ENTREVISTA ESPECIAL

Sábado, 09 de Janeiro de 2021, 10h:12 | Atualizado: 09/01/2021, 10h:20

Filha de lavradores que queria ser top model chega a presidente da Câmara

Mariana raio x

Nasceu no Hospital Municipal de Alto Araguaia (a 422 km de Cuiabá), em 1987, Odinéia Mariana de Souza, mais chamada somente de Mariana. Bem na divisa entre Mato Grosso e Goiás. Aos 5 anos, mudou-se com os pais, lavradores, para um assentamento, na zona rural da cidade, onde a família conseguiu um lote, para plantar arroz, mandioca, criar vacas, mexer com peixe, no rio Araguaia. Cresceu na roça, recebendo uma educação rigorosa e também carinhosa.

De cara amei a política, me apaixonei pela movimentação por votos e descobri o que nem eu mesma sabia

Magra, alta e bonita, tinha um sonho: ser modelo. Fez um book por conta própria, presente de aniversário de 14 anos, e sempre desfilava, em eventos na região. Uma vez ficou em segundo lugar em um concurso de miss e foi quando teve a oportunidade de fazer um curso profissionalizante em Goiânia. A mãe vendeu muito peixe para pagar o tal curso. Atrás do sonho, mudou-se para lá, morou na casa de uma senhora, com quem dividia despesas, mas, à medida que o tempo passava, desiludiu com o projeto. Ainda mais que o pai, muito conservador, ficava chateado, principalmente com as fotos de biquíni, não gostava que a filha mostrasse o corpo. Dentro dela, havia sempre aquele conflito de querer ser modelo mas ao mesm tempo dar orgulho ao pai, que acabou morrendo, precocemente, em um acidente de moto.

De volta ao Araguaia, ainda adolescente, aos 17 anos, resolveu então tocar a vida e deixar o sonho de ser modelo para lá. Estudou, até se formar em Recursos Humanos, trabalhou por muitos anos em uma loja de móveis e eletrodomésticos, onde conheceu muita gente, através das vendas.

Em 2016, foi apresentada à sua verdadeira paixão: a política. E assim se deparou com idosos, famílias, adolescentes e crianças em total vulnerabilidade. Descobriu então que a fome não é só uma foto de revista e sim uma triste realidade. Candidatou-se vereadora, pelo PSB, e ganhou, foi a quarta mais votada.

Entre a vida de modelo e a política, teve dois filhos, Victor Gabriel, de 12 anos, de um primeiro relacionamento, e Alice, 2, do atual marido. Afirma que consegue conciliar as funções de esposa, mãe e vereadora. Além disso, acaba de ser escolhida também presidente da Câmara Municipal, que tem 11 cadeiras.

Câmara de Alto Araguaia

vereadora mariana

Considera-se “roceira” com muito orgulho e acredita que a mulher pode e deve estar em todos os lugares, com garra e habilidade para fazer mil coisas ao mesmo tempo. “Sabe se virar nos 30”.

O se interessou pela trajetória de Mariana, que conta, nesta entrevista, como saiu da roça, virou modelo e, mudando de rota, agora assume a presidência da Câmara.

Você nasceu na roça?

Não, na cidade, mas já aos 5 anos fomos para o Assentamento Lebre, em Goiás,  a 142 km de Alto Araguaia. Meu pai conseguiu um lote lá. Meu irmão mais velho faleceu recém-nascido. Mas tenho ainda um outro irmão, o Fabrício, de 32 anos, que é comerciante, toca uma loja de areia e brita. Mudamos os quatro para Lebre, meu pai, minha mãe, eu e o Fabrício pequenos.

vereadora mariana

Arquivo Pessoal

vereadora mariana

Seus pais são lavradores?

Sim. Agricultura de subsistência: arroz, mandioca, criar vaca, galinha, pescado. Eles me ensinaram muito do que sei, tenho orgulho deles. Meu pai já faleceu há 16 anos, dia 5 de novembro de 2005, foi um acidente de moto. Ele estava indo da cidade para o sítio, parece que dormiu, teve sono, à noite, se desequilibrou e caiu da ponte de madeira. Mas minha mãe é viva, uma guerreira, uma benção na minha vida.

Na adolescência, você tentou vida de modelo?

Sim, tinha esse sonho, sempre participava de eventos, desfilava, e, aos 14 anos, mudei para Goiânia, para fazer um curso, que minha mãe pagou para mim vendendo muito peixe. Ela é maravilhosa, só me incentiva. Cheguei a trabalhar de professora de passarela e fiz capa de revista, mas meu pai, lavrador sistemático, ficava muito triste, principalmente pelas fotos de biquíni, não gostava que eu mostrasse o corpo. Fui passar um final de ano em casa e ele pediu para eu não fazer mais isso. Já tinha percebido que ser modelo, na verdade, não era muito meu perfil, e eu era apaixonada pelo meu pai, sendo assim não voltei em Goiânia nem para pegar minhas coisas, desisti.

Reprodução

MARIANA

Sofreu algum assédio na vida de modelo?

Não, era muito nova, mas não. Em Goiânia, fui morar na casa de uma senhora que conheci no hotel, onde fiquei provisoriamente.  Ajudava na despesa de água, luz e comida. Fazia desfiles, eventos, que não tinham hora para acabar. Muitas vezes ficava a noite toda trabalhando para ganhar R$ 40 reais de cachê e ainda tinha que dar parte à agencia. Pensei: não quero isso para mim não. Ainda mais com meu pai achando feio eu mostrar meu corpo. Somos de família católica. Por isso, voltei, sem me sentir contrariada.

E você continuou os estudos?

Não parei, nem para ser modelo. Concluí o Ensino Médio e aos 18 anos comecei a trabalhar em uma loja como vendedora de móveis, que antes se chamava Estrela e agora é a EletroKasa. Era boa vendedora, conheci muita gente através das vendas. Depois formei, em Recursos Humanos, na Unopar, uma das instituições de ensino superior que tem na cidade.

Arquivo Pessoal

vereadora mariana

Quando você casou?

Primeiro conheci o pai do meu filho, que hoje tem 12 anos, o victor Gabriel, ele é fruto de um relacionamento de 8 anos, que terminou, mas mantivemos a amizade. Há 7 anos, conheci meu marido, com quem tenho uma filha de 2 anos, a Alice. Moramos nós quatro, eu, ele e meus dois filhos, no bairro Gabiroba.

E quando você entrou na política?

Fui convidada, em 2016, pelo atual prefeito Gustavo Melo Anisézio (PSB), para ser secretária de campanha dele, ele é amigo do meu ex-marido e meu amigo também. Topei na hora. De cara amei a política, me apaixonei pela movimentação por votos e descobri o que nem eu mesma sabia. Ele venceu, tomou posse dia 1 e dia 2 me ligou oferecendo um cargo na Secretaria de Assistência Social, foi quando percebi a importância de políticas públicas para famílias carentes, idosos, crianças e adolescentes. Trabalhei muito. Sou dessas que vai à casa das pessoas, tomo café, almoço, participo de churrasco, aniversário.

mariana

E na política, já sofreu assédio?

Não, sempre tento impor meu jeito. Principalmente quando a gente mora na roça, a educação é rigorosa,  a gente cresce sabendo que tem que saber se comportar em diversas situações.

Você acredita que a mulher é boa de política?

Sim, a mulher para mim tem que ter voz ativa na política e em todo lugar, os mesmos direitos que os homens.

Mas muitas não conseguem.

Sim, mas é porque não têm ajuda.

E você tem?

Eu tenho, minha sogra cuida dos meus filhos, meu esposo é muito bom para mim, não tem tem ciúmes e nem acha que eu tenho que ficar dentro de casa, Deus me deu essa benção. Sendo assim, nunca me assediaram, todos sabem que sou casada, nunca tive nenhum tipo de problema com isso.

Qual maior desafio você acredita que vai enfrentar como vereadora?

O desemprego. Estamos aguardando a chegada de uma empresa de celulose, que está em fase de documentação, através de uma negociação da prefeitura com o Estado. Será instalada perto da cidade. Precisamos qualificar o pessoal, dar cursos profissionalizantes, com ajuda das instituições de ensino locais, Unemat, Senai, Unopar e Unip.

Alto Araguaia já esteve melhor economicamente?

Sim, na época da ferrovia forte aqui. Hoje em dia centralizou tudo em Rondonópolis.

Rondonópolis é a cidade de referência na região?

Sim, inclusive foi para lá que foram encaminhados pacientes com Covid-19, porque aqui não tem UTI. Morreram 7 em Alto Araguaia, mas a população está ajudando bastante, usando máscara e álcool gel. Eu mesma, em campanha eleitoral, conversava do portão com os eleitores, levava minha água, mas mesmo assim a situação é preocupante, claro.

Da vida de modelo à política, você deu uma guinada, não é?

Sim, fiz uma curva muito diferente. Meu desejo agora é incentivar outras mulheres a entrar na política também, que tenham os mesmo direitos que os homens.

Você é feminista?

Não, sou muito tranquila, mas acredito que devemos ter o mesmo espaço.

O que a mulher tem para contribuir na gestão pública?

Garra, é persistente e sabe se virar nos 30. Muitas de nós somos mães, esposas, donas de casa, trabalhamos fora e podemos sim estar na política também. Tudo está sendo novo para mim, tenho muito que aprender, mas quero fazer o que é certo.

Por viver na divisa, você tem sotaque de Mato Grosso ou Goiás?

Bem de Mato Grosso mesmo e sou roceira, com muito orgulho.

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Comentários (4)

  • GIL | Segunda-Feira, 11 de Janeiro de 2021, 11h22
    1
    0

    Parabéns Mariana, sucesso. Sei que você saiu para concorrer frente a frente com os demais concorrentes, não entrou na disputa somente para completar vagas dos 30% de mulheres, que é uma lei descabida, sem nenhum fundaento.

  • Regin de Oliveira campos | Domingo, 10 de Janeiro de 2021, 17h07
    6
    0

    Parabéns Vereadora pres. Câmara PSB se orgulha de vc

  • Gutemberg Abreu | Sábado, 09 de Janeiro de 2021, 20h57
    14
    0

    Parabena Mariana! A mulher deve buscar o seu espaço e lutar pela melhoria das políticas públicas. Sucesso nessa nova etapa! seja coerente com os seus princípios.

  • Gutemberg Abreu | Sábado, 09 de Janeiro de 2021, 20h56
    9
    0

    Parabena Mariana! A mulher deve buscar o seu espaço e lutar pela melhoria das políticas públicas. Sucesso nessa nova etapa! seja coerente com os seus princípios.

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