ENTREVISTA ESPECIAL

Sábado, 02 de Maio de 2020, 08h:10 | Atualizado: 02/05/2020, 11h:55

Cuiabano em geral gosta de ajudar, diz coordenadora da Pastoral do Migrante

Eliana Vitaliano

Mudar de cidade não é fácil, ainda mais quando essa mudança é uma fuga da miséria e da guerra. É assim para centenas de pessoas que chegam a Cuiabá vindas de outras regiões do Brasil e também de países com conflitos sociais e políticos, como Haiti e Venezuela. Assim como teto e pão, buscam a esperança de serem aceitos. 

Desde sua fundação, em 1980, até hoje, Centro de Pastoral para Migrantes já atendeu mais de 211 mil migrantes que chegaram à capital de Mato Grosso. Mas, não é só uma acolhida temporária, o trabalho vai muito além. O que se busca é inserir o migrante na sociedade local. Em 2012, após 32 anos, a casa teria seu trabalho encerrado, pois os organizadores entenderam que não havia mais necessidade pela baixa demanda. 

Nesse momento, 2012, Cuiabá passou a receber os migrantes haitianos, que saiam de uma guerra civil. Até aquele momento a casa tinha vaga para 50 pessoas e precisou se adaptar para atender mais de 200 por dia. Foi justamente nesse contexto que Eliana Vitaliano assumiu a coordenação da Pastoral do Migrante que é o principal apoio a centenas de pessoas. Saiba ainda como tem sido o atendimento durante a pandemia da Covid-19.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Eliana Vitaliano

Há quanto tempo está envolvida no trabalho de ajuda aos migrantes que chegam a Cuiabá? Por que escolheu ajudar pessoas que vêm de outros estados e países?

Estou a 6 anos coordenando esse trabalho, mas antes disso coordenei a casa de acolhida a mulheres vítimas de violência doméstica, a Casa de Amparo “Celcita Pinheiro”. Desde quando cheguei em Cuiabá, vindo de Ribeirão Preto (SP), com meus 30 e poucos anos, eu nem sonhava com a realidade do imigrante. Nós, minha família e eu, não nos identificávamos enquanto migrantes. Saímos de Ribeirão Preto para cá, com a minha mãe, para tentar uma vida melhor, como tantos da Pastoral onde hoje trabalho. Mas não imaginava tudo que viria a acontecer. Casei-me com um vilabelense, tenho três filhos, dois netos aqui em Cuiabá e durante essa trajetória atuei na convivência com a comunidade da Igreja Católica no bairro Morada do Ouro. Foi assim que conheci o trabalho dos padres scalabrinianos que cuidam do migrante então através dessa congregação. Foi nesse espaço que comecei a entender o que é o fenômeno da migração. Conhecendo sobre os outros, vi a minha história. Lembrei que em Ribeirão Preto tinha muito trabalhador temporário na colheita da cana e a gente se via as queimadas, os efeitos, mas não se dava conta do que vinha atrás disso, que era a exploração do trabalho do migrante até a exaustão. Comecei a ver aqui essas situações através da minha comunidade, com o sacerdote e as irmãs scalabrinianas da Paróquia do Divino Espírito Santo São. São comunidades aqui em Cuiabá que têm uma casa de acolhida ao migrante. Assim, ingressei na Pastoral do Migrante é que é um serviço da Igreja Católica.

Nos últimos anos, Mato Grosso recebeu fluxos migratórios do Haiti e da Venezuela, qual a diferença entre eles? E os principais desafios?

É um sofrimento danado para poder chegar. Eles vêm fugindo, com medo, mas movidos pela esperança

Em 2012 começam a chegar os imigrantes haitianos. Aí era um fluxo intenso que foi  aumentando até 2014, quando Cuiabá foi sub-sede da Copa do Mundo. Isso trouxe muitos imigrantes para cá. A casa, que era um ponto de acolhida e que tinha uma demanda de inserção política mais voltada à erradicação do trabalho escravo, o combate ao tráfico de pessoas, precisou mudar seu serviço para aquilo que o migrante precisava no momento, que era trabalho, moradia e educação. Assim, fomos buscar um dos nossos primeiros parceiros e que está com a gente até hoje, que é Superintendência Regional do Trabalho. Naquele momento nós fizemos um termo de cooperação técnica, com a presença de uma auditora fiscal que hoje já aposentou, mas permanece atuando na casa como voluntária. Foi ela quem fez a mediação trabalhista, capacitação para o trabalho. Teve uma preocupação especial com o haitiano porque ele precisava entender que país é esse, que estado é esse tal Mato Grosso e que tipo de oferta de trabalho nós temos aqui. Mas ele esbarrava na questão da linguagem, que era fundamental e conseguimos aulas de português básico que foram atendidas pela Universidade Federal do Mato Grosso que ofereceu os cursos. Além do imigrante haitiano, também vinham pessoas da Argentina, Bolívia e Cuba, por exemplo, mas era uma população ainda reduzida. Só de haitianos já atendemos 5 mil desde 2012. E aí logo em seguida o que se destaca também os imigrantes de nacionalidade venezuelana por conta da crise econômica e política do seu país. Só em 2019 foram mais 850 venezuelanos atendidos. Muitas famílias inteiras migraram, teve casos de pessoas que vieram de Boa Vista para cá em uma bicicleta. É um sofrimento danado para poder chegar. Eles vêm fugindo, com medo, mas movidos pela esperança.

Apesar de ser considerado um país acolhedor, o Brasil tem problemas sérios com racismo e xenofobia, como é realizar um trabalho solidário neste ambiente? Sente preconceito em relação a quem vem de fora?

O cuiabano, de modo geral é muito solidário, gosta muito de ajudar

A gente sabe que o racismo e a xenofobia são problemas sérios no Brasil e aqui em Mato Grosso não é diferente. Muitos migrantes são rechaçados e ouvem críticas que estariam tirando empregos de quem é daqui. Mas o que os mato-grossenses precisam lembrar é que a maioria da população é formada por gente que migrou de outros estados e países. A maioria ainda é muito solidária e isso permite vencer o racismo e a xenofobia e ajudar quem precisa.

Você acha que a população de Mato Grosso é solidária ou vive a onda do momento (período de comoção) e depois esquece?

Aqui em Cuiabá a presença dos imigrantes haitianos, e se vê até hoje, recebeu muita atenção. Teve muito carisma da população de Mato Grosso e a gente percebe o acolhimento. O cuiabano, de modo geral é muito solidário, gosta muito de ajudar. Entre as Pastorais, Cuiabá é uma das três casas que existem no Brasil para esse tipo de atendimento, as demais são em Manaus (AM) e São Paulo. Quando um empresário visita a casa e quer ser empregador, nós explicamos a ele que não é só um funcionário que terá, ele leva toda uma causa junto. Porque além daquela pessoa, está indo toda uma família que muitas vezes depende dele. É um trabalho muito solidário mesmo e isso persiste, pelo menos a gente tem visto no caso da migração de haitianos e agora com a população venezuelana.

Eliana Vitaliano

Como vê as diferenças culturais dessas populações, principalmente haitiana e venezuelana, na adaptação e inserção em nossa sociedade? 

Tem muita diferença entre as culturas, principalmente se fala de expectativa e perspectiva de trabalho, pois o desejo deles é trazer a família de lá para cá. Então tudo é pensado em torno disso. Tentamos oferecer oficinas, como a sobre Cidadania, que acontece toda quinta, e oferece um pouquinho de conhecimento do espaço novo onde estão vivendo. Os maiores desafios, no caso de quem veio do Haiti é a dificuldade de aprender o português. Apesar de que o haitiano fala diversas línguas: o crioulo, que a é língua deles, na escola aprendem o francês, pela proximidade da República Dominicana, falam espanhol e muitas tem parentes ou amigos nos Estados Unidos e aí aprendem inglês. Mas o português não é uma língua muito fácil de aprender, mas na Pastoral temos quatro professores voluntários que estão ajudando muito. Já o venezuelano tem mais facilidade porque espanhol até é um pouco mais semelhante à nossa língua. Mas todos precisam de trabalho. E para entender como funcionam as relações de trabalho no Brasil e a em nossa cultura eles participam de oficinas. Muitos deles não entendem a linguagem informal e não verbal, as brincadeiras no ambiente de trabalho. São capacitados nesse sentido e em saber assuntos importantes como os direitos e deveres, a questão da violência doméstica, empreendedorismo, entre outros.

Em tempos de pandemia, o que tem sido feito em relação aos imigrantes, especialmente os que estão no grupo de risco. Há apoio?

Tivemos muitas pessoas que além de um teto, buscavam a casa porque precisavam de ajuda. Mesmo aqueles que já atendemos. Porque sabem que não tentamos ajudar só os de dentro, principalmente na questão de alimentação. A gente busca socorrer as famílias que estão fora da casa e que tem suas necessidades. Às vezes, tem até 10 pessoas vivendo com um salário mínimo o que não dá para a sobrevivência. Entre si eles são muito solidários e dividem as coisas. Estamos todos juntos, ainda mais nesse período.

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Comentários (4)

  • Crítico | Domingo, 03 de Maio de 2020, 22h23
    3
    0

    CUIABANO POVO ACOLHEDOR, SIMPÁTICO, ABENÇOADO POR DEUS.

  • Olga Lustosa | Domingo, 03 de Maio de 2020, 20h45
    2
    2

    O Centro de Pastoral para Migrantes faz um trabalho espetacular, que ganha muito com a presença firme, incansável e extremamente solidária da Eliana, um ser humano que exala bondade. Eu, há anos, sou admiradora das ações desenvolvidas na casa.

  • Edelson | Domingo, 03 de Maio de 2020, 06h53
    4
    2

    Parabéns aos cuiabanos e ao Centro Pastoral para Migrantes pelo trabalho humanitária e verdadeiramente cristão.

  • Denize Amorim | Sábado, 02 de Maio de 2020, 15h27
    6
    4

    O Centro Pastoral para Migrantes merece um prêmio Nobel da Paz. Gratidão Eliana e toda o Centro por toda ajuda é do empenho.

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