ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 19 de Setembro de 2019, 13h:54 | Atualizado: 20/09/2019, 09h:31

Criada no MST, De se descobriu trans aos 12 anos e hoje teme retrocesso no país

De Silva, diferente de muitas outras pessoas trans, contou com o apoio da família ao se descobrir diferente

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

De Silva

 

Desde muito cedo não se sentia pertencida a um corpo masculino e, por isso, iniciou a transição aos 12 anos de idade. Na escola e ensino fundamental já percebia olhares diferentes, mas teve o apoio da família para seguir descobrindo "quem era", uma mulher transexual. Apesar de nunca ter feito procedimentos cirúrgicos para mudança de sexo, tomado hormônios ou mudado seu nome nos documentos, acredita que ter vivido boa parte de sua vida em um acampamento do MST junto aos seus familiares a ajudou, junto aos seus, compreender questões da diversidade. Em entrevista, ela fala sobre o massacre aos LGBTI's em Mato Grosso e violência de gênero contra as mulheres. Acredita que após a eleição do presidente Jair Bolsonaro, as coisas tendem a regredir muito em relação aos direitos das minorias.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Quando iniciou sua transição? Você sempre soube que era uma mulher nascida em um corpo masculino?

Sim, sempre soube. A transição eu iniciei aos 12 anos, minha mãe também sempre soube e eu não tive o trabalho de chegar e falar que sou trans ou travesti ou em um corpo que não é meu. Meu apelido já era Dê, o mesmo nome que me chamam hoje. Como eu sempre tive trejeitos, eles sabiam também. Quando falo de transição, é deixar de vestir roupas de menino.

Você já fez alguma cirurgia de redesignação sexual ou tomou hormônios?

Gostaria de fazer a mudança, mas também nunca a fiz e nem usei hormônios. O nome também não mudei porque envolve muita burocracia. No Brasil são dois anos de tratamento e acompanhamento psicológico para esses processos, agora que não vai mesmo ser possível, pois no governo Bolsonaro foi cortado até os tratamentos de hormonioterapia. Os tratamentos eram feitos em Goiânia, Paraná e São Paulo pelo SUS, não serão mais.

Arquivo Pessoal

De Silva

De Silva, com 12 anos, passou a usar roupas ditas femininas; até hoje não fez tratamento hormonal, mas sonha com uma cirurgia de redesignação

Quando era criança ou adolescente passou por situações de preconceito?

Eu morava na zona rural quando nasci. Quando você é criança as coisas não têm tantas explicações e você vai passando por cima dos processos como se fosse um trator. Quando eu tinha seis anos de idade, minha família foi para um acampamento do MST, que na época se chamava Antonio Tavares, que foi em homenagem a um dos assassinados dos Carajás, agora se chama Mártires de Carajás e fica no município de Poxoréu. E a minha família pode passar por vários processos de formação políticos muito libertadores. Desde então, o preconceito não era um fato que não existia, até porque a falta de capacidade de entender o outro é um problema social. Não é porque vivíamos em um acampamento que não ocorria problemas de homofobia e preconceito, e claro que hoje existem muitos debates a cerca disso, e o MST é dos pioneiros a trazer esse debate de diversidade para outros movimentos e isso me ajudou de certa forma.

Como foi o início da sua transição? Acredita que as pessoas tem dificuldade de entender o que é a transexualidade?

Até para eu entender quem eu era, fui aos poucos trocando as roupas, colocando um short e uma maquiagem. Acho que as pessoas não têm dificuldade de entender, mas foi introjetado ao longo da história do Brasil, com essa onda patriarcal, que reforça essa binaridade de que homem nascido em um corpo de homem tem que ser homem, e mulher nascida em um corpo de mulher, tem que ser mulher. A idéia de que o que é diferente tem que ser banido da sociedade, a dificuldade é de aceitar o diferente. Mato Grosso tem assumido o topo do assassinato de LGBTIs e mulheres, não é um ódio apenas pelo sujeito, mas pelo gênero. É o ódio ao gênero feminino, e precisamos comprar esse debate e dar essa visibilidade ao sujeito, para que as pessoas entendam que a diversidade existe. No ensino fundamental eu sofri mais, sentia os olhares diferentes. Embora eu morasse no acampamento quando cursei o ensino médio, a prefeitura enviava um ônibus para buscar os adolescentes e eles irem estudar na cidade de Pedra Preta. Me formei em Pedagogia por uma bolsa do Prouni, depois fui para Cuiabá, fiz o Enem e passei para a Engenharia Agrícola e Ambiental, por ser muito voltada para o agronegócio, não é um curso que me dá muita satisfação, mas continuo e penso em fazer o mestrado agora.

Acredita que o momento político no Brasil tem sido difícil para os LGBTIs?

Vivemos em um período de retrocesso muito grande e com um passar de canetas após elegerem o Bolsonaro, eu não imaginava que isso seria tão rápido, é assustador o que estamos perdendo. Precisamos massificar esse debate e resistir.

Arquivo Pessoal

De Silva

De Silva, 29 anos, foi criada em acampamento do MST

Em relação à compreensão e debates sociais, acredita que houve avanço?

A gente estava avançando nas nomenclaturas e, na medida em que se altera as letras das siglas LGBT, não temos conseguido fazer esse debate com a sociedade de forma geral. O movimento LGBT tem pecado nisso. A gente debate, mas não temos conseguido clarear isso para a sociedade, e as pessoas não sabem diferenciar, por exemplo, o que é uma mulher trans de uma travesti. De maneira bem suscinta o que a gente diz é que a travesti está muito mais ligada à sobrevivência, à imposição do mercado de trabalho, à prostituição e não necessariamente quer um processo hormonal ou cirúrgico, até porque ela precisa do órgão genital para trabalhar, e as mulheres trans – que é o meu caso -, querem passar pelo processo de transgenitalização para se completar e se enxergar enquanto pessoa.

Você é uma mulher trans, mas qual sua orientação sexual? Tem dificuldade em se relacionar com as pessoas?

Eu sou uma mulher trans hétero, porque me relaciono com homens, mas isso independente, porque tem mulheres trans que podem ser relacionar com outras mulheres e são, portanto, mulheres trans lésbicas. Já fui casada por quatro anos, mas me separei. Não deu certo o casamento, mas por problemas de casal. No entanto, ainda temos uma boa relação de amizade. Tenho desejo de ser mãe e adotar uma criança, mas, para isso, também preciso dar uma organizada na minha vida.

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Comentários (3)

  • erd | Sábado, 21 de Setembro de 2019, 20h11
    1
    6

    sei que vocês não vão postar o meu comentário, mas, mesmo assim eu vou comentar... nunca ouvi tanta M...junta, retrocesso???nos 16 anos de PT nenhum gays, lésbica não foi morto, morta sei lá...que matériazinha mais cheia de vitimismo e pra piorar sensacionalista... #LulaContinuaPresoBabacas

  • JÃO DO PORTO | Sexta-Feira, 20 de Setembro de 2019, 10h29
    0
    0

    JÃO DO PORTO, Há expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas. Queira, por gentileza, refazer o seu comentário

  • Juca | Quinta-Feira, 19 de Setembro de 2019, 18h03
    16
    10

    Por favor descreve o que esta comunidade esta perdendo, pois ate agora ouvimos vocês dizerem retrocesso, mas que retrocesso é este. Garantias não foram perdidas, os militares não estão nas ruas como diziam a volta da ditadura, criminalidade tem baixado mas tem gente que parece que a eleição não acabou e ainda ficam com este discurso de "eles contra nós". Chega né, parece que ainda estamos em período eleitoral.

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