ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 28 de Março de 2019, 13h:43 | Atualizado: 28/03/2019, 13h:58

Cultura está bem representada em Cuiabá, mas falta prospecção lá fora, diz ator veja

Ator J Astrevo tem quase 35 anos de carreira dedicada a cultura cuiabana e fala dos 300 anos da Capital

Rodinei Crescêncio

J Astrevo

 

Ator, produtor cultural, roteirista, diretor, professor e um intérprete da cultura cuiabana. Essas são algumas das atribuições de Justino Astrevo de Aguiar, 53 anos, dos quais 35 foram dedicados ao teatro. Jota Astrevo, como é conhecido pelos amigos e familiares dá vida a um dos personagens mais irreverentes das artes cênicas contemporânea em Cuiabá, o Lau, que faz dupla com Nico, interpretado pelo ator Leonê Vitório. Jota já deu aula no curso de Letras da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), e pela segunda vez é secretário-adjunto de Cultura, em Cuiabá. O cuiabano encontrou o em um dos pontos mais importantes da cidade tricentenária, a Praça da República, no Centro, e falou sobre carreira, cultura regional, 300 anos e seu papel como agente público.

Confira os principais trechos da entrevista:

Como foi o início da carreira. São quantos anos dedicados ao teatro e ao humor?

São 35 anos de carreira. Antes do personagem Lau, eu já fazia teatro. A dupla Nico e Lau surgiu em 1995, mas desde 1985 já tinha uma companhia de teatro, a Folhas Produções, montávamos os espetáculos em Cuiabá e saíamos pelo país fazendo espetáculos, participando dos circuitos de festivais, que existem até hoje. Mas naquela época existia muito mais teatro alternativo. Tudo começou no ambiente escolar. Estudei a vida inteira na rede pública de ensino, e foi em uma aula de educação artística, provocado pela professora Neiva, que tive os primeiros contatos com os textos de teatro, decorar, fazer apresentações na escola, e fui tomando gosto pela arte de representar. Em 2020, completo 35 anos de carreira.

De onde surgiu a inspiração para fazer o personagem Lau?

O Lau nasceu baseado em um fabricante de viola de cocho, Emanuel Severino, já falecido. Ele tinha essa fala pausada. Falava o linguajar cuiabano de forma melódica. E eu interpretando o Lau procurei reproduzir aquelas características. Com o passar do tempo, fui readequando o personagem para se comunicar com os novos públicos, para poder utilizar as novas mídias e ser mais universal em relação a conteúdo, sem deixar de lado a característica principal do linguajar cuiabano, que é a melodia.

Rodinei Crescêncio

J Astrevo

J Astrevo em entrevista ao Rdnews na Praça da República

A representatividade do linguajar cuiabano lhe traz um sentimento de pertença, é uma forma de valorizar essa cultura?

Exatamente. No primeiro momento das artes cênicas cuiabana, tivemos dois expoentes extraordinários, que foi o Liu Arruda e o Ivan Belém, que está aí trabalhando até hoje, fazendo um espetáculo belíssimo por sinal, que é o espetáculo Progresso. Eles trouxeram pra rua a cultura popular cuiabana. Naquele momento era um momento mais de escavação, de fazer o resgate. Hoje é mais o momento de fazer preservação, manutenção, prospecção e promoção disso, porque recebemos gente de todos os cantos do país. E essa miscigenação, com filhos de cuiabanos com não cuiabanos, tende a reduzir o uso do linguajar cuiabano. Essa performance do Nico e Lau também tem um gesto político, é uma ação para fazer com que os novos públicos entrem em contato com essa cultura, a apreciem e ajudem a manter viva.

A cultura regional está bem representada e sendo difundida?

Poderia ser mais. Faltam projetos que prospectem lá fora. Acho que nós falando para nós mesmos está bacana, tem muita gente na área da música, dança, teatro, mas faltam projeto para levar adiante, prospectar lá fora.

Nesse momento de comemoração dos 300 anos de Cuiabá, houve a decisão recente do Governo do Estado em não liberar a Arena para as festividades. Essa seria uma forma de desmerecer a cultura cuiabana, é um prejuízo?

Para a comemoração da cidade foi um prejuízo sim. Não é olhar só a comemoração em si, precisa-se olhar tudo o que está em torno do evento. Vivemos um momento muito simbólico e histórico. Este tipo de evento movimenta outras áreas como a rede hoteleira, bares, restaurantes, transporte, e a criação de trabalho temporário. É um conjunto de coisas que ficou prejudicado com essa decisão. Por outro lado, na Secretaria de Cultura do município temos diversos projetos que vão comemorar os 300 anos ao longo deste ano, como por exemplo, o festival de Cururu e Siriri, que será realizado em maio.

Qual sua avaliação em relação aos equipamentos culturais na Capital e no Estado, estão atendendo o propósito de socialização da cultural?

Estamos trabalhando muito neste sentido. Já conseguimos reabir o Misc, que estava fechado, lá tem um enorme acervo de imagens desde 1920. É um dos espaços mais visitados de Cuiabá. Também tem o espaço Silva Freire que será reestruturado, assim como será reaberto em abril, o Museu do Rio. Os espaços culturais gratuitos são muito importantes, porque, quando estão abertos são locais de diálogo com a cultura. Temos trabalhado muito, na Secretária de Cultura, para garantir esse esforço de prestar serviço à sociedade.

O que te motivou aceitar esse convite para ser secretário-adjunto de cultura?

É um desafio muito sério. Isso porque a carreira está indo muito bem. A gente ocupando espaço nas mídias, televisão, rádio, fazendo shows, prospectando nosso trabalho. Inclusive fizemos cinema, que era um sonho nosso. Fizemos dois filmes, o Canhaim e o Bala Perdida. Depois disso recebi o convite do Francisco Vuolo para retornar a secretaria na qualidade de adjunto, parceria que aconteceu também na gestão Roberto França, quando fui adjunto de Cultura pela primeira vez. É uma função que evidentemente toma um pouco de tempo, que poderia estar sendo investido na produção. Mas, por outro lado, tenho um parceiro de cena, que é Leonê Vitório, que faz o Nico, e que é muito sensível às questões sociais, e ele me disse: Jota, ou a gente ocupa o espaço para podermos fazer para todos, ou vamos ficar aqui de fora, esperando que alguém faça. Então se temos a oportunidade de fazer, vamos batalhar, conquistar o espaço e produzir políticas públicas para toda a comunidade cultural, que é uma interlocutora para os cidadãos.

Confira trecho da entrevista de Jota Astrevo:

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Comentários (2)

  • Alfa | Sexta-Feira, 29 de Março de 2019, 12h41
    0
    0

    Falta e humildade a vocês.....isso sim!!!!!

  • Lodovico Settembrini | Quinta-Feira, 28 de Março de 2019, 15h41
    5
    0

    Olha que interessante: a principal característica do linguajar cuiabano é a melodia. Nunca tinha parado pra pensar nisso. É verdade! E me parece que o pessoal de Barão de Melgaço tem essa melodia ainda mais marcante, enquanto o pessoal de Poconé fala mais "pra dentro", atropelando vogais (será que os lusitanos estiveram mais presentes ali?). Grande J. Astrevo!

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