ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 15 de Agosto de 2019, 13h:44 | Atualizado: 15/08/2019, 16h:04

Enfermeira critica indústria do desmame e afirma que a amamentação é sexualizada

Cintia Ribeiro fala sobre maternidade e dificuldades das mulheres em torno da amamentação dos filhos

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Cintia Ribeiro

 

Desde o período da faculdade, a enfermeira Cintia Ribeiro se interessa pelo tema amamentação. Na opinião dela, a indústria deturpa informações sobre o aleitamento para lucrar em cima de produtos desnecessários e que prejudicam este momento da mãe com o bebê. Em entrevista ao , ela comenta que há também uma sexualização masculina no seios de mães quando alimentam seus filhos em lugares públicos. Além de relatar que já foi questionada se tinha como provar, realmente, que era lactante numa fila preferencial e que precisam respeitar a Lei nº 10.048 (de 8 de novembro de 2000). Ela, hoje, atua no Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso (COREN), e ajuda a tirar dúvidas frequentes de mães e familiares sobre o aleitamento materno. No mês de campanha Agosto Dourado, além de se discutir a maternidade real, alguns trechos da entrevista ajuda a sociedade compreender e respeitar a importância das mães que ainda amamentam.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Por qual motivo acredita que ainda há tanta dúvida sobre o período de amamentação?

Não sei se é a falta de informação ou se é excesso de produtos para substituir ou, supostamente, auxiliar na amamentação, mas que acabam atrapalhando. Dizem que existe uma série de mamadeiras que imitam o bico do peito, e isso é mentira. Existe uma confusão entre a mamadeira e peito, como se fossem a mesma coisa, ou aqueles bicos de silicone que dizem que é uma proteção para o seio, mas existem vários estudos que comprovam que ele não faz bem. A grande questão é que a amamentação não custa nada, e a indústria tenta deturpar isso para lançar desserviços e continuar vendendo. A indústria quer vender para o desmame ou para uma falsa orientação que dizem que é para ajudar na amamentação.

Existe leite fraco ou mães que não são capazes de amamentar pelo período necessário para nutrir os filhos?

Não existe leite fraco, o que existe é uma pega inadequada ou uso de bicos artificiais, o que faz com que o bebê pegue só a pontinha e não massageie devidamente o bico do peito. O uso de mamadeira e chupeta também. Isso faz com que com o tempo o seio entenda que não precisa mais produzir leite, com isso diminui-se a produção natural de leite, e a pega inadequada gera a baixa produção. É um ciclo.

Arquivo Pessoal

Cintia Ribeiro

Cintia amamenta o filho durante seu casamento; ela diz que chegou a se incomodar com a amamentação em público

Algumas mães acabam desistindo de amamentar os filhos e inserindo outro tipo de alimentação na dieta deles, por que acredita que isso acontece?

É comum que na primeira dificuldade dizerem para essa mãe que o bico dela é ruim ou que ela não vai conseguir amamentar, que o leite dela é fraco ou que o leite dela não desceu. Não costumam orientar a continuar ou como fazer para manter a pega adequada e vão para o lado mais fácil, que é dar a mamadeira. A mãe, neste momento, está cansada porque está no período de puerpério, que a gente chama de baby blues (período que decorre desde o parto até que os órgãos genitais e o estado geral da mulher voltem às condições anteriores à gestação), chega a durar uns trinta dias, a mãe tem uma queda de hormônios e passa a ficar ainda mais insegura, pois é mãe. A baixa do hormônio gera uma melancolia pós-parto, e junta com fatores externos, com a falta de uma rede de apoio, e ela acaba cedendo para o lado mais fácil, que é o lado da mamadeira. Isso, posteriormente, gera culpa e frustração de muitas mães. É difícil uma mulher falar que não quer amamentar, mais de 90% quer amamentar. Algumas darão a mamadeira, mas porque passaram por dificuldades e não foram devidamente instruídas, o que depois gera uma frustração.

Acredita que outras mulheres que já foram mães ou familiares podem confundir as mães e atrapalhá-las nesse processo?

Tem mães e sogras que atrapalham muito, eu tive dificuldade com as duas, queriam que eu desse chá e mamadeira ou que eu desmamasse porque é feio criança grande mamar. Diziam que se ele chorasse a noite ao invés de dar o peito, dar a mamadeira. Digo que se eu não fosse enfermeira, teria dado mamadeira e chupeta.

Acredita que por pressão estética algumas mães podem desistir de amamentar?

O peito vai cair de qualquer jeito, a gravidade vai derrubá-lo. Então que seja por uma boa causa. Ele não vai voltar igual tendo ou não amamentado, costumo fazer um cálculo para as mães e as questiono quanto custa dois anos de mamadeira e um silicone, com certeza o silicone fica mais barato. Se o problema é estético, ele está resolvido.

E sobre as polêmicas de amamentação em público? Já foi repreendida ou sexualizada por alimentar seus filhos?

Acho que se o neném está com fome ou precisa do peito, o peito tem que ser dado. Nunca fui impedida de amamentar em qualquer lugar que fosse, mas infelizmente o seio é sexualizado. Já senti olhares masculinos. No começo me constrangia bastante, mas depois parei de ligar e só queria mesmo alimentar meu filho.

Há muita gente que diz que uma mulher para ser completa precisa ser mãe. O que você acha dessa afirmação? A maternidade é romantizada?

Arquivo Pessoal

Cintia Ribeiro

Cintia posa sorridente ao lado dos seus 2 filhos

É mentira que toda mulher precisa ser mãe para ser completa, se você não estiver bem com você mesma, a maternidade pode te piorar. Porque esse momento requer adaptações, dedicação e toda mudança da sua vida. Durante certo tempo você não consegue escovar o dente, pentear cabelo e fazer unha. Antes eu tinha manicure uma vez por semana, agora, com meus filhos grandes, se for uma vez por mês é muito. As prioridades mudam. Se você também não tiver um relacionamento muito bacana, ele tende a piorar. Muitos homens competem com as crianças porque querem a mesma atenção. Muitos homens não fazem a parte deles, fica toda a carga para a mulher. A sociedade acha que a carga da criança e da casa é da mulher, quando este homem faz algo, chamam de ajuda. Quem ajuda é avós e visita, pai tem a obrigação de dividir todas as tarefas do lar e cuidar dos filhos.

Quando volta ao trabalho após a licença maternidade é difícil? O que passa pela cabeça?

Na volta ao trabalho essa mulher também fica com o sentimento de culpa. Se ela ainda amamenta, quando tenta ordenhar, pode não ordenhar a quantidade o suficiente. O ideal é não usar a mamadeira porque depois a criança pode rejeitar o seu peito. Até os dois anos dos meus filhos eu me sentia muito culpada, de ficar oito horas fora ou deixar a educação deles a cargo de terceiros.

Já sofreu com desrespeito de alguma Lei direcionada a mães? Como você costuma se posicionar?

Com as Leis de Lactantes em filas, já tive problemas. Deixei meu filho em casa e fui ao mercado na hora de almoço comprar fralda e lenço umedecido para meu bebê. Cheguei à fila do caixa e perguntei para cada pessoa se eram preferenciais e elas disseram que não, então eu disse que era preferencial por essa Lei para a caixa. A caixa me perguntou se eu poderia provar então eu disse que sim, tirei o seio para fora e perguntei se ela queria o leite no copo ou se poderia ser ali no caixa mesmo.

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