ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 16 de Maio de 2019, 12h:35 | Atualizado: 16/05/2019, 12h:47

É muito difícil viver na desesperança, diz professora sobre corte de verbas na UFMT

Lélica Lacerda ressalta que cortes anunciados pelo MEC é tiro de misericórdia às universidades públicas

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

L�lica Lacerda

 

Professora doutora em Serviço Social na UFMT há 4 anos, Lélica Elis Pereira de Lacerda, 34, avalia os efeitos do corte de 30% no orçamento da instituição. Além de comprometer a continuidade das atividades letivas, estão em risco as pesquisas científicas, os programas de mestrado e doutorado, e principalmente, a saúde mental dos docentes e acadêmicos. O efeito negativo para a sociedade, segundo a professora, é em recolonização do país pelos países centrais em razão da falta de pesquisas cientificas. Lélica é diretora de Comunicação da Associação dos Docentes da UFMT (Adufemat).

Na sua avaliação, qual o impacto trazido pelo corte anunciado pelo Governo Bolsonaro às instituições federais, como a UFMT?

É necessário situar esse corte dentro de uma dimensão maior. A educação vem sofrendo cortes desde o segundo mandato da Dilma Rousseff (PT). O Michel Temer (MDB) também fez corte de 54% dos recursos das universidades e os congelou por 20 anos. A Emenda Constitucional 95, aprovada no Governo Temer, significa um estrangulamento financeiro. O corte anunciado pelo Governo Bolsonaro (PSL) é um tiro de misericórdia às universidades públicas. Um corte agora não se trata mais de atrasar bolsas e inviabilizar a ida a eventos, significa a inviabilidade do cotidiano das unidades de ensino, como pagar despesas simples de água, luz, limpeza. A universidade não tem condições de abrir as portas no segundo semestre. Por ora, o corte ainda não impacta na folha de pagamento. Os salários em si ainda não estão atrasados, porque é um direito constitucional, embora a Constituição hoje não está valendo de nada.

Os impactos são mais preocupantes em que área do ensino público?

Os impactos estão ocorrendo, sobretudo nas pós-graduações. Uma coisa muito preocupante é o corte nas bolsas de graduação, que é o salário dos pesquisadores, já que muitos deixam seus empregos para vir para o seio da universidade produzir pesquisa cientifica. Com esse corte, inviabiliza a produção de pesquisa cientifica no país, e isso coloca o Brasil em maior dependência dos países centrais, o que nos impede de competir no mercado internacional. É um processo de recolonização do país, voltando a produzir commodities. Outro impacto é a precarização do ensino fundamental e médio, o governo diz que irá priorizar o ensino fundamental, mas a valorização desse ensino também passa pela qualificação dos professores. Com isso inviabiliza a formação de professores.

Reprodução

L�lica Lacerda

Lélica Lacerda, diretora de Comunicação da Adufmat, fala em reunião da associação que reune professores da UFMT; ela fala sobre cortes do MEC

Acredita que esse corte seja uma forma de chantagem ao Congresso e a população para a aprovação da Reforma da Previdência?

As universidades são hoje espaço para o contraditório e do pensamento crítico, pesquisas apontam que não existe rombo na previdência. E as universidades municiam essa luta contra a reforma. O Tesouro Nacional não consegue realocar os recursos da dívida pública em áreas prioritárias e investimentos sociais. A EC 95 que coloca essa situação de que para alocar mais recursos para Educação precisa retirar da previdência. Esse corte de recursos vem junto com uma campanha difamatória, e dentro de uma chantagem de que a reforma vai alavancar a economia brasileira, o que é uma mentira, porque da forma como está posta tende a diminuir o poder de renda das pessoas. Mas vem sendo vendida como uma solução, sendo que os recursos pagos pelo INSS, por meio dos benefícios aos mais pobres, injetam mais nos municípios do que os recursos do ICMS. Nosso vilão na verdade são os bancos.

Acredita que punir universidades por suposta “balburdia”, como anunciou o MEC, seja uma política de Governo?

Desde o golpe de 2016, o que vemos é uma suspensão dos direitos democráticos, em detrimento de medidas autoritárias. E para o autoritarismo se impor precisa se opor aos pontos de divergência. A educação historicamente sofre ataques nas viradas autoritárias. E na medida em que esse autoritarismo vem se intensificando, aumenta o ataque aos professores.

Como vê a opinião popular em relação às universidades e institutos federais?

. Em relação a esse corte no orçamento das universidades, em parte, existe uma descrença

Lélica Lacerda

Uma das técnicas manipulatórias do Fascismo é construir um inimigo de forma intencional. As universidades estão sendo construídas como um inimigo público. A sociedade precisa garantir espaços de pensamento livre e pensamento cientifico. A medida ideológica cria um caldo conservador para depredar o que é público. Vamos entrar em um período do autoritarismo do discurso único. Não que não exista divergência, mas está sendo calada e silenciada. Vivemos em uma sociedade de mercado, conquistar mercado significa produzir novos produtos e novas tecnologias com valor agregado. O projeto de nação das elites que estão no poder é subserviente, e em contrapartida elimina projetos de ciência e tecnologia. Na contrapartida, a Alemanha acabou de anunciar o maior aporte financeiro às universidades públicas. Se nós brasileiros queremos um país soberano e que construa soberania, isso passa por uma política educacional.

Em meio a toda essa questão, como fica a saúde mental dos docentes?

É muito difícil viver na desesperança. Inclusive uma das capacidades do ser humano que o diferenciou ao longo da evolução dos demais animais e a possibilidade de planejar o futuro. Já tem sido difícil há um bom tempo. Já cansei de bancar do meu próprio bolso para ir em eventos científicos e bancar minhas pesquisadoras, para que possam participar desses encontros. Tem aumentado muito os índices de tentativa de suicídio no meio acadêmico. Esse processo de adoecimento vem acontecendo há muito tempo. Em relação a esse corte no orçamento das universidades, em parte, existe uma descrença. Parte dos professores não estão acreditando no corte das universidades. Existe um desespero generalizado criando uma disputa entre nós em relação a quem vai ficar com qual atribuição no momento em que o impacto for real. Por outro lado, existe uma parte que está conseguindo transformar o desespero em luta coletiva.

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Comentários (12)

  • joao | Domingo, 19 de Maio de 2019, 18h25
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    O presidente Bolsonaro deveria nomear uma equipe com um interventor para cada Faculdade para comandar nos primeiros 3 meses do corte. Onde irá rever todos os contratos, bem como salários. Toda equipe afastada e sem salário.

  • Luca.CBA | Sexta-Feira, 17 de Maio de 2019, 16h37
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    Desesperança é ver um monte de "mestres", "especialistas", "doutores" em administração se desesperando por conta de um corte de orçamento. Ser gestor sem precisar contingenciar orçamento é fácil. Ao invés de saírem pelas ruas fazendo protesto, usando estudantes como escudo, deveriam se debruçar sobre os gastos e encontrar soluções para contribuir com o momento. Aliás, qual a contraproposta que fizeram?

  • alexandre | Sexta-Feira, 17 de Maio de 2019, 15h30
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    A desesperança é porque não é PT ? na democarcia tem alternância de poder, aguentamos 15 anos de populismo e descontrole da esquerda..

  • Juca | Sexta-Feira, 17 de Maio de 2019, 11h22
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    Ela deve estar preocupada com os alunos de mestrado e doutorado que podem ficar sem verba publica para terminar os estudos sobre como DRAGON BALL Z vai combater a violência nas ruas. Tem que o governo fazer um pente fino dessas teses onde estão aplicando o dinheiro publico, pois com certeza deve ter muito estudo absurdo como "AGORA FIQUEI DOCE", 'FELIPE NETO EM PERFORMANCE NO YOUTUBE", "CRIAÇÃO E CONECTIVIDADE COM MR. CATRA".... mas que ESPECIALISTAS da educação vão dizer que é importante para a vida do brasileiro. https://jornalggn.com.br/humor/mr-catra-e-dragon-ball-viram-tema-de-tcc-em-universidades-publicas-brasileiras/

  • Jorge | Sexta-Feira, 17 de Maio de 2019, 11h15
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    3

    Uma professora que não sabe distinguir a palavra corte de contingenciamento vai explicar o que para os alunos? aff

  • Ademir | Quinta-Feira, 16 de Maio de 2019, 21h43
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    Uma das técnicas manipulatórias do Fascismo é construir um inimigo de forma intencional. E uma das técnicas dos esquerdoppattas é roubar dinheiro público, alheio e não gostar de trabalhar, igual a esta que faz de vitimização, mas não pede CPI para prender reitores do partido dela que roubam, sugam, e matam a Educação, então antes de falácia, ajudem a moralizar a Educação em vez de roubá-la.

  • deovaldo | Quinta-Feira, 16 de Maio de 2019, 17h42
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    13

    MUITO MIMIMIMIMIMIMIMIMIMIMIMIMIMIMIMIM....GOVERNO LULA,,,,DILMA E TEMER CORTARAM A VERBA DE TODAS AS FEDERAIS NO PAIS E NINGUEM ESBRAVEJOU,,,,PORQUE SERÁ HEIM,,,,???? PTZADAFILHJDAPUTA

  • Jorge M. do Carmo | Quinta-Feira, 16 de Maio de 2019, 17h06
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    Essa senhora tem tempo pra manter um Blog na internet, Esquerda Online, chama os internautas de companheiros marxistas ... Imagino que tipo de titica não tem colocado na cabeça dos seus alunos. Ninguém merece a merda ideológica que virou nossa educação!

  • CHIRRÃO | Quinta-Feira, 16 de Maio de 2019, 14h52
    28
    12

    só de ver a camiseta dessa ai já imagino os seus IDEAIS..LULALIVRE, CUT,blablabla..

  • walter liz | Quinta-Feira, 16 de Maio de 2019, 14h40
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    12

    o que esperar de uma "educadora " que fala em golpe de 2016 ? e depois dizem que não politizam

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Concordo - esse Exame tem de acabar

Discordo - bacharel precisa, sim, se submeter ao Exame

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Não se trata de pesquisa eleitoral, mas de um mero levantamento de opiniões de leitores do RDNews e do Blog do Romilson, com participação espontânea dos internautas. Resultado sem valor científico.