ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 11 de Abril de 2019, 11h:30 | Atualizado: 11/04/2019, 11h:48

Delegado diz que falta blitz em Cuiabá e sobra tolerância com quem bebe e dirige

raio x christian cabral

 

O delegado Christian Cabral, titular da Delegacia Especializada em Delitos de Trânsito de Cuiabá, lida, na rotina, com uma conduta ilegal e repetitiva, porém aceita socialmente que é dirigir embriagado. Na maioria das vezes, quando ele chega às ocorrências, a tragédia já está consumada. Por isso, é defensor ferrenho do aumento das grandes blitze, como medida preventiva de acidentes fatais principalmente, já que a fiscalização assusta o motorista mal intencionado. No entanto, hoje elas não passam de quatro por mês, algo em torno disso, o que ele considera muito tímido.

Entrevistado pelo , o delegado confirma que falta infraestrutura para fiscalizar o trânsito na Capital, ação considerada secundária no universo da segurança pública. Confirma também que é mais difícil fazer a abordagem de “figurões” e ricos, quando infringem a lei.

Para ele, a sociedade ainda é muito negligente e tolerante com quem bebe e dirige, achando isso comum e aceitável.

Cabral conduziu e ainda conduz inquéritos de grande repercussão, sobre casos como o da médica Letícia que atropelou o verdureiro Francisco, o atropelamento triplo em frente à boate Valey Pub, em que 2 jovens morreram, e o caso do gari Darliney, que teve a perna amputada, após ser atropelado pela procuradora Luiza Farias, em um Jeep Renegade.

Confira os principais trechos da entrevista

Há uma sensação de impunidade sobre os crimes no trânsito e, por conta disso, a população continua cometendo infrações?

Não apenas em razão da sensação de impunidade. Existe também a parte comportamental. A questão de uma falta de comprometimento com o ordenamento jurídico (a lei) que a grande parte da população em nosso país tem. A impunidade contribui no momento que as pessoas sabem que elas praticam aquela conduta errônea e não vão sofrer nenhum tipo de reprimenda. Muitas das pessoas, em especial no trânsito, que aqui fazem barbáries, quando vão para o exterior em viagem de férias com suas famílias sequer tentam uma conversão proibida por que sabem que, se fizerem, vão ser alvo de uma ação de fiscalização e vão tanto pagar administrativamente quanto criminalmente, se for o caso. No nosso país não é assim. E além disso, aqui existe a cultura do "vamos levar vantagem". Então, infelizmente, dando a cara à tapa, grande parte da população vive a Lei de Gerson - se você pode ter e tem a oportunidade de fazer algo que vai te beneficiar, você faz por que, segundo se diz por aí, todos estão fazendo e, se você não fizer, você fica para trás. Então, nós temos esses dois fatores aí que acabam contribuindo para que as nossas leis sejam muito boas no papel, mas na prática sejam extremamente precárias e de pouca eficácia.

Como que a lei pode ser mais rígida e dura com esses infratores?

Nossas leis  na prática são muito boas, muito bem redigidas, muito bem elaboradas e muito duras. E a nossa pena, hoje, de multa para quem dirige sob efeito de álcool, é uma das mais altas que existem na legislação nacional em termos de infração administrativa para condutores de veículos automotores. As penas também são altas. O problema é que tanto as multas como as penas não chegam a atingir toda a gama de infratores. Poucos são alvos de uma ação de fiscalização. Para você aplicar uma multa, você tem que realizar uma ação de fiscalização e flagrar aquele condutor cometendo irregularidades. As ações de fiscalização são extremamente tímidas e de pouca intensidade. Nos casos que não envolvem sanções criminais, raros são os condutores efetivamente denunciados pelos crimes que cometem e, quando são denunciados, mais raro ainda são os casos que terminam numa condenação de uma pena privativa de liberdade (prisão) ou mesmo a pena restritiva de direito. Normalmente, esses processos terminam com as chamadas transações penais.

As ações de fiscalização (blitze)  são extremamente tímidas e de pouca intensidade

Qual que é a maior dificuldade nas fiscalizações?

As ações de fiscalização de trânsito são antipáticas. As pessoas e muitos dos gestores entendem que a atividade policial deveria estar direcionada para trabalhar na repressão de roubo, de furto, de tráfico de entorpecente, de homicídio e de violência doméstica. Eles acham que o fato do condutor fazer uma manobra irregular, ou até mesmo dirigir sobre efeito de álcool ou droga, Seria algo muito pequeno para envolvimento das forças de segurança e também que estaríamos intrometendo na vida privada do cidadão. Por que grande parte da população acredita que o direito de beber é um direito pessoal dessas pessoas, que não aceitam a interferência estatal nessa escolha. Então essas ações não são simpáticas para a maioria da população por que a maioria gosta de beber e, muito desses que bebem, gostam de dirigir depois, acham que tem pleno controle da sua capacidade psicomotora e que os acidentes só vão acontecer com os vizinhos, e não com eles. Mas na verdade acontece com qualquer um, e as estatísticas são provas disso. Hoje, as ações não acontecem também por essa dificuldade que nós temos que vencer dentro das próprias corporações e os demais integrantes das forças de segurança, que vêm aqueles policiais que participam dessas operações com maus olhos por que essas pessoas também acabam sendo atingidas. Nossas operações pegam tanto pessoas de baixa renda quanto de alta renda, pessoas tanto de baixo nível cultural quanto de alto nível cultural, pessoas que vivem às margens da sociedade como também a high society. Então todos passam por essas operações e todos que andam as margens da lei acabam sendo atingidos por ela e, quando nós começamos a intensificar essas ações, nós acabamos atingindo todas essas pessoas. Aí você começa a ter essa problemática de não querer causar dificuldades de relacionamento interinstitucionais, e aí você depende de vencer essas barreiras - trabalhar com pequeno número de pessoas que estão dispostas a ser estigmatizados por poder estar participando dessas ações - e depende dos recursos materiais que são escassos. Não apenas para as ações de fiscalização de trânsito, mas para toda a segurança pública. Então, quando você tem que repartir um bolo que já é pequeno, a parte da fiscalização de trânsito, que é aos olhos de muitos secundária, acaba absorvendo a menor parte desses recursos. Daí a dificuldade de se realizar com mais intensidade e com mais frequência esse tipo de ação, além da antipatia, a dificuldade você arrumar servidores que tem vontade e interesse de participar dessas ações e a escassez de recursos materiais para a deflagração das ações.

São raros os casos que terminam numa condenação de uma pena privativa de liberdade ou mesmo a pena restritiva de direito

Rodinei Crescêncio

Delegado Christian Cabral

Delegado Christian Cabral já viu muita tragédia, ao atender as ocorrências de trânsito

Ricos e os “figurões” – como políticos, promotores e juízes - se sentem mais à vontade dirigir embriagados?

Nós, que trabalhamos com essas ações, temos muita dificuldade de realizar abordagem de nossos pares e dos próprios servidores da área da segurança pública quanto também daqueles integrantes do Judiciário, do Legislativo e do Executivo. Essas pessoas habitualmente não se envolvem em questões afeta a segurança pública e, quando elas são abordadas numa ação de fiscalização de trânsito, se sentem constrangidas e acham que não deveriam está sendo alvo dessa ação por entenderem que estão num patamar diferenciado. Agora, sempre falamos e cansamos de repetir, o trânsito é universal, atinge a todos independente de quem seja e Onde esteja no nível social, cultural e econômico do lugar em que está sendo realizada essa operação.

Qual a maior dificuldade no momento de vocês realizarem a Lei Seca?

Hoje, quando conseguimos realizar o número que entendemos ser bastante alto de operações não conseguimos passar de quatro ações mensais

Tem os recursos humanos. Hoje, por exemplo, as ações começaram a ser realizadas de forma integrada, envolvendo todas as instituições de segurança pública. Não apenas pela questão de que a integração é uma política de segurança pública a nível estadual, mas principalmente para vencer uma grande deficiência que as forças tinham que era a falta de recursos humanos e materiais para realizar essas operações. A primeira operação foi realizada com um pouco mais de meia dúzia de servidores da polícia judiciária civil, e o efetivo um pouquinho maior da Polícia Militar através do BPTran. Aquela ação conseguiu se desenrolar de uma forma satisfatória e foi o piloto para deflagração do projeto Lei Seca integrado que, hoje, já envolve a Semob, o Detran e a Polícia Rodoviária Federal. Mas todas essas instituições trabalham de forma integrada não apenas pela política da Integração, mas principalmente para terem condições de realizar um mínimo de eficiência as ações que lhe competem. Isoladamente, elas não têm hoje a estrutura de recursos humanos e materiais condizentes. E, ainda assim, quando nós juntamos, nós enfrentamos grandes dificuldades. Nas histórias das operações, por várias vezes, nós tivemos que suspender, cancelar ou adiar operações por falta de recursos - quer humanos quer materiais. No último ano do governo de transformação, foram várias as operações canceladas em virtude de falta de viaturas, da falta do ônibus da delegacia móvel, de veículo para custódia de detidos e outros recursos materiais mínimos e, até certo ponto insignificante, para o estado da grandeza de Mato Grosso e que não estavam disponíveis para a realização dessas operações. Hoje, nós quando conseguimos realizar o número que, nós entendemos ser bastante alto de operações, não conseguimos passar de quatro ações mensais, que daria mais ou menos, em média, de uma ação por semana. É um número, para a nossa estrutura hoje, considerado alto. Mas a nível de violência de trânsito em Mato Grosso e, em especial a nível de política de fiscalização de trânsito de Brasil, o número extremamente tímido e incapaz de gerar mudanças de comportamento e de alterar o panorama da violência no trânsito que hoje atinge a nossa cidade.

Qual a função das blitze?

As operações já levam o nome equivocado. Chama de operação Lei Seca e, quando você fala Lei Seca, remete à ideia da bebida alcoólica. Mas tanto o crime do artigo 306, que é o crime de dirigir embriagado, quanto a infração do artigo 165 do Código de Trânsito, não abrangem apenas a bebida alcoólica. Elas tratam daquela pessoa que tem a sua capacidade psicomotora alterada em razão da ingestão de álcool, droga ou qualquer outra substância que determine dependência ou altere a sua capacidade psicomotora. Aí entra, inclusive, muitos dos medicamentos que você toma dentro da sua casa com receita médica. Geralmente quando você está tomando remédio, você vai lá na bula e vai ver recomenda-se não dirigir. Então as pessoas que estão tomando esses medicamentos ou que também façam o uso de substâncias entorpecentes, também cometem esse crime. O problema que nós temos no Brasil - não é só em Mato Grosso e muito menos em Cuiabá - é que não existe até hoje equipamentos para se fazer a constatação dessas outras alterações. O etilômetro (bafômetro) pega apenas aquele condutor que fez o consumo de álcool e, culturalmente, o consumo de álcool é mais aceito, apesar de trazer tantos malefícios quanto as substâncias entorpecentes.(Colaborou Allan Pereira)

Veja trecho da entrevista

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Comentários (7)

  • alex r | Sexta-Feira, 12 de Abril de 2019, 12h55
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    2

    Cara o governo Federal quer aumentar o prazo de tempo com carteira e exame para onerar menos o cidadão, mas para não perder em arrecadação ele endurecerá a fiscalização. Tá ótimo. Quem tiver errado que pague por isso , não quem tentar andar certo.

  • Vinícius | Quinta-Feira, 11 de Abril de 2019, 21h13
    4
    1

    Aqui em Cáceres vc vai a delegacia tem 6, 7 policiais civis se coçando. Só colocar na rua pra fazer blitz.

  • Roseli | Quinta-Feira, 11 de Abril de 2019, 19h48
    3
    2

    A pessoa que dirige alcoolizada deveria ter o carro confiscado, independente do valor do veículo. O valor do carro deveria ser revertido para mais fiscalização e educação no trânsito. Tenho certeza que o número de casos reduziria. Tem que doer no bolso do cidadão.

  • alexandre | Quinta-Feira, 11 de Abril de 2019, 14h45
    2
    6

    Exame de saúde de 2 em 2 anos vai diminuir o numero de acidentes ou fazer a pessoa parar de beber ? claro que não, mas vc gasta uns 300,00 pra renovar a CNH, que vc já possui....

  • Ribeirão | Quinta-Feira, 11 de Abril de 2019, 14h35
    7
    0

    Um infrator no trânsito, desses causam mortes, são piores que ladrões. Afinal, mais que materiais, levam vidas. São assassinos em potencial todo aquele que sabe que está colocando em risco a vida de outrem. Nem falo de sua própria, já que tudo indica não se importa com ela. A falta de educação e a soberba são contributos para que as pessoas cometem atrocidades. Sempre fico feliz quado vejo blitz. Não me incomodam sequer de ser parado nelas, nada tenho a temer. ao contrário, sei que muitos ficam tensos, nervosos e com sentimento de invasão. Ora, o trânsito é um espaço coletivo e a urbanidade deve ser plena. Infelizmente há governantes que querem abrandar as penalizações para agradar a marginália. O cidadão é um mero eleitor. Que triste!

  • João Plenário | Quinta-Feira, 11 de Abril de 2019, 13h20
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    5

    Não pode ver uma câmera esse cidadão.

  • Henrique Santos | Quinta-Feira, 11 de Abril de 2019, 11h46
    7
    6

    Excelentes colocações do Dr. Christian. Oportuno lembrar ainda que infelizmente o atual governo federal, e fui seu eleitor, tem interesse em aprovar um projeto populista querendo aumentar a validade do exame médico para 10 anos. Os acidentes de trânsito são hoje a 8ª principal causa de mortes no mundo inteiro, e eram a 10º há 20 anos, sendo boa parte causadas por álcool, drogas, sono e imprudência, e causam custos enormes para o poder público em tratamento e reabilitação. Doenças surgirão neste período e não serão identificadas, outras serão agravadas, e os condutores não terão as devidas orientações necessárias. A fiscalização e a legislação devem ser ampliadas cada vez mais, e não afrouxadas, o resultado será o aumento progressivo desta tragédia mundial.

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