ENTREVISTA ESPECIAL

Sábado, 04 de Julho de 2020, 08h:02 | Atualizado: 04/07/2020, 17h:04

Infectologista questiona kits-Covid: não há medicamento cientificamente eficaz

Márcia Hueb afirma que mortes poderiam ter sido evitadas se tivéssemos rumo certo desde o início

Dayanne Dallicali/Arte/Rdnews

M�rcia Hueb

Márcia Hueb, médica infectologista e professora da UFMT desde o final da década de 80, se dedica firmemente ao seu campo de estudo e, com muita convicção, acredita no potencial das pesquisas para o combate ao novo coronavírus. Um fato que a médica e pesquisadora explica é que ainda não há uma "salvação milagrosa" e nenhum medicamento ainda tem eficácia comprovada no tratamento contra a Covid-19. Cada caso deve ser tratado como único e por equipes especializadas, desde a consulta até eventual internação. A distribuição de kits, em sua opinião, é bastante questionável. Ela, que também atua como supervisora do programa de residência médica em infectologia, salientou, em entrevista, que o vírus que assombra o mundo tem se mostrado de forma surpreendente até mesmo aos ciêntistas. Ela ainda revela que, sem dúvidas, a flexibilização do isolamento em pleno crescimento de casos de contaminação em Mato Grosso, foi o principal erro do poder público. Profissional renomada, Márcia pontua que é preciso continuar as regras de isolamento, além do uso de máscaras, já que o pior da pandemia ainda não chegou em terras mato-grossenses.

Confira os melhores trechos da entrevista gravada de forma remota na quinta (02) passada:

Muitos prefeitos em MT começam a distribuir o chamado Kit-Covid. Na Capital, por exemplo, o kit anunciado é composto por Azitromicina, Ivermectina e/ou antialérgico. Tais remédios são realmente benéficos ao tratamento inicial?

O tratamento médico deve ser particularizado, jamais ser na medida de um protocolo que cria um kit a ser distribuído para todos sintomáticos (pois podem estar com a Covid-19 ou outra doença qualquer) e, muito menos, para pessoas que não tem sintomas, como uma forma de se prevenir da doença. Esses medicamentos não previnem. A Azitromicina é um antibiótico usado em algumas circunstâncias e deve sempre seguir a avaliação médica. A Ivermectina é um medicamento para vermes, que é usado largamente, mas não existe evidência científica de que traga algum benefício para evitar ou tratar. A distribuição é uma forma de substituir o certo pelo errado. Substituir a necessidade de assistência médica. Estão dando um kit como se estivessem resolvendo o problema, mas não estão (saiba mais no vídeo abaixo).

Reprodução

M�rcia Hueb

Durante entrevista remota com os jornalistas Mirella Duarte e Airton Marques, médica infectologista Márcia Hueb fala sobre evolução da Covid-19

Em alguns municípios os prefeitos também incluíram a cloroquina e hidroxicloroquina, medicamentos bastante questionados. Há uma orientação para o uso ou não deles?

A cloroquina e a hidroxicloroquina foram também elevadas a categoria de medicamentos com comprovação para o tratamento para Covid-19. Mas, o que se viu é que não é verdade. O que acontece é que algum trabalho de laboratório mostra uma ação que pode ter no vírus e, depois, em vários outros estudos, mostra que a cloroquina não conseguiu um benefício. Não impediu que paciente fosse a óbito ou para um respirador. Alguns estudos mostram que com a cloroquina se pode ter alguns efeitos colaterais, inclusive arritmias cardíacas, o que pode ser um problema para o paciente grave. Infelizmente, existem médicos indicando na fase precoce, mas não existe nenhuma comprovação que isso funcione. Tal indicação continua sendo baseada numa opinião própria e não na ciência. Hoje, o melhor tratamento é ser assistido por uma equipe médica, na fase necessária. Forma moderada: uma consulta e até alguns medicamentos. Forma grave: dentro em um hospital, sendo assistido por equipes competentes, e com alguns medicamentos dados na hora certa. Jamais na forma de distribuição de kits - que alguns vem se promovendo com isso.

Nesse período de muito questionamento da ciência e conhecimento, o tratamento da Covid acabou virando discurso político e ideológico. O próprio presidente questiona a comunidade cientifica e indica o uso da cloroquina e o não isolamento social. A senhora acredita que a politização da pandemia acaba matando mais pessoa?

Isso é certo. Se nós tivéssemos seguido um caminho certo desde o início, com uma coordenação mais centralizada e assessorada por técnicos e pesquisadores (não teria morrido tantas pessoas). Esse tipo de norte seria excelente para lidar com realidade de cada Estado e município. Toda a politização (que é deixar que a política fale mais alto do que o aspecto técnico/científico), vai interferir negativamente, não importa de que lado da política venha. Não pode ser dessa forma. Temos que confiar na existência daqueles capazes de nos orientar, para que não fiquemos no escuro, como se estivéssemos navegando sem uma bússola. Com certeza, o que tivemos de ausência de coordenação, fez com que a população não aderisse as orientações de isolamento (única maneira que nós temos de reduzir a velocidade do crescimento de casos e, consequentemente, conseguir atender as pessoas.

Em junho, Mato Grosso tornou-se o epicentro da pandemia no Centro-Oeste. Apesar de não ter a maior população, o maior número de mortes concentra-se no estado. Até essa sexta (03), foram 19.540 casos confirmados e 741 mortes. Onde a população e, principalmente, os gestores públicos, erraram até então, para que chegássemos ao colapso?

Nosso maior erro foi flexibilizar as medidas de isolamento social em plena subida dos números de casos. Quando há a flexibilização, se permite que mais pessoas estejam nas ruas, aumentando a taxa de reprodução do vírus. Então, se uma pessoa iria infectar mais uma, ela passa a infectar três. Cada um desses vai infectar mais outros três. Mesmo que 90% vá evoluir bem, teremos 10% de pacientes que vão precisar de assistência especializada. Se não tem suporte necessário para isso, entramos na situação de agora, em que, mesmo com judicialização, não existe onde internar. Temos uma fila de dezenas de pessoas esperando leitos. O principal erro foi: flexibilizamos na hora errada. Provavelmente por pressões e não por uma avaliação técnica. O segundo erro é a falta de testes. Quando não se testa um número significativo de pessoas, ficamos ainda mais à deriva. Não estamos isolando, nem testando. Conhecemos apenas aqueles casos que já chegam na unidade, pois precisa de atendimento. Conhecemos apenas a ponta do problema.

Um estudo da UFMT divulgado em junho, aponta que MT atingirá o pico de número máximo de infectados em 3 de setembro, quando terá mais de 307,8 mil casos. O pico da pandemia ainda está por vir ou o fechamento do comércio em Cuiabá e Várzea Grande deve barrar o crescimento da curva de casos?

Não vamos conseguir barrar, mas melhorar. Não estamos no pico. Teremos uma velocidade crescente dos casos até setembro, quando começaremos a acrescentar, por dia, um número menor ou estável de casos. O estudo foi baseado em algumas coisas sobre as condições de isolamento e flexibilização. Se nós trabalharmos com uma quarentena maior do que está previsto no estudo, nós podemos reduzir esse quantitativo (o pico é em setembro, mas podemos ter um número menor de casos do que o previsto). Agora, se nada disso acontecer e tivermos uma quarentena não observada pela população ou abrirmos tudo de novo, podemos chegar a projeção máxima de casos. A nossa perspectiva não é boa.

Nossa grande esperança é de um dia acordar já com a vacina. São várias as pesquisas em todo mundo e até no Brasil. A senhora destacaria uma com mais chances de dar certo? E essa vacina pode ser distribuída em quanto tempo?

Pelo o que indica os estudos, é a pesquisa em Oxford, na Inglaterra (sendo desenvolvida em associação com o Brasil). Nós temos, nesse momento, a Fiocruz, USP e Butantan envolvidos em diferentes projetos de vacina. São nossas melhores condições de desenvolvimento. É provável que a vacina desenvolvida em Oxford seja a primeira ofertada, pois esta mais adiantada e tem se mostrado segura.

 

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Comentários (23)

  • Moreira | Domingo, 05 de Julho de 2020, 17h09
    3
    5

    Gado petista

  • Márcio | Sábado, 04 de Julho de 2020, 21h51
    11
    2

    Vírus se corre não encara!!! Nós enfrentamos ...tai...1000 a Zero para o vírus

  • Márcio | Sábado, 04 de Julho de 2020, 21h47
    7
    2

    Para + ou - 95 % os remédios em geral dá certo...quando agrava e o vírus ataca o DNA ele se replica e qualquer droga precisa estar em concentração altíssima porque ainda não sabe se quais são os genes e os receptores que desenvolvem o vírus !! Essa concentração oferecida de cloroquina não causa tanto malefício mas também não cai na corrente sanguínea...se tiver algum efeito é só no início mesmo!!!

  • Just | Sábado, 04 de Julho de 2020, 20h23
    11
    6

    Flavio Müller: seus funcionários usam máscaras, tem protocolo de higiene e a vacina ivermectina que os mantêm firmes. É cada cientista nesta terrinha.

  • Jualice | Sábado, 04 de Julho de 2020, 18h31
    15
    13

    Não existe remédio para Covid-19 e pronto... O que existem são remédios, sem comprovação, que em alguns pacientes dão resultado. Foi isso que a médica disse. Cada caso é um caso. Não tem milagre não galera, parem de se iludir.

  • Carlos Ubers | Sábado, 04 de Julho de 2020, 17h09
    17
    7

    Se pegar o covid-19 espere a confirmação cientifica e não perturbe quem quer tomar.

  • Mário | Sábado, 04 de Julho de 2020, 15h31
    5
    14

    Pelo que vi aqui, a vacina para Covid já existe. Aleluia. Nem a japonesa Tamaguchi da cloroquina é tão realista. Ele diz que o protocolo dela reduziria em 2/3 os casos graves. Aqui os cientistas de plantão dão 💯 % de eficácia 👏🏼👏🏼👏🏼. Cuiabano é top.

  • Horácio | Sábado, 04 de Julho de 2020, 14h33
    13
    1

    Uma coisa é fato, fique atento a sua saúde! Qualquer alteração no apetite, moleza ou dor no corpo, faça urgente um exame de imagem no pulmão e vá atrás do kitcovid. Minha mãe estava com esses sintomas mas achou que estava com dengue, tomou remédio pra dengue mas não curava, dois de 10 dias passando mal, foi fazer o raio x e estava com 80% do pulmão afetado, daí era tarde demais, morreu no mesmo dia ao tentar ser entubada na Santa Casa. Cuidem pessoal, atenção total a saúde nesse momento.

  • Benedita da Silva | Sábado, 04 de Julho de 2020, 14h02
    7
    5

    Abriram o brete!

  • Marcelo | Sábado, 04 de Julho de 2020, 13h48
    1
    2

    Junta o comentário do Antonio com o do Flavio. É só o que basta para “entender” a doutora.

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