ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 15 de Março de 2018, 09h:38 | Atualizado: 15/03/2018, 17h:39

Há pessoas que não nos enxergam como artistas, mas como vândalos, diz grafiteiro

(mirella@rdnews.com.br)

Royanyson Lopes

Artista pl�stico, tatuador e grafiteiro cuiabano, Jean Siqueira

Artista plástico, tatuador e grafiteiro cuiabano, Jean Siqueira, com a assinatura Siq, tem 35 anos e, apesar de jovem, já foi covidado para viajar o mundo, mostrando o seu trabalho em lugares como Itália (Milão e Zurique) e outros países. Há dois anos, firmou morada na Capital e toca o estúdio Tattoo Galery, no centro. Além de explicar um pouco sobre as intervenções pelos muros da cidade, ele contou à reportagem do um pouco sobre a sua história, falou sobre política e a burocratização da arte em Mato Grosso, tabus e preconceitos que permeiam estes assuntos. Confira os principais trechos da entrevista.

Você é grafiteiro, pintor de telas, desenhista e tatuador. Como foi sua identificação em cada uma destas modalidades artísticas? Como e quando se "descobriu" no mundo da arte?

Desde criança eu desenhava, uns oito anos, desde muito moleque já rabiscava desenhos diferentes e tinha uma família de artistas. Tinha um tio que modelava bonequinhos de durepox e outro que fazia dobraduras. Eu olhava os desenhos e replicava, só no olho, muito parecido. Os adultos elogiavam, mas eu não fazia ideia do que era ou não desenhar bem. Me lembro que uma tia minha me incentivava muito e, as vezes, me levava para acompanhar ela no trabalho. Lá me dava lápis e papel para desenhar e as pessoas ficavam impressionadas com os resultados no papel. Me lembro dessas ligações e dos apoio que tive, apesar de nenhum parente seguir profissão, me lembro que, além de todas essas pessoas da família, essa minha tia foi a que mais me apoiou.

Gilberto Leite

Artista pl�stico, tatuador e grafiteiro cuiabano, Jean Siqueira

Artista plástico, tatuador e grafiteiro cuiabano, Jean Siqueira fala sobre o seu trabalho

Você já participou de festival de grafite internacional e trabalhou em estúdios fora do país. Como foram estas experiências?

Sobre o festival de grafite, acabou não rolando, mas sobre as outras viagens foi tudo através de indicações para outros países, uma coisa foi levando a outra. Lembro que o Willian Ferramosca, um cara bem conhecido no ramo em São Paulo me conseguiu um trabalho em um estúdio que ele já havia ido tatuar na Europa. Fui para este em Milão, passei um tempo lá e, em seguida, foram surgindo oportunidades para trabalhar e, assim, também fui covidado para trabalhar em um stúdio na Suíça por meio de um amigo meu que mostrou meu portólio ao dono deste stúdio e ele gostou. Desde então, firmei estes contatos e, todo ano, quando tenho oportunidade, vou para lá. A primeira vez foi em 2015 e fiquei entre idas e voltas até 2016. Lá, as cidades são próximas e sempre têm convenções nos arredores, apesar das cidades serem pequenas, vai gente do mundo todo. A experiência é muito grande, tanto de outros profissionais como em técnicas e até mesmo no material para o trabalho. 

Como é ser tatuador na cidade? Acredita que ainda há preconceito com a profissão e com decide se tatuar? Como isso ocorre?

Pichar muros me levou ao grafite

Hoje ainda tem preconceito, mas é bem mais tranquilo do que há alguns anos atrás. Hoje existe muita gente tatuada em filme ou novela. Acredito que, com essa exibição, as pessoas estão aceitando mais. A tatuagem, até pouco tempo, era algo tratado como coisa de bandido, periferia, mas o fato de ter gente tatuada em novelas, tipo na malhação, cantores ou jogadores de futebol me parece que andam achando algo mais comum e marginalizam menos o estilo. É muito recente até esta distinção de estilo, agora que estão aderindo e tatuando um black work, o realismo, porque antes era tudo tratado apenas como "tatuagem". Eu acredito que o conhecimento é maior, mas não posso negar que ainda há quem olhe gente tatuada e segura a bolsa ou atravessa a rua, sempre tem. 

 Qual a diferença entre o grafite e a pichação?

Para mim, particularmente, pichar muros me levou ao grafite. Talvez, se eu não tivesse pichado alguns muros, não teria feito um dia o grafite. Acho que, em muitos casos, uma coisa leva a outra. O piche não é aceito por conta da estética e também por ser diretamente associado ao protesto, mas a ideia do pixo é exatamente essa, chocar a sociedade, apesar deste conceito há também a caligrafia, a letra desenvolvida. Hoje em dia, o pixo é conhecido e reconhecido no mundo inteiro, acontece até exposição de pixo fora do Brasil. Os estrangeiros andam convidando brasileiros para irem expor para lá, pois admiram a grafia dos caras. Então, para mim, grafite e piche, no final das contas, acaba sendo a mesma coisa. Só que um não é aceito por conta de estética e a outro é mais aceito por ser bonito, desenhado e, as vezes, colorido. Se considerarmos que a arte, na verdade, é uma forma de expressão e se alguém através do pixo está expressando uma ideia na minha opinião não deixa de ser arte. 

 Ainda sobre o grafite, como tem funcionado essas intervenções, como a prefeitura interage com os grafites e grafiteiros? Há algum incentivo? Como a população assimila?

Sou preto, tenho tattoo, tenho dread e isso é quase um pacote completo pra sofrer preconceito

Não há apoio algum. No caso da trincheira do Santa Rosa em 2015, por exemplo, houve prisão de alguns grafiteiros e até saiu na mídia. Fizemos uma ação após essas prisões e várias pessoas se mobilizaram, entre advogados famosos, políticos e artistas antigos. Não prenderam ninguém na mobilização, apesar da polícia ter aparecido, nos deixaram colorir a trincheira desta vez. Segundo algumas infomações na época, foi a própria população que ligou para a polícia e pediu a prisão dos artistas. Fora este caso, tiveram vezes que, grafintando em Chapada em um lugar abandonado, fui abordado pela polícia. Dessa vez dialoguei tranquilamente com os policiais e expliquei que naquele caso era até um grafite parte de uma ação do Festival de Inverno, mas eles contra-argumentaram que a população ligou reclamando e que, para finalizar o grafite, eu teria que ir até a delegacia, explicar e depois voltar para terminar. Por isso, acredito que existe, além de falta de incentivo do governo, a compreensão da população neste tipo de intervenção. Existem pessoas que não nos enxergam como artistas, mas como vandalos, marginais e basta ler os comentários que repercutem nas redes sociais. Fora isso, mas ainda sobre incentivos, temos há algum tempo o Salão Jovem Arte promovido pela secretaria de Estado de Cultura e Associação das Artes, Comunicação e Cultura de Mato Grosso, por exemplo, que de jovem não há coisa alguma, pois ali só ganham artistas de longa data e o que parece é que tratam os jovens como se eles não tivessem capacidade de entrar em um salão de arte destes. Eu mesmo já tentei participar do Salão Jovem Arte duas vezes e não fui selecionado. Quem entra sempre é a galera mais velha. São raros os artistas jovens inclusos em ações dipostas pelo governo, o único, que até então vi entrar relacionado ao grafite, neste exemplo, e que tem um trabalho firmeza é o Baboo, e, em outras ações, o Rafael Jonnier, mas, em geral, me parece que para ser considerado artista por aqui não basta ter talento, tem que ter contatos. Acho que é uma panela doida que rola ali, talvez a curadoria, mas muitos jovens ficarem de fora é algo que desestimula quem já tentou muitas vezes e não consegue se inserir de jeito nenhum neste meio. 

 Você é um tatuador negro, usa dread e tem várias tatuagens, sofre preconceito ou já sofreu por conta destas características? De que forma? Quais adjetivos já recebeu?

Gilberto Leite

Artista pl�stico, tatuador e grafiteiro cuiabano, Jean Siqueira

Artista Jean Siqueira lembra ter sofrido muito preconceito racial na escola, durante infância

Sou preto, tenho tattoo, tenho dread e isso é quase um pacote completo pra sofrer preconceito (risos). Desde moleque eu soube lidar com essa parada, sabe? Fui criado no meio de uma família negra, minha avó negra, todo mundo negro. Eu me lembro que no colégio quando todo mundo me xingava e eu chegava em casa triste, minha avó falava assim: quando as pessoas te distratarem e xingarem [de preto, neguinho, macaco] a primeira vez finge que não é com você, a segunda você mete a porrada. Me lembro que rolou várias brigas no colégio por conta de racismo, mas, com o tempo, outros alunos também passaram a me defender, depois os professores e, ao me impor, a galera passou a me respeitar. Eu sou preto e sempre tive o cabelo grande desde criança, alguns me chamavam de Michael Jackson querendo me ofender, mal sabiam eles que eu achava o Michael massa. 

Como funciona o stúdio? 

O stúdio Tattoo Galery já tem dois anos e, desde sempre, seja quando comecei a tatuar ou quando comecei a viajar, tive a ideia de abrir um stúdio que não só abrigasse vários tatuadores. Algo que fosse além de tatuadores residentes, assim, traria tatuadores de fora e mandaria tatuadores daqui para fora também. A ideia é essa coletiva e de reunir uma galera que realmente gosta de arte, que gosta de tatuagem, que desenha e que a preocupação principal seja promover isso. Temos aprendizes dentro desta proposta, além deles, queremos proporcionar uma troca entre os profissionais que passam por aqui e que com essa troca exista um acréscimo de conhecimento para cada um e para o stúdio. Sobre os aprendizes, nós vamos garimpando a galera que quer aprender e vamos ensinando, cinco aprendizes nossos, hoje, estão tatuando profissionalmente na cidade. Cerca de três vezes ao ano promovemos flash day com desenhos autorais e com preços mais acessíveis para a população, estamos montando eventos diferentes, às vezes com música, arte e grafite para promover o stúdio e melhorar a visibilidade do universo da tatuagem com a galera. O maior intuito do Tatto Galery é que todos os tatuadores evoluam juntos sem nunca ninguém ser melhor que ninguém. Atualmente, trabalham, além de mim (Jean Siqueira), Lagarto, Neto, Samuel Figueiredo e Gabryelle Guedes. 

A arte de rua é para todos, o grafite quebra a formalidade, desburocratiza e faz com que a arte não seja apenas para os privilegiados e alta sociedade

No que você acredita contribuir socialmente e para a população com suas intervenções?

Pra mim é o lance de externar o que eu sinto, a arte é o que eu quero botar para fora de mim e que sempre tem um fundo de protesto e as pessoas que vão passar na rua serão atingidas com aquela mensagem. Imagino que um dia elas passem na rua e não tenha nada, mas no outro dia tem um desenho bonito. É como uma mensagem, vai interferir na rotina da pessoa e aquilo de alguma forma pode ser algo positivo para o dia dela. Acrescentando o fato de que é como um museu a céu aberto, uma pessoa que não tem acesso ao museu ou grandes galerias, porque Cuiabá é bem carente de museus e, por muitas vezes, muita gente também não tem tempo para essa visitação, seja porque tem uma rotina puxada pra trabalhar, estudar, cuidar do filho ou algo assim e da janela do busão pode ver muita coisa. A arte de rua é para todos, o grafite quebra a formalidade, desburocratiza e faz com que a arte não seja apenas para os privilegiados e alta sociedade. 

Qual conselho daria para quem deseja seguir profissão, assim como você, nessas modalidades?

Acho que a informação está em todos os lugares, na internet é possível encontrar muita coisa e aprender. Para quem gosta e quer de verdade, acredita no seu talento, eu acredito que precisa estudar todas essas técnicas e entrar fundo de cabeça e, assim, vai conseguir atingir o nível do que quer. Seja com o grafite, com a tatuagem ou outro tipo de arte.  

E para quem deseja tatuar e teme represália? 

Eu acredito que as pessoas podem sofrer represália com ou sem tatuagem, pois quem quer apontar algo em você para te criticar vai procurar algo até encontrar. Se você gosta e quer fazer, pode enfrentar isso sem medo, quando souber o que quer e estiver decidido irá fazer sem se arrepender.

Arquivo pessoal

jean_grafite

 Artista Jean Siqueira participa de ato em trincheira construída para a Copa. Ao Rdnews, ele relata que alguns ainda não entendem a arte do grafite e pixo

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Comentários (7)

  • Antonio | Sexta-Feira, 16 de Março de 2018, 21h44
    0
    0

    Antonio , Há expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas. Queira, por gentileza, refazer o seu comentário

  • Rick | Sexta-Feira, 16 de Março de 2018, 14h15
    0
    0

    Rick, Há expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas. Queira, por gentileza, refazer o seu comentário

  • Luis Carlos | Sexta-Feira, 16 de Março de 2018, 01h19
    2
    3

    Não foi esse um que foi preso esses dias por ter atirado em um cara?

  • Fernanda Marques | Quinta-Feira, 15 de Março de 2018, 16h11
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    1

    Ótima entrevista. A arte de rua já compõe nosso espaço urbano há algum tempo, e ainda é triste saber que artistas nacionais são mais reconhecidos internacionalmente que no Brasil. Parabéns ao Jean Siqueira e toda equipe Tatto Gallery por trazer à Cuiabá um novo conceito em relação à tatuagem. É noiz!

  • Ângelo Mendes | Quinta-Feira, 15 de Março de 2018, 13h32
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    1

    Jean Siqueira cidadão do bem trabalhador honesto Deus deu o dom da arte e que ele leva para os quatro cantos do mundo.Parabéns meu brother quem te conhece sabe de suas oringens e de sua história. Abraços do amigo amarelo Ângelo Mendes ✌

  • JEFERSON MATOS | Quinta-Feira, 15 de Março de 2018, 11h45
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    Mas são vândalos mesmo. Quer expor a sua "arte" ? Exponha numa galeria. Não suje mais ainda nossa cidade.

  • claudir | Quinta-Feira, 15 de Março de 2018, 11h20
    3
    13

    Pior é que são vândalos mesmos, andam pichando tudo o que veem, querem pichar ? Ótimo... constroem muros e picham, não emporcalhem paredes e muros dos outros e principalmente os públicos... é um bando de vagal, vão trabalhar, não sou contra as pichações, mas naquilo que é deles não nos imóveis de outrem, ou será que não temos o direito de ter o que queremos com nosso dinheiro ? Vem esses malas aí cagarem em nossos imóveis e poluírem a cidade... Vão lá no meio da mata e picham oque quiserem sem danos a ninguém... fácil de resolver.

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