ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 08 de Agosto de 2019, 14h:33 | Atualizado: 08/08/2019, 14h:53

Excêntrico, Lucius resiste ao tempo e se diz sempre aberto para novas tribos - veja

Há mais de 20 anos, Lucius do Caju é conhecido pelo seu bar no Quilombo, onde o ser diferente é normal

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Lucius do Caju

 

Com um visual bastante chamativo, ele logo abre um sorriso pra quem quer que chegue no seu bar. Antes do sol se por, coloca as mesas do lado de fora e estica as toalhas na mesa, no congelador, cerveja sempre gelada pra servir. Essa é uma rotina que o cuiabano Lucius do Caju conhece bem há mais de duas décadas, desde sempre trabalhou na noite. Ainda quando criança, conta que com os pais alcoólatras, foi adotado por uma senhora que lhe intitulou de afilhado. O bar é uma extensão da mistura de paixões de Lucius, ama flash back, promove bailes bregas, e quando se senta frente ao teclado canta os clássicos que embalaram seu coração nos anos 80. Ele é quem atende, cobra a conta e chama pelo nome todos os clientes, pois afirma que por mais que muitos demorem a voltar, eles voltam. Caju, apelido que ganhou após o primeiro endereço que teve um estabelecimento com um enorme cajueiro no meio, é como é chamado pelos que tem simpatia pela personalidade. No segundo endereço que abriu as portas do bar, teve a caricata idéia de montar um armário na porta do banheiro, o que gerou motivo de repercussão. Nessa mesma época um protesto marcou a frente do seu bar, com um beijaço, um grupo LGBTQI+ dizia que Lucius havia repreendido um casal por se beijarem calorosamente. Ele teve direito de resposta, e disse que respeita todas as tribos, e recebeu bem o protesto. Quem lhe conhece sabe, que apesar de ser de outra geração, está com a mente aberta para ser cada vez mais um ser humano melhor. No terceiro endereço, após inúmeros pedidos, ele promete montar o armário que a clientela tanto cobra. O povo quer mesmo entrar e sair do armário, revela.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Como começou sua paixão pela vida noturna, pelo flash back, decorações que lembram muito os bailes “bregas” do nordeste?

Quando era criança, meus pais eram alcoólatras e uma jornalista conhecida na época (Marta Arruda) me adotou. Eu tinha 10 anos de idade e me viu passando com meus pais, em direção à avenida Getúlio Vargas para ouvir flash back. Desde essa época gosto desse estilo de música. Ficávamos sentados na escadaria de um restaurante famoso ali, e um dia essa jornalista perguntou aos meus pais se ela poderia me adotar. Eles ficaram assustados, mas ela disse que só queria cuidar de mim, me alimentar e voltaria para a casa deles para dormir. Eles aceitaram, porque também eram muito carentes de tudo. Um dia ela me perguntou qual era meu maior sonho, e eu disse que era ter uma festa de aniversário, daí ela fez uma festa surpresa pra mim com tudo que uma criança rica tinha direito. A alta sociedade apareceu na festa, os parentes dos meus pais, chamamos outras crianças da rua, e ela realizou este meu sonho. A Marta morou no Rio de Janeiro e faleceu lá, mas é cuiabana. Ela me chamava de meu afilhado. Foi a Marta que me incentivou a trabalhar como garçom e conhecer melhor todo o universo que eu trabalho hoje.

Como você começou a entrar nesse mundo profissionalmente?

Foi a Marta que me arrumou meu primeiro emprego, com 13 para 14 anos, e entrei como ajudante geral. Naquela época menor também não podia trabalhar e teve um dia que um jornalista me colocou na manchete de um jornal e a polícia foi parar lá, me esconderam no fundo do restaurante. Com o tempo fui aprendendo e trabalhei em várias casas noturnas de Cuiabá e pegando o jeito de como é atender um cliente. Ao todo tenho 33 anos atendendo o público, e é o que sei fazer até hoje.

Rodinei Crescêncio

Lucius do Caju

Lucius do Caju, personalidade famosa da noite cuiabana, posa para as lentes do Rdnews em frente a seu icônico bar, localizado no bairro Quilombo

De onde você tira as inspirações para decorar seu bar? Vejo que aqui tem um pouco de tudo que você gosta. Quais são seus critérios?

As idéias de decoração vêm espontaneamente, não tem um planejamento, é o que vem na mente. Às vezes passeando pelo centro vejo algo e trago e muitas coisas eu ganho. Estou no terceiro endereço e cada espaço ampliei um pouquinho, só que dos três, o primeiro foi um dos mais movimentados – ninguém esquece e marcou para o povo. O segundo não foi o que o pessoal esperava, mas o terceiro todo mundo chega e fica de boca aberta por causa do aconchego. Coloquei poltronas e sofás novos, mas o pessoal sente mesmo falta do guarda-roupa que tinha no segundo bar, que foi a idéia de que os homens entrariam no armário. Dessa forma eu coloquei os três banheiros em um guarda-roupa, mas até hoje todo mundo pergunta.

Acha, então, que as pessoas sentem saudade de entrar e sair do armário no seu bar?

Já veio gente de fora que me perguntou desse guarda-roupa, mas tem muito cuiabano que a primeira coisa que faz chegando aqui é ir ao banheiro, mas não encontra o armário. Daí me perguntam: "mas Lucius, cadê o guarda-roupa? Trouxe um pessoal de fora para ver  seu armário e ele não ta mais aí, você ta me fazendo passar vergonha". O armário fazia parte da decoração do meu segundo endereço, mas vou ter que fazer de novo, o povo quer entrar e sair do armário. Não é só homem não, até mulher quer entrar e sair do armário.

Rodinei Crescêncio

Lucius do Caju

Lucius do Caju recebe a repórter Mirella Duarte em seu bar para uma entrevista exclusiva, em que fala da sua história

Acredita que você tem um público específico no seu bar ou atende todo tipo de gente?

É uma mistura de tribos, minha satisfação é ver as pessoas felizes. Duas semanas atrás fiz uma festa brega aqui e chegou cliente que me chamou e disse que foi em um lugar chique, mas não viu a alegria nesses lugares, igual aqui. Eles se sentem em casa, não importa a roupa que eles estão. Eu vejo a alegria deles, todas as classes sociais, seja rico ou pobre. Quando você faz uma coisa que você gosta, tudo dá certo.

Seu estilo de se vestir, além do seu bar, também é bastante fora do comum. As pessoas te olham muito na rua por isso?

Não devo satisfação para ninguém, me visto como eu quero. Não tenho interesse de saber se alguém vai gostar ou não. Saio como eu gosto, coloco meu cabelo como me sinto bem. Chamo a atenção, mas finjo que não, porque sou meio tímido. Às vezes é o transito que para ou a pessoa que para de comer para ficar me olhando.

Provavelmente muita gente te para na rua para cumprimentar, você é uma lenda viva e, quem sabe por isso, até apostou na sua candidatura para vereador algumas vezes. Pretende tentar de novo?

Me candidatei duas vezes, tentei porque eu gosto da política. Tentei pela terceira vez também, mas nessa fui barrado no TRE

Lucius do Caju

Me candidatei duas vezes, tentei porque eu gosto da política. Tentei pela terceira vez também, mas nessa fui barrado no TRE, porque atrasei a prestação de contas, e na última eleição sai candidato de novo e fui barrado de última hora. Fui barrado pela Lei da Ficha Limpa, porque não respeitei o prazo de entrega, não só eu como muitos foram barrados. Pretendo tentar de novo porque eu gosto da política, acho triste o lado da solidariedade que políticos não assistem a comunidade. A gente não vê o lado do pobre e o da favela na política, minha proposta é que as políticas cheguem no lado carente, mas não posso chegar lá sem força.

Já recebeu algum apoio financeiro ou de político para se candidatar e seguir fazendo campanha?

Quando sai candidato, não tive apoio financeiro, isso é muito difícil. Conheço bastante políticos, mas nunca fui ajudado de nenhuma forma. Fiquei até chateado porque tiveram candidatos que também foram barrados no TRE-MT, assim como eu, mas quando eu fui olhar no horário político, estavam lá. Nosso partido tinha assessoria para ajudar o candidato que não foi aprovado pelo TRE, e houve uma diferença de apoio muito grande.

Você tem fotos de clientes na sua parede, é um dono de bar bastante afetivo. Trata as pessoas de forma especial? São muitas fotos e muitas histórias?

Pessoas que estão nesse mural têm uma historia, e ainda não tem 1% das fotos que precisam estar aí. Não tenho interesse em colocar uma foto aí que o cliente vem e nunca mais volta, quem está aí é porque alguma coisa marcou. O segredo das pessoas voltarem está em ser o que você é, receber o cliente com carinho. O cliente já sai da sua casa em direção ao seu estabelecimento e não é à toa. Ele não quer saber do problema que você tem e você não pode descontar isso nele. A partir do momento que você abre um estabelecimento público, tem que abrir seu coração e o seu sorriso.

Acredita que seu público reduziu nos últimos anos?

O pessoal me comenta isso, mas o público não reduziu em nada. Há quinze anos não existia a Praça da Mandioca ou Praça Popular e tantas casas noturnas como existe hoje. Cuiabá cresceu e tenho que dividir meus clientes com eles. Não importa o tempo, meus clientes voltam. Quando eu saio por ai sempre encontro um cliente meu que pede foto comigo ou sente saudade. Não tenho como rotular o bar do Lucius do Caju.

Uma época atrás teve uma polêmica que acabou ocasionando um beijaço na porta do seu bar, como foi aquele momento para você? Acha que foram injustos ou você amadureceu a ideia depois?

Eu aceitei de boa, porque as pessoas têm direito de manifestar quem apóia e quem não apóia meu modo de pensar. E, sobre isso, eu publiquei junto com o Andre D’Lucca um vídeo falando tudo o que tem que falar sobre meu bar o que é e o que não é, mas o Andre é uma testemunha fora de sério, pois é meu cliente e viveu meu bar. Teve gente naquele beijaço que não sabia nem quem eu era, veio de carona, veio de pipa.

Você se considera conservador, preconceituoso ou homofóbico?

Já fui um pouco mais rígido, não tenho costume de ver homem com homem ou mulher com mulher. Mas tive bons amigos que chegaram e disseram: o mundo mudou. Nunca desrespeitei ninguém, sempre tratei bem.

É casado e tem filhos? Tem família aqui? Se um dia você se cansar eles irão dar continuidade no seu negócio?

Terminei o casamento por cinco anos e voltei agora. Tenho três filhos, um menino e duas meninas. Larguei a mulher varias vezes porque eu era muito safado, vai chegando aos quarenta anos e vai quietando o facho. Vou até quando Deus quiser, em Várzea Grande tenho uma casa que nunca morei, falo que ali vou tirar minha aposentadoria. Se um dia eu cansar, a matriz está aqui. Minha vida não é só flores, sou feliz comigo, mas tomo muito cuidado com a maldade dos outros.

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Comentários (5)

  • Ana Carla | Sábado, 10 de Agosto de 2019, 12h51
    0
    0

    Amei essa entrevista,fiquei curiosa para fazer uma visita. Será que posso?

  • Beatriz | Sábado, 10 de Agosto de 2019, 11h33
    1
    0

    Muito boa entrevista...

  • RENATTUS | Sexta-Feira, 09 de Agosto de 2019, 17h52
    2
    0

    DEVERIA TER CITADO O GRANDE MARVIO... PAI DO LÚCIO , APESAR DA BEBIDA ERAM UM BOM HOMEM

  • Marcos | Sexta-Feira, 09 de Agosto de 2019, 16h02
    3
    0

    Legal mesmo ja fui la. ..A SAUNA 57 TB É LUGAR MUITO BOM P SE CURTIR.

  • giovanni | Sexta-Feira, 09 de Agosto de 2019, 09h49
    0
    3

    O que é isso?

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