ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 10 de Maio de 2018, 10h:00 | Atualizado: 10/05/2018, 10h:45

Historiadora dedica vida à causa indígena, após imersão em aldeias das Américas

Karina Aparecida Geraldo é jovem, mas aos 32 anos soma intensas vivências devido ao contato com mais de 35 grupos indígenas dentro e fora do Brasil. Desde muito cedo, enquanto ainda era estudante do curso de História na Unemat, em Cáceres, se apaixonou pela diversidade das aldeias. Trancou o curso e foi viajar a América Latina, imergindo nas culturas da Colômbia, Venezuela, Argentina e Bolívia para ampliar seu conhecimento. Se encantou tanto pela Bolívia que desenvolveu pesquisa com o cenário social deste país e tratou sobre o nascimento do preconceito dos povos camba contra os colha na região. Terminou a faculdade e passou a se dedicar cada vez mais às causas indigenistas. Sua especialização é em Educação das Relações Étnico-raciais no contexto da educação de jovens e adultos, com essa bagagem também atua no Cefapro, atualmente, com ênfase em cursos para professores da rede pública no município de Várzea Grande e toda baixada cuiabana, afim de ampliar o leque dos educadores para a diversidade, inclusive, no tratamento e escolaridade para indígenas. Ao todo, são 12 anos na trajetória contra o preconceito e pela causa de grupos em vários cantos do mundo. Confira os melhores trechos da entrevista.

Reprodução

Karina Aparecida

Com anos conhecendo de perto diversas aldeias, Karina Aparecida dedica sua vida acadêminca e profissional a questão dos povos indígenas das Américas

Karina, como tudo começou? Como você se apaixonou pela causa indígena e porque se dedica a elas há tanto tempo?

Me apaixonei pelas questões indígenas quando ainda estava na Universidade (Unemat), que tem um viés indígena. Nesse processo eu tranquei o curso de história e fui dar uma volta pelas Américas e, por meio disso, eu tive contato com vários grupos, tanto na Bolívia, Colômbia, Venezuela, Argentina. O amor que fui criando foi ficando muito maior. Voltei a Cáceres, terminei o curso de História, e passei em um concurso público para Nova Xavantina. Quando cheguei lá, comecei a dar aula em uma escola que atendia um grande grupo de Xavantes. Como eu via que esse grupo era muito discriminado dentro da cidade e dentro das escolas que trabalhava, comecei então a desenvolver projetos para falar a respeito da cultura xavante A'wẽ Uptabi. Paralelamente comecei a desenvolver um projeto com uma amiga da mesma área, o Praça Viva Cinema Livre. Nesse projeto nós levávamos o cinema indígena pra dentro das praças públicas de Nova Xavantina. Desde então, comecei a ir mais ainda as aldeias, fiz vários trabalhos com os A'wẽ Uptabi, que é como eles se denominam.

Como funciona seu trabalho? Como você contribui ativamente na vida dos indígenas? 

Resolvi prestar um seletivo para educação escolar indígena do Cefapro de Primavera do Leste. Depois de ter passado um pouco a conviver com esses grupos, percebi que quatro anos na faculdade e outros estudos, a gente percebe que o universo deles é gigantesco. Por isso, bato firme na tecla, dizer que índio é tudo igual é uma ignorância absurda, seja nas mais de 180 línguas, nas pinturas corporais, histórias, formas de cultivar ou viver. Quando passei na seletiva em Primavera fui atender treze grupos diferentes, a partir disso todos meus artigos na universidade já haviam sido construídos dentro dessa área. Desde a faculdade, meus projetos de pós-graduação, mestrado e minhas vivências se deram a partir destes contatos, principalmente, porque, como professora, via a necessidade de dar uma resposta pra sociedade. Me formei em universidade pública, estudei em escola pública e se não fizesse algo para contribuir com a sociedade, eu não estaria cumprindo com aquilo que recebi, que foram anos de educação pública. Contei com muitos parceiros de algumas Ongs e da Funai, Sesai e Casai, pessoas que estavam lutando também, muitas delas indígenas e fico muito agradecida por ser aceita nas aldeias.

Quais foram suas experiências mais marcantes e principais contrastes culturais com estes grupos em Primavera do Leste? Por quê?

Cada um com uma língua diferente e isso é fantástico, a maioria deles, fala português

Em Primavera do Leste eu passei a ter contato direto com o Alto Xingu, e é muito complexa a cultura deles. Passei vinte dias com 150 indígenas, e cada aluno era de um grupo. Cada um com uma língua diferente e isso é fantástico, a maioria deles, fala português. Dentro das aldeias, não é todo mundo que fala português e os que falam geralmente são homens. Nessas comunidades indigenas, uma forma de controle que os homens tem sobre as mulheres é a língua, a maioria das sociedades indígenas que eu conheço são muito machistas, eles controlam muito a mulher. O medo dessas mulheres saírem das aldeias e irem para a cidade é muito grande, então a língua funciona como o instrumento de controle. Em maior parte [das aldeias] as meninas não estudam, eles mandam os meninos para a cidade e por isso é muito difícil encontrar uma menina que tenha mestrado ou doutorado. A maioria que tem ensino médio e outras graduações é homem, pois são eles que recebem a permissão para saírem das aldeias e as mulheres funcionadas aos serviços de roça ou de cuidar das crianças, plantio. Na nossa visão como sociedade ocidental isso é machismo, mas na visão deles não. Por isso as mulheres também vêem isso como parte da cultura. Na Bolívia as sociedades indígenas não são patriarcais, são matriarcais, a mulher é quem manda.

Por que acredita que culturalmente estas atividades foram divididas aqui no Brasil, inclusive, as tribos patriarcais?  

No Brasil, os grupos indígenas não viviam em paz ou em harmonia antes da chegada dos colonizadores. Haviam terras por território, haviam brigas e escravidão entre alguns grupos, guerra por tomada de território, como aconteceu entre xavante e karajá, e assim o mesmo com muitos outros grupos. Por isso, acredito que houve muita relação com territórios, as divisões dos grupos foram feitas a partir disso, antes mesmo da chegada do colonizador. Porém não podemos esquecer, por exemplo, que as mulheres na cultura xavante não tinham voz política nenhuma, mas de uns 20 anos para cá, estão ganhado força e voz dentro das comunidades xavantes, se tornando caciques. O que era quase impossível de se acontecer. Como toda cultura ela está mudando.

Mário Okamura

Karina Aparecida

Karina Aparecida relata que enfrenta resistência por diferença cultural e pele branca

Você é uma mulher branca e de olhos claros, recebeu algum tipo de resistência destes grupos ao tentar se inserir e contribuir de alguma forma? 

Quando você é branca de olhos claros não é fácil se inserir, você recebe uma resistência, são pessoas que cruzam o meu caminho que resistem muito. Acham e dizem assim, “mais uma patricinha querendo pagar de ativista”, mas, quando a gente vai mostrando nosso trabalho, desenvolvendo projetos, mostrando comprometimento, a gente vai também ganhando aliados, parceiros. Dentro das aldeias é isso o que acontece, pois o contato ainda é muito difícil entre o não-indígena e o indígena. Existe uma resistência por tudo que estes grupos já passaram e sofreram ao longo da história. Assim, já somo dose anos de dedicação às causas indígenas.

Quais das culturas te chamaram mais atenção e o que você tem desenvolvido de pesquisa em relação a elas?

Meu mestrado é sobre a Bolívia, tenho um grande amor por aquele país. Meu projeto é sobre as guerrilhas ali desenvolvidas, quando se iniciou os movimentos indigenistas. Eu sempre digo que a Bolívia é, realmente, outro país. Ela não é como sairmos daqui e irmos para a Argentina, porque Brasil e Argentina ainda tem muitas semelhanças. Na Bolívia, por exemplo, se elegeu a primeiro presidente indígena do planeta. Os bolivianos se apropriaram do conceito do que é ser indígena, e eles partiram do movimento indigenista. Antes disso, o meu TCC foi sobre a Bolívia e sobre o nascimento do preconceito do camba contra o colha. O Kamba, na verdade, é aquele descendente de espanhol com o branco, que adotou um discurso racista contra aqueles chamados de colha, tratados como inferior. Os colhas são os aymara e os quechua, e existe uma guerra muito grande na Bolívia quanto a isso. Minha especialização está ligada a questões étnico raciais, fiz uma análise nos livros didáticos de uma determinada escola de Primavera do Leste, para saber como tem sido a aplicação da Lei que garante o ensino da educação escolar indígena e da educação afrodescendente para os alunos da Eja, pois, infelizmente, nós ainda não temos as escolas trabalhando com essa questão. De dez escolas, apenas uma trabalha com isso. Não há um cuidado ou um planejamento dessa aula, sem falar que temos uma dificuldade muito grande de trabalhar com os professores não indígenas. Já tive vários problemas, dificuldade de um olhar mais humano para os alunos indígenas.

Como funciona seu trabalho na Cefapro de Cuiabá e Várzea Grande? Quais são os desafios?

No Cefapro nós trabalhamos principalmente fornecendo cursos aos professores da rede pública do Estado. Em Cuiabá, trabalho na área da história, em Várzea Grande e toda baixada cuiabana (mas como a demanda é grande nós não conseguimos atuar só em uma área) para os professores melhorarem o desenvolvimento deles em sala de aula. Com essas questões, a indígena, por exemplo. Sempre levo aos professores a diversidade de culturas indígenas que nós temos em Mato Grosso, para não reproduzirmos aquele velho esteriótipo, pois todos os indígenas tem suas culturas específicas. Quando estava na sede de Primavera do Leste trabalhava diretamente com os professores indígenas, já que a maioria deles não tem universidade. Estes professores fazem um magistério intercultural realizado pela Seduc e, a partir disso, começam a dar aulas dentro das universidades, pra evitar que tenham professores brancos dentro das aldeias, dando aulas para as crianças indígenas. Todos eles tem uma língua diferente, assim como um processo de ensino, fórmula matemática diferenciada, pinturas corporais diferenciadas, números diferentes, formas de construir suas casas, forma de tratar suas crianças. Então nosso trabalho é, além de levar o que o Estado pede das orientações curriculares de Mato Grosso, fazer o professor entender que existem muitos grupos indígenas diferentes. Para que ele tente construir no seu processo escolar uma visão mais cidadã do que é o povo brasileiro.

Reprodução

Karina Aparecida

Karina Aparecida, que já teve contato com  35 grupo indígens, durante acompanhando aula

Qual o tipo de preconceito já percebeu e o que você conseguiu fazer a respeito?

Já tive caso de que uma professora disse, “se índio quer escola que ele fique na aldeia, se ele vem para cá ter escola de branco, ele tem que aceitar a escola do jeito que ela é, e não a gente aceitar ele do jeito que ele é”. Então, precisei pegar a Constituição Federal e ler o artigo 5º para ela e colocar que todos somos iguais perante a Lei. Todos temos direito de aprendizagem. Um dos maiores problemas é que não temos professores ainda que são formados nessas áreas e as universidades dão uma formação muito crua. Este é o papel do Cefapro, fazer que este professor tenha uma formação contínua e entenda melhor esse processo. Que ele, no dia a dia, tenha idéias teóricas e práticas. Assim, a aprendizagem que o estudante tem será melhor.

Com quantos grupos indígenas já teve contato?

Já tive contato com cerca de 35 grupos indígenas. Vivi por mais tempo, seis meses, com os Guaiu na Colômbia, dentro da selva e fronteira com a Venezuela. Lá eles são arawak. Temos arawak também aqui no Xingu, acho isso uma coisa fantástica. Depois deles, os grupos que tive mais convivência foram com os xavantes, depois os Aymaras e muitos outros que tive as melhores experiências da minha vida. Em Nova Xavantina, onde passei quatro anos, os xavantes me indicaram a um cargo na Funai. Fui a primeira mulher a assumir um cargo dado por eles.

Com tudo o que já aprendeu e ainda pode aprender, o que acredita faltar para que as pessoas parem de ter tanto preconceito contra os indígenas?

Poderia viver em cada aldeia cem anos e seria pouco para estudar tudo o que eles tem. É muito complexo o universo deles. Por mais que a gente viva e estude, tenha contato, nunca iremos conseguir falar tudo que é necessário. Ouço a reprodução de discursos ignorantes como “para quê índio quer terra?”, mas ninguém questiona o motivo pelo qual Blairo Maggi, sozinho, quer tanta terra. Agora, o povo discute porque uma aldeia com 450 pessoas quer terra. Em que a terra serve para o índio tirar a palha que irá construir suas casas, fazer seus artesanatos. Essas discussões nós levamos para dentro das escolas na busca de fazer com que os professores comecem a quebrar este preconceito.

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