor

Ricardo Durante

Nasceu uma cadeia fitness e do emagrecimento que se fortalece cada vez mais com o passar dos anos. Alguns produtos são bastante caros, o que você costuma orientar aos seus pacientes em relação a este mercado?

Quanto mais natural e menos industrializado melhor. Digo que todos nós podemos comer de tudo, a não ser que a pessoa seja alérgica a lactose ou outra substância na composição do produto, por exemplo. Tem quem queira substituir óleo de coco em tudo, acho caro e o gosto não é bom. Pode usar gordura vegetal ou de porco, tudo bem se for moderadamente. Freqüentar feiras e comprar mais produtos orgânicos também é uma alternativa interessante, o que não dá é comprar pacotinhos caríssimos e não conseguir manter a alimentação. Comer bem é um ato político, mas só se tivermos como manter a alimentação nutritiva, saudável e acessível – se não ela é exclusiva.

O que leva as pessoas a te procurarem? Acredita que mulheres se incomodam mais com isso do que os homens?

Busco os porquês e de onde vem o desejo de mudança, alguns vem por mais cobrança de pai e mãe. Principalmente as mulheres, homens também sofrem com a pressão estética, mas é muito mais recorrente as mulheres. Mulheres nascem e logo são doutrinadas a quererem perfeição em tudo, inclusive com o corpo. Com isso, nós trazemos junto o acompanhamento de um psicólogo também. Às vezes a pessoa é tão massacrada por questões externas a do próprio corpo que nem sabe o porquê de querer aquilo.

Algumas pessoas desenvolvem transtornos alimentares e outros tipos de compulsão por conta da pressão que sofrem. Em que nível isso é danoso? Como é feito este tipo de acompanhamento?

Rodinei Crescêncio

Ricardo Durante

Ricardo Durante em entrevista ao Rdnews em seu consultório

Em relação ao transtorno alimentar, é fundamental ter um acompanhamento de profissionais como psicólogos e psiquiatras, para a pessoa conseguir trabalhar essas questões. Descobrir de onde elas vêm ao invés de fomentá-las cada vez mais. Aos pouquinhos a pessoa vai diminuindo essa cobrança de ter que emagrecer o tempo todo, o que é bem oneroso, mas ela percebe que o problema não é na comida – mas em outras coisas que motivam diferentes compulsões. Já tive uma paciente que disse que chegou em casa e comeu toda a comida da geladeira, quando a comida acabou, não satisfeita, ela comeu toda a comida que estava no lixo...

O que as pessoas querem suprir com a compulsão e o que usam, além da comida, para fugir (além de dietas mirabolantes) das conseqüências e não engordar?

As pessoas tentam tampar aquele vazio emocional com comida. É frequente usarem o cigarro, por exemplo, como aliado para o emagrecimento. Nesses casos elas dizem que não querem deixar de fumar porque se pararem de fumar, acabam engordando. Isso é porque elas lançam a compulsão em outro vício, o que também é prejudicial a saúde, mas comem menos porque, teoricamente, o cigarro corta a fome.

Hoje o padrão de beleza é distante de alguém gordo. Em algum momento da história isso foi diferente?

Se a gente for pegar a história, quem era uma Gisele Bundtchen era representada por uma estatueta chamada Vênus de Willendorf, com seios avantajados e mais gorda, porque ela era bonita? Porque ela era única, tinha-se mais dificuldade com a fartura de alimentos, pois era preciso caçar. Hoje isso inverteu, as pessoas estão mais sedentárias e tem muita abundância.

Como viver em paz apesar desse bombardeio para atingir a auto-estima?

Não somos perfeitos, somos seres vulneráveis e não conseguimos essa perfeição em todos os pilares da nossa vida. Seja no trabalho, no corpo ou com filhos. Temos que procurar sermos o melhor que a gente pode, mas de uma forma mais tranquila e pra equilibrar da forma que a gente pode.

As formas do corpo não simbolizam diretamente como a saúde de alguém pode estar, apesar de elogiarem alguns padrões físicos. O que acha sobre isso?

As pessoas deveriam parar de tratar o corpo como domínio público, as pessoas acham que porque alguém existe que eu posso tecer qualquer tipo de comentário. O correto seria falar sobre outras coisas e comentar como a pessoa esta internamente. Pergunta se ela está feliz ou não, e para de ficar falando sobre o corpo porque isso é muito danoso pro ponto de vista psicológico.

Veja trecho da entrevista com Ricardo Durante

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