ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 07 de Novembro de 2019, 14h:00 | Atualizado: 07/11/2019, 14h:07

Filme só existe quando alcança o público, diz diretor cuiabano sobre democratização

Bruno Bini está prestes a lançar longa e fala sobre a democratização do cinema no país, tema do Enem

Dayanne Dallicani/Arte/Rdnews

Bruno Bini

 

Com o Enem, alguns debates se reacenderam sobre a democratização do cinema no Brasil. Entre eles, questões sociais, municípios sem salas de cinema, tecnologia e novas formas de consumir audiovisual e a valorização do cinema nacional. Em um período fértil de produções independentes em Mato Grosso, o cuiabano, diretor e roteirista do longa-metragem de ficção científica “Loop”, Bruno Bini, respondeu questões pertinentes da realidade de quem atua no cinema e sobre as transformações desse setor nos últimos anos. Bini tem longa trajetória em produções publicitárias, mas há algum tempo se dedica aos curtas e, agora, um longa, que esta semana (antes mesmo de seu lançamento comercial) estará na mostra competitiva do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme é um dos sete selecionados entre 189 inscritos e inflama a torcida e expectativa dos cuiabanos, já que a Capital foi cenário para a trama.

Confira os melhores trechos da entrevista:

O tema da redação do Enem deste ano foi a “Democratização do acesso ao cinema no Brasil”. Para os produtores audiovisuais, qual a importância deste debate em âmbito nacional?

Acho interessante que se debata cultura em qualquer momento e em qualquer plataforma. A produção cultural, além de ser cultura, é um registro histórico da sociedade que a gente vive. Então, sempre e em qualquer oportunidade que a gente tiver pra debater cultura e a produção cultural, eu vou ser super a favor. Sobre a democratização do acesso ao cinema, que é também a vitrine de exibição dos filmes produzidos aqui no Brasil, é também uma questão que sempre protagonizou as discussões. Não há como se investir em cinema se não tivermos meios de exibição para difundir e distribuir essa exibição cinematográfica. Então, ainda que haja divisão dos recursos para a distribuição, não dá para ficar só por nisso. Temos que pensar no audiovisual como uma cadeia.

Qual a importância de tal democratização? Ela está muito longe do ideal?

A distribuição é um dos braços importantíssimos para essa cadeia. Tanto que existem editais para exibição e recursos específicos para sala de rua, mas precisamos considerar que estamos passando por um momento de mudança na forma como se consome audiovisual, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Ela faz parte da democratização. Temos uma queda de números de “salas de rua” e um aumento nas salas de grande cadeia, que são as das redes nos shoppings como Cinemark, Cinépolis e outras. Por outro lado, em Cuiabá, por exemplo, tínhamos o Cine Bandeirantes, que era um lugar que quando eu era moleque freqüentava muito. Além dele, o Cine Teatro que também tinha uma sala para filmes comerciais e outros mais artísticos, e hoje não é mais cinema, é só teatro. Até fazem algumas projeções lá, mas a sala não é preparada para isso e funciona como um quebra galho. Foi outro cinema que fechou por aqui. Vemos isso acontecendo em várias cidades do país. Paralelo a isso, há um movimento de acesso a produção audiovisual mundial e não só no Brasil que é o Video On Demand que funciona a Netflix, iTunes, Icloud Plus, Globo Play e muitas outras. Isso, querendo ou não, acaba tirando a galera das salas de cinema e tem gente que prefere assistir de casa a ir ao cinema. Outra questão, que acredito ser importante para a democratização do cinema, é a manutenção de uma política de fomento as salas em lugares que não se tem acesso mesmo, seja em bairros carentes ou cidades no interior. Existem editais para isso, bem como recursos que podem ser pleiteados. Nisso, volto à questão da importância da democratização, que não é uma discussão nova. É importante que tenha se tornado quente pelo Enem, e por isso há varias ações de fomento e estimulo aos projetos de modernização de salas, reformas e tudo que for mais necessário para que se cumpra o objetivo que é alcançar o público. O filme só existe quando ele alcança o público.

Reprodução/Instagram

Bruno Gagliasso e Bruno Bini

O ator Bruno Gagliasso e o diretor Bruno Bini no set de gravação do filme Loop, que deve ser lançado ano que vem

Essa transformação tem ocorrido de que forma e como ela tem afetado o audiovisual?

Acho que têm duas coisas, uma é reconhecer o status mutável da forma como as pessoas consomem cultura. Hoje as pessoas assistem séries e filmes em celulares. O impacto disso dentro de toda a cadeia produtiva é importante, eu não consigo e gosto da minha telona, e se for para assistir na TV tem que ser uma TV boa e com som bom, porque eu gosto de apreciar o refino do audiovisual, pois as pessoas investem muito para ter um produto de qualidade e, pessoalmente, acho um pecado colocar isso em uma tela de celular. No entanto, as pessoas estão vendo filmes, séries e novelas da tela do celular ou nos tabletes e no computador, e essa é uma forma de democratizar o acesso. Isso me chama atenção porque na hora que vou rodar um plano, preciso também enquadrá-lo nisso. Fora isso, existe uma infinidade de projetos que podem ser realizados seja de cinema itinerante ou de estruturas que podem ser montadas em praças para fazer a apresentação para as comunidades e existem uma infinidade de projetos nesse sentido no país, lógico que a gente quer que tenha mais, porque ainda existe uma discussão que é também muito importante sobre a Cota de Tela - Lei em que se exige a distribuição dos filmes nacionais ao mesmo tempo que se exibe os filmes de outras nacionalidades.

A Cota de Tela de filmes brasileiros nas salas de cinema em MT são cumpridas?

A gente só consome o que conhece e se não há contato do público com a produção nacional, esse circulo vai permanecer. Há sim um preconceito com filmes do Brasil, mas ele ocorre na mesma medida que há filmes sendo reconhecidos lá fora, premiados e um sucesso de críticas em outros países. Tem que dar oportunidade para que as pessoas comprem ingresso do filme nacional, se não tem ingressos e horários, a discussão fica mais perene. Um exemplo recente é o filme Vingadores que ocupou mais de 80% das salas brasileiras e tirou uma infinidade de filmes nacionais com um potencial alto de exibição. Por isso julgo a Cota de Tela fundamental, e ela não existe só no Brasil, mas em outros países e e continentes como no Europeu. É uma questão de preservação do cinema nacional.

Há financiamento suficiente? Falta projetos para melhorar a produção e distribuição no Estado?  Como é o cenário independente em MT?

Existe um esforço, mas pode ser amplificado e a Ancine achou um caminho muito interessante de conjugar as verbas locais com as Federais nos arranjos regionais, que são os da produção. Não tenho certeza se isso também acontece na distribuição, mas seria interessante. Na produção, cada um real dos municípios, a Ancine coloca cinco. Se o município tem um investimento de um milhão, ele vai transformar isso em seis milhões. Isso é maravilhoso e está oportunizando um monte de coisas. A produção local e regional está acontecendo por conta dos arranjos regionais, e esse número interessante de filmes que está se produzindo agora, só existem por conta dos arranjos regionais. Seria muito interessante se mecanismos similares de distribuição acontecessem assim também.

Arquivo Pessoal

Bruno Bini

Diretor cuiabano Bruno Bini posa ao receber o Prêmio de melhor comédia no Internacional Filmmaker Milan do ano de 2015

Segundo levantamento da Ancine, apenas 9 dos 141 municípios de MT tem ao menos uma sala de cinema. O que isso representa? Como mudar tal realidade?

Não tenho essa resposta, mas o cinema não é o único meio de acesso as produções. Tem produtoras em cidades que nem tem salas de cinema, então isso é prova de que ainda que não se tenha a sala, o acesso está fácil de ser realizado.

Falando em MT, você é um nome forte e conseguiu produzir um filme com participação de grandes nomes, como Bruno Gagliasso. Como é produzir cinema no Estado?

Eu adorei ter feito o Loop em Cuiabá, me deu a oportunidade de registrar a cidade que eu nasci na tela, mas tem as dificuldades de produção no audiovisual, que ainda não é como os grandes centros de produção e algumas questões estruturais dificultam, mas é uma delícia filmar em Cuiabá. Estando em contato com produtores de outros locais, vejo que é difícil em todo lugar. Cada lugar tem suas dificuldades particulares. Estamos em um bom caminho e não podemos cair na cilada de questões ideológicas de parar um processo que está funcionando. Ele está concluído, o lançamento comercial dele será no ano que vem.

Neste ano, muito se falou em ataques ao cinema nacional e tentativa de controle do presidente na liberação de projetos pela Ancine...

A justiça já se posicionou de forma muito clara em relação a algum filtro ideológico e o edital que foi paralisado já tem uma preliminar para que seja concluído. Não cabe mais discussão e está claro que a produção cultural não permite esse tipo de filtro, e o maior filtro é se as pessoas vão ou não consumir algum produto cultural. Acho que esse é o maior filtro e o único que deve ter.

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