ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 07 de Fevereiro de 2019, 13h:14 | Atualizado: 08/02/2019, 13h:13

Humor genuíno debocha dos opressores e não do oprimido, diz ator cuiabano - leia

Finalista até em Hollywood, Eduardo Butakka afirma que realidade da classe é penosa e falta incentivo

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Eduardo Butaka

 

Com personagens que dão o que falar como a sexóloga Penélope, a professora Geisa ou a ingênua Janayra e a megera Liegy, Eduardo Butakka sempre abrilhantou os palcos e, aos poucos, invade as telas do cinema independente. Além de ator, professor de teatro, diretor e roteirista de diversos trabalhos culturais dentro e fora de Mato Grosso, em 2017 Butakka foi selecionado entre mais de 5 mil candidatos para participar do Prêmio Multishow de Humor. No mesmo ano, estreou seu espetáculo solo “Se perguntarem, não fui eu!”. Em territórios estrangeiros, por conta de trabalhos divulgados na internet junto ao coletivo Não Convém, o qual faz parte, já soma cinco premiações de renome. Com percepções aguçadas de como fazer humor, atrelando os personagens nas redes sociais, o artista acredita que a cultura regional atravessa fronteiras com formatos modernos e que ele aposta cotidianamente mostrando seu potencial.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Em sua opinião, quais são os principais elementos para se fazer arte com humor?

O humor como forma de se expressar artisticamente é uma ferramenta poderosa. A comédia desarma as pessoas para receberem a mensagem que se quer passar. Porque sim, sempre existe uma mensagem por trás de toda piada. A primeira coisa que penso, quando vou contar a minha piada, é na mensagem que quero passar. Depois, na forma como vou entregar essa mensagem. O humor não é a mensagem em si, mas a forma como essa mensagem é entregue. Eu sempre imagino o humor sendo aquele carteiro engraçado e espontâneo que entrega a correspondência dentro do prazo na casa das pessoas. Com a diferença de que o humorista escolhe quais mensagens ele quer entregar. Humor é espontaneidade, originalidade e pontualidade.

Existe um debate intenso sobre os limites do humor e isso tem se discutido muito no decorrer dos anos. O que você acha disso? Como fazer humor sem ferir a liberdade alheia?

É difícil discutir o "limite do humor". Acho arriscado, porque abre brechas pra se discutir "o limite da arte" e logo vem à patrulha do "politicamente correto" querer definir o que pode ou não ser feito. O que é ou não arte. Quando vemos, estão fechando museus, teatros e queimando livros. Acho isso o fim. Então, vou falar apenas por mim. O meu limite são as minorias. Procuro não fazer piadas que ofendam, principalmente, mulheres, negros, homossexuais, pessoas com deficiência ou obesos. Porque são grupos de pessoas que já sofrem demais na sociedade. Em minha opinião, o comediante precisa ter em mente que o humor é poderoso e não pode ser usado para diminuir ninguém. O humor genuíno debocha das autoridades opressoras e não do povo oprimido.

Quais as principais diferenças do humor feito no teatro e o humor para o cinema?

Eu sou um ator de teatro que tem se aventurado no cinema. Então, a sétima arte ainda é uma novidade pra mim. A principal diferença está na intensidade das ações. A grosso modo, o teatro é mais expansivo, exagerado. O cinema é mais contido. Tem uma explicação que no teatro as pessoas precisam enxergar os atores à longa distância. Isso vem do Teatro Grego. No cinema não, a câmera ta em close no seu rosto e tem um microfone pra captar até sua respiração. São linguagens diferentes, mas que partem do mesmo princípio.

Arquivo Pessoal

Eduardo Butaka

Eduardo Butakka e Thiago Mourão com premiação de melhor filme para web e novas mídias no Calcutta International Cult Film Festival, na Índia

O que acredita ter de regional nas suas peças ou nos filmes que você participou?

Sempre que me perguntam isso, eu respondo que tem eu. Eu sou regional. Sou daqui de Cuiabá e vou continuar sendo. Mesmo que eu vá pra Índia, não posso fugir da minha essência, daquilo que sou. Eu nunca escrevi nada para o teatro ou cinema pensando em ser regional. No entanto, ta sempre lá o sotaque, as nossas paisagens, o nosso cotidiano. Eu não me preocupo em ser regional, por causa disso. Para mim é inevitável.

Em seu ponto de vista, qual a realidade da classe artística e cultural em Mato Grosso?

Temos muitos artistas em Mato Grosso, mas temos poucos que vivem exclusivamente da arte. Falta incentivo, falta fomento ao setor, falta criar e fortalecer um mercado sustentável. Quais programas hoje, por exemplo, oferecem financiamento para um artista montar seu show? Se você quiser financiamento pra comprar um carrinho de cachorro quente, por exemplo, você consegue, mas para um trabalho artístico é mais difícil, porque existe um imaginário de que arte não gera renda. Os únicos apoios que existem nesse sentido são das leis de incentivo à cultura e de editais culturais que, comprovadamente, retornam para os cofres públicos o valor investido, além de girarem a economia promovendo emprego e renda. Entretanto, ainda é forte no imaginário das pessoas que investir em arte é dar dinheiro de mão beijada pra artista. As pessoas adoram comparar o Brasil com outros países, como os EUA, por exemplo. Quando você propõe o exercício de se comparar o quanto os EUA investe no cinema e nas artes, por exemplo, essas mesmas pessoas desviam o discurso. Penso que os artistas precisam se unir cada vez mais. Organizarem associações, cooperativas e criarem seus coletivos. Precisam também eleger artistas para representarem a classe na política. Só assim a arte vai ser levada a sério em nosso estado e país.

O que dá aos trabalhos do Não Convém, em sua opinião, a chance de ser compreendida pelos estrangeiros? O que a tornou universal?

Tratamos de assuntos que vão do cotidiano a crítica social

Eduardo Butakka

O Não Convém é todo feito por gente daqui de Mato Grosso. Todos os atores, se você reparar, possuem sotaque naturalmente. A gente não tenta nem acentuar e nem omitir isso. É nosso. Essa é uma das características regionais dos nossos vídeos, além das paisagens cuiabanas que acabamos exportando com nossos vídeos. Nos festivais internacionais, era sempre uma surpresa ver Cuiabá como uma cidade tão urbana. Eles imaginavam outra coisa, mais selvagem eu diria. O que faz da nosso humor universal é a linguagem que usamos. O riso é uma linguagem universal. Todos se entendem por meio dele. Tratamos de assuntos que vão do cotidiano a crítica social, porque a liberdade artística também reside nisso, em poder falar sobre tudo, inclusive sobre nada.

 Você e o Thiago Mourão foram premiados recentemente na Índia, mas antes disso foram também finalistas em outra premiação em Hollywood. Como tem sido essas experiências internacionais?

Eu e Thyago temos uma história antiga de criação juntos. Começamos no teatro e já são quase 15 anos de parceria. Primeiro, recebemos a notícia de que "Sombras", nosso curta feito para o coletivo Não Convém, era finalista em Hollywood. Fizemos as malas e fomos lá, mesmo sem a intenção de vencer. Resultado, voltamos com o troféu. Depois, "Quem é Vanessa?" outro episódio do Não Convém, venceu um prêmio na Índia que o qualificou pra grande final do Golden Fox Awards. Pensamos de novo "Vamos?". Fizemos campanha na internet, fizemos peça no teatro, levantamos a grana e fomos. Vencemos lá também. A sensação é indescritível. Para nós é a chancela não só de um vídeo, mas de todo um trabalho de anos. O prêmio vem já desde quando o filme é exibido e a gente presencia a plateia rindo, se identificando, mesmo numa cultura oriental tão diferente da nossa. Quando o troféu vem, disputando com países do mundo todo, sinceramente, o sentimento é de que valeu a pena. Porque é isso. Ser artista é um trabalho penoso. Mas, como disse Pessoa: "tudo vale à pena se a alma não é pequena".

Qual a sensação de mostrar seu trabalho no exterior e quais são os próximos planos? Tem mais trabalhos em andamento?

Fizemos muitos contatos e voltamos cheios de planos e ideias. Rolou até uma sondagem para uma possível parceria em uma co-produção indo-brasileira.  No cinema, estamos atrás de recursos para financiar um novo projeto, de curta maior, com cerca de 15 minutos de duração. No teatro, em março, eu volto com meu espetáculo solo de humor "Se perguntarem, não fui eu!", em que eu interpreto até seis personagens. Em junho, estreamos o espetáculo "Loucos de Amor", que é uma peça baseado no casal do curta premiado na Índia. Seremos só nós dois em cena, interpretando o casal. Estamos muito empolgados com essa peça. Estamos também com o projeto de transformar nosso espetáculo de humor que já tem 12 anos, "Segredos de Liquidificador" em livro. Em um cenário nacional de instabilidade, a única certeza que temos é de que não vamos parar.  Somos resistência e o país precisa de arte.

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Comentários (1)

  • Vera | Sexta-Feira, 08 de Fevereiro de 2019, 14h05
    1
    1

    Parabéns e todos os envolvidos, Não Convém, não pode parar...vamos lá garotada...rodar o mundo...Sucesso sempre...vocês são o orgulho e futuro do Nosso País.

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