ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 18 de Outubro de 2018, 08h:50 | Atualizado: 18/10/2018, 09h:06

Fake News são ruínas éticas e estimulam discursos de ódio nas redes, diz psicólogo

Lucas Guerra estuda o modo que conteúdos de ódio nas redes sociais produzem afetações nas pessoas

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Lucas Guerra

 

Na era das Fake News, termo americanizado para notícias falsas, o discurso de ódio contra grupos sociais, principalmente os de minorias, reforça o que há de pior na raça humana. Informações distoricidas com o claro objetivo de favorecer alguns acabam, até mesmo, interferindo no jogo democrático das eleições. O TSE já considera crime eleitoral a propagação ou criação de notícias mentirosas. Ao saber disso, o psicanalista Lucas Guerra se dedica aos estudos de análise dos discursos de ódio que circulam o universo das mentiras que são propagadas nas redes sociais. Em entrevista ao site ele argumenta que ferir valores como a verdade para disseminar mentiras intencionalmente diz muito mais de quem o faz, do que dos fatos disseminados. Ele também deu dicas de como distinguir a notícia falsa da verdadeira.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Como as Fake News reforçam o discurso de ódio na nossa sociedade? 

Entendo e tenho dito que as Fake News são as ruínas de fatos, ruínas éticas. Como o objetivo das notícias falsas é produzir afetações emocionais em quem entra com seu conteúdo, o fato em si não importa em nada perto do apelo que opera aquela notícia. Em geral são notícias alarmantes que produzem a paranóia de um outro perigo, o que reforça discursos de ódio contra os alvos das notícias falsas mais veiculadas.

Arquivo Pessoal

Lucas Guerra

Lucas Guerra em apresentação de pesquisa

A partir de que momento as falsas notícias se tornam um elemento de manipulação e reforço a preconceitos e estereótipos? É um fato exclusivo da era das redes sociais?

O tempo todo notícias falsas são elementos de reforço de preconceitos, porque ao produzirem paranóia e alarme sobre determinadas pessoas ou determinados grupos, elegem-se características que supostamente precisam ser combatidas em nome da manutenção de uma situação pessoal ou social.

O que faz pessoas comuns, que talvez não se comportem assim na vida offline, adotarem uma postura agressiva no mundo virtual, disseminando notícias totalmente fora da realidade?

Na vida offline, as pessoas fazem os mesmos comentários com conteúdos de discurso de ódio. No entanto, online o impacto é completamente diferente. É ampliado para um novo paradigma de eternidade e sem direito ao esquecimento. O conteúdo afeta muito mais pessoas, e está a um print de ser eternizado. Um comentário violento basta para a pessoa ser apenas aquilo que comentou, para todas as pessoas desconhecidas dela.

Essa divulgação massiva de Fake News pode desencadear alguma crise em indivíduos ou grupos?

Já desencadeia, e vou citar um exemplo. A notícia falsa sobre o "Kit Gay" teve origem em um projeto verdadeiro que fazia parte de um dos programas do Governo Federal, mas foi completamente manipulada e veiculada de forma paranóica, como perigo para as famílias por uma suposta agenda "gayzista" ligada a uma suposta "ideologia de gênero" que teria o objetivo de impor questões de gênero e sexualidade nas escolas. Tudo claramente arquitetado para produzir um terrorismo social em cima de um assunto tabu. Isso mexeu nos dois lados, é claro. De um lado as pessoas que faziam cegas defesas à família, se voltando até mesmo contra direitos individuais da comunidade LGBT. E do outro, a comunidade LGBT e cientistas pesquisadoras e pesquisadores de gênero sabendo que isso jamais aconteceu, de forma indignada pela dimensão da mentira que continua a circular até hoje.

É possível chegar a uma orientação geral para que a população não seja tão influenciada? 

Afinal, ferir valores como a verdade, em prol de disseminar mentiras, diz só de quem o faz

Lucas Guerra

Hoje diversos portais se uniram para combater notícias falsas, até pactos foram propostos para evitar sua veiculação. Mas o bom senso continua sendo um bom termômetro. Se a matéria não apresenta fontes, se ela faz apelos emocionais de cuidado sobre algum ataque iminente de algum grupo com relação a qualquer assunto tabu que tenha tendência de ser lido e entendido a partir dos nossos sentimentos de raiva, de medo, e que nos coloque contra alguém, esse é um fortíssimo indício de que se trata de uma notícia falsa. Uma notícia verdadeira tende a ser mais imparcial na exposição dos fatos, não dirige perguntas aos leitores que possam ser lidas inconscientemente de modo tendencioso e acusador, como "você já imaginou isso acontecendo na escola dos seus filhos?", ou ainda aquelas que fazem afirmações futuristas, como "eles pretendem destruir todos os nossos valores". Nunca o apelo emocional é um fato. Ele só está ali para manipular inconscientemente nossa tendência de responder pela preservação daquilo que temos como verdades. Como psicólogo, gostaria de salientar que repassar notícias falsas diz apenas da gente, seja porque não procuramos saber a veracidade antes de alarmar de forma mentirosa outras pessoas, seja porque estejamos sendo desonestos quando sabemos se tratar de notícia falsa, e passar adiante. Afinal, ferir valores como a verdade, em prol de disseminar mentiras, diz só de quem o faz.

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Comentários (8)

  • Danny Bueno De Moraes | Sábado, 20 de Outubro de 2018, 11h34
    5
    0

    Acho que ele pensa que é o "John Snow da Psicologia"... O episódio de hoje é: A procura da "Espada perdida"...KKKKK

  • louco varrido | Sábado, 20 de Outubro de 2018, 05h54
    5
    0

    SOCORROOOOO parem o planeta que eu quero descer......................................

  • Julio Santos | Sexta-Feira, 19 de Outubro de 2018, 08h08
    9
    2

    kkk. Cada figura! Sempre soube que os autores das frases em para-choque de caminhão eram gênios. Mamãe me acode!

  • Dornele$ | Sexta-Feira, 19 de Outubro de 2018, 08h05
    9
    3

    Que comuna quer cobrar algo contra Fake News? Quem saber mentir, e mente o tempo todo, são os comunas!

  • Tricolor | Quinta-Feira, 18 de Outubro de 2018, 20h13
    11
    2

    Monaaa! Num to podennndo....!

  • samuel | Quinta-Feira, 18 de Outubro de 2018, 13h55
    14
    6

    Culpa do PT!

  • Joares Ribeiro | Quinta-Feira, 18 de Outubro de 2018, 13h12
    4
    9

    Matérias como essa deveriam ter destaque nesse editorial. Não trocas de farpas entre os que se elegeram antecedendo ou justificando para os que o.apoiaram é para quem , de fato, legislarao.

  • alexandre | Quinta-Feira, 18 de Outubro de 2018, 12h04
    19
    4

    UFMT é Psol e PC do B..

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