ENTREVISTA ESPECIAL

Sábado, 08 de Agosto de 2020, 08h:03 | Atualizado: 10/08/2020, 12h:55

Ícone do underground em MT, Dog fala sobre críticas e importância do Cavernas

Dog, dono de bar famoso da Capital, fala da paixão pelo rock e desfios para manter estabelecimento

Dayanne Dallicali/Arte/Rdnews

Dog Cavernas Bar

Criado na roça e sem energia elétrica, Valdivino teve o primeiro contato com o rock aos 13 anos, quando ainda não era conhecido como “Dog”. Ele ganhou uma fita cassete dos Titãs que recebia o nome de “Cabeça de Dinossauro”. Era o ano de 1988 e seus amigos da escola gostavam de ouvir no seu toca-fitas danças da época, o que não havia lhe despertado interesse. Desde então, ele começou a buscar músicas do gênero e fazia suas próprias coleções de fitas, vídeos e outras relíquias da época, se sentindo diferente da maioria. Quando ficou mais velho, trabalhou em bares e cultivava o sonho de ter o próprio bar, mas não qualquer bar, queria um bar underground. Em 2001 reinaugurou um espaço de rock em Barra do Garças, mas mudou para Cuiabá em 2004, onde se manteve com a proposta e pode receber bandas de renome mundial, como a Vulcano e muitas outras. Em entrevista ele conta que a trajetória foi cheia de desafios e que o segredo é gostar do que faz. Quem passa em frente ao Cavernas Bar, na avenida Barão de Melgaço, mesmo que nunca tenha entrado no local todo pintado de preto, faz comentários, e eles variam de “credo” ou com imitações do grito de guerra do Capitão Caverna, símbolo da logomarca do bar.

Veja os principais trechos da entrevista gravada de forma remota:

Como começou a carreira de empreendedor e o que te fez imaginar se tornar dono de bar? Especialmente, um bar de rock?

Eu já trabalhava em bares antes de vir para Cuiabá, mas sempre tive vontade de ter o meu próprio. Pensei que pudesse montar meu bar de rock e, enquanto estava em Barra do Garças, uns amigos abriram um bar, mas depois fecharam. Nisso, algum tempo depois, vi a possibilidade de reabri-lo. Foi aí que procurei um amigo meu, o Allan, a gente fez uma parceria e mantemos a sociedade por uns oito meses, mas quando começou a faculdade ele começou a ter pouco tempo, continuou me ajudando em outros termos, mas não era mais sócio. Continuei sozinho. Em 2004 tive a ideia de expandir, deixando o bar de Barra aberto, mas ele foi a falência. Eu continuei com o bar em Cuiabá, esse mesmo que foi aberto em 29 de maio de 2004, e estamos aqui até hoje.

Reprodução

Dog Cavernas Bar

Dog em entrevista remota à jornalista Mirella Duarte, em que conta sua história e fala da importância do Cavernas Bar para cenário underground 

Não deve ser fácil manter uma proposta tão diferenciada em um lugar do Brasil onde, por exemplo, o sertanejo é o ritmo mais ouvido. Qual acredita ser o segredo para manter as portas abertas nessas quase duas décadas?

Nunca foi fácil, o rock and roll é uma vertente que de certa forma é um pouco discriminada. Em relação as dificuldades que sempre tive, sempre encarei, pois quando abri um bar nessa vertente, eu já compreendia que não seria fácil. O segredo é gostar do que faz e, realmente, ter no sangue. Não adianta tratar como um comércio normal, porque não vai, um bar de rock é encarado de forma bem diferente dos bares convencionais. Já tive épocas boas, mas volta e meia aparece uma época ruim. Já tive que fechar as portas por medidas arbitrárias, é um comércio, preciso vender, mas os bares que fecham não tem a mesma pegada, acho que o segredo é gostar do que faz.

Acredito que seu bar já seja conhecido até por quem não o frequenta. Além da localização, ele também tem uma decoração bastante chamativa. As pessoas olham de forma estranha para o local? Para você? Já aconteceu algo que possa contar?

Acontece toda hora. Aqui escuto frases de todos os tipos quando estou de portas fechadas. Algumas coisas engraçadas e outras meio escrotas. As engraçadas eu preservo e as inúteis eu apago. Comigo, na rua os olhares são sempre esquisitos, mas também já acostumei com isso. Sobre meu apelido ser Dog, é mais os amigos que fazem piada mesmo, os que não conhecem não tem coragem.

Entre os boatos, dizem que no fim do ano vocês assam um bode na porta do bar, é verdade?

Nunca fizemos não, mas dá vontade. Esse ano não vai dar por conta da pandemia, mas ano que vem a gente faz (risos).

Qual acredita ser a importância do bar para a cena underground?

Vou reproduzir o que as pessoas me falam, porque acabo entendendo através deles. A galera sempre apoiou bandas novas, outras que estão na estrada e mais algumas que saem para turnês. Eu abro esse espaço pra essa galera passar por aqui. É meio que um refúgio, né? A galera que não se sente bem nos bares covencionais, aqui se sente mais a vontade e com liberdade. O Cavernas tem sim um grande valor na cena, muitas bandas de todo o Estado tocaram pela primeira vez aqui. Bandas do Brasil e mundo todo já passaram por aqui.

Talvez as pessoas tenham preconceitos sobre o bar. No entanto, já percebemos que não há nenhuma informação sobre violência no bar. O que dizem também é que dentro do bar você não permite o consumo de drogas, além das lícitas, claro. Como avalia isso?

Em relação a briga, nunca teve briga feia mesmo, só briga de bêbado. Sempre que se inicia uma confusão tem a galera que evita. Com relação a drogas, as pessoas usam drogas até dentro da igreja, usam em qualquer lugar. Eu sempre fiz o máximo possível de esforço pra aqui dentro não acontecer esse tipo de coisa. Tem uns probleminhas da galera achar que por ser um bar de rock é "legal" né. Eu mesmo sou um cara careta, bebo muita cerveja, mas drogas ilícitas não. Não discrimino ninguém que usa, lógico, cada um faz o que quiser fazer. Mas na minha casa eu evito que aconteça.

Você mora dentro do seu bar. Ao mesmo tempo sempre atuou com horários de funcionamento específicos, mesmo agora, que está apenas com o delivery ativo. Como faz para administrar isso?

Você deve ter percebido que to tomando minha cervejinha agora, né? Porque hoje eu resolvi tirar uma folga. Semana passada eu tirei uma também, mas estava desde o mês de março trabalhando todos os dias. No geral, eu não bebo antes de trabalhar, primeiro faço todas as minhas obrigações, depois que se encerra meu expediente, aí eu bebo.

Como tem se reinventado na pandemia? Como ela tem sido para você? Pretende reabrir o bar com a liberação pelo novo decreto da prefeitura?

No início achei que não fosse resistir, imaginei que até três ou quatro meses isso se resolveria. Hoje a gente sabe que vai demorar e não faz nem ideia de quando vai acabar. Eu cheguei a reabrir o bar, fiquei seis dias com o bar aberto, e fiquei com remorso. Vi que aquilo não estava certo e não tinha condições nenhuma de manter um estabelecimento onde você não tem como usar máscara bebendo cerveja ou comendo. As pessoas querem encontrar os amigos, mas cada um tem sua família. Com quatro pessoas na mesma mesa, se um tiver infectado, contamina os outros e depois eles vão para suas casas e infectam suas famílias. Foi então que a minha consciência pesou e fechei o atendimento no local. Não faz sentido reabrir bar em uma pandemia, com o número de casos só aumentando. Amigos criaram uma vaquinha virtual, o que tem ajudado, pois eu mesmo não tomaria essa iniciativa. Com isso me sinto mais confortável com a ideia de não reabrir o bar. Acho uma irresponsabilidade reabrir no meio de uma pandemia. Quando voltar ao normal vou estar com anos de dívidas, mas espero viver mais alguns desses anos para pagá-las.

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Comentários (7)

  • Leon | Domingo, 09 de Agosto de 2020, 23h30
    6
    0

    Longa vida ao bar mais honesto, íntegro e autêntico de rock e derivados que já existiu nesta cidade! Lutaremos sempre que possível pela preservação deste espaço, que já figura há tempos como um patrimônio coletivo. Hail!

  • Ricardino Martins | Sábado, 08 de Agosto de 2020, 22h31
    6
    0

    Dog, parabens.. fica frio, vcs sao igual time grande (São Paulo e mais uns dois aí, Kkk): não caem nao! vamos arrumar um jeito de até junto nessa vaquinha aí.

  • Wagner Leria | Sábado, 08 de Agosto de 2020, 21h05
    9
    0

    Um bar Underground que faz parte da cena há 16 anos dispensa qualquer comentário. Parabéns Dog!

  • Luis | Sábado, 08 de Agosto de 2020, 19h15
    7
    0

    É cavernoso mas é legal. É único

  • Jango | Sábado, 08 de Agosto de 2020, 13h41
    13
    0

    Brother quero parabenizar a sua pessoa, por pensa na minha pessoa e não olhar somente para o umbigo. Fica a dica o caráter não se mede pelo clero...

  • Patrício primo | Sábado, 08 de Agosto de 2020, 13h08
    19
    0

    Exemplo do underground cuiabano, pessoa íntegra, honesta, grande ser humano e ativista em defesa das minorias. Vida longa ao Dog e ao Cavernas. Parabéns a todos pela entrevista.

  • Takaoka | Sábado, 08 de Agosto de 2020, 09h39
    10
    0

    o bar de rock mais legal de Cuiabá

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