ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 09 de Março de 2017, 10h:44 | Atualizado: 09/03/2017, 16h:04

Militante diz que 8 de Março é luta feminista, mas negras não celebram

Lucas Rocha Ribeiro

Jackeline Silva movimento negro

 Jackeline Silva fez discurso no Senado pelo Imune ter recebido comenda Senador Abdias Nascimento

Cuiabana, negra, ativista, Jackeline Silva, 31 anos, é uma das integrantes do Instituto de Mulheres Negras (Imune). O Imune surgiu em Cuiabá por volta do ano 2000, como o grupo cultural Filhas de Oxum, dedicado também à dança. A segurança jurídica só chegou em 2007, quando finalmente obtiveram CNPJ. Desde 2012 o Imune é parte da Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras (AMMB), da qual faz parte também o Instituto Geledés, com todos os outros institutos de mulheres negras espalhadas pelo Brasil. No ativismo desde a adolescência, Jackeline rapidamente percebeu a necessidade de uma luta feminina específica para as mulheres de cor.

O instituto do qual faz parte recebeu recentemente a comenda Senador Abdias Nascimento devido à atuação no movimento em prol da cultura negra. Na tribuna do Senado, Jackeline fez um discurso forte e emocionado. Leia abaixo os principais trechos da entrevista que ela concedeu ao por ocasião desta Semana da Mulher.

Há o que comemorar neste 8 de março?

Bom, esse dia nasceu para representar uma luta feminista, mas para as mulheres negras este 8 de março não é uma data comemorativa porque, enquanto havia feministas brancas, as mulheres negras continuavam trabalhando, cuidando de filhos, da casa, atuando como empregadas domésticas, normalmente dessas mesmas mulheres. Sofrendo todo o machismo e toda a questão que aflige as mulheres de modo geral. Mais especificamente, enquanto as brancas já estavam lutando, as negras continuavam vivenciando essa outra realidade. É data importante, mas não é representativa para a mulher negra. Nós preferimos o dia 25 de julho porque é o Dia Internacional da Mulher Negra na América Latina e Caribe, e o 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. É importante ter uma data que celebre a mulher para que possamos trazer as discussões, tanto que o instituto realizou, em 2009, o Mulheres em Diálogo. Com mulheres que trabalham nas áreas cultural e da saúde, professoras. Lutas feministas são lutas das quais participamos sim, mas nosso feminismo é negro porque sofremos racismo, algo que as outras mulheres não sofrem. Nós e as indígenas temos mais lutas comuns, tanto pela discriminação quanto pela "exotização" (termo usado por Jackeline para definir que negras são mais erotizadas que brancas) dos nossos corpos, e também pela questão da terra enquanto quilombolas e indígenas, porque expulsam-nos de nossos territórios. Nossa luta como mulheres negras, indígenas e feministas não dá para ser abarcada somente no 8 de Março porque negras e indígenas têm menores salários, mais dificuldades de ascensão profissional e sofremos outras discriminações que as mulheres brancas não sofrem. Temos consciência das lutas delas, mas para nós não há lutas tão restritas quanto as do 8 de Março.

Enquanto havia feministas brancas, as mulheres negras continuavam trabalhando, cuidando de filhos, da casa, atuando como empregadas, normalmente dessas mesmas mulheres

Para ser feminista é preciso odiar os homens?

Como assim?

É o que muitos (homens e mulheres também) falam para depreciar o movimento...

São pontos de vista, o feminismo que eu entendo e pratico é o que luta pela igualdade de direitos. Porque somos sujeitos e cidadãos, e enquanto sujeitos, precisamos ter os direitos garantidos e infelizmente as mulheres sofrem muito, demasiadamente. Especialmente as negras, que são violadas o tempo todo. Em casos de assédio sexual, principalmente, negras são ainda mais vulneráveis, bem como na questão do encarceramento: as jovens negras passam também pelo processo de genocídio e violência, além da criminalização propriamente dita. É muito complicado separar essas questões, até porque precisamos de pessoas, seres humanos, indivíduos engajados na luta pela igualdade, porque não estamos implorando por algo completamente fora e alheio a um contexto. O que queremos são nossos direitos, assegurados em Constituição Federal, na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Queremos que eles sejam respeitados. Que consigamos ter acesso aos serviços públicos, sejam de saúde, educação, bons empregos. Por que temos de ganhar menos se temos o mesmo nível de qualificação de outras mulheres e homens? Mas não vejo por quê odiar ou separar. Todo radicalismo ajuda a segregar ainda mais e traz retrocesso, não avanço. Precisamos da união de todas as pessoas, independente de gênero, em prol dessas questões.

Existe um modelo de feminismo brasileiro?

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Jackeline Silva movimento negro

Ativista, Jackeline Silva tem 31 anos e faz parte do Instituto de Mulheres Negras de Cuiabá (Imune)

Pela minha experiência, pelo que vivo no movimento negro, sim. As mulheres negras brasileiras têm vários perfis, não existe um padrão. Há, por exemplo, muitas quilombolas em luta pela terra. Vejo também esses grupos de domésticas que lutaram e tiveram uma PEC aprovada para garantir direitos. Isso é um resultado que é para ser comemorado, porque as que trabalham como empregadas domésticas são, em maciça maioria, mulheres negras. Há todo um contexto nesses aspectos feministas, nesses grupos. Por exemplo, as mães de reeducandos - há grupos organizados para reivindicar espaços e direitos que deveriam estar assegurados, mas não estão. Está tudo no papel, mas infelizmente não é executado; então, esse diálogo é necessário. Especialmente neste momento de criminalização dos movimentos sociais, de todo questionamento com que tratam a assistência às pessoas que mais precisam, que não participam de inclusão nem social nem econômica. Os movimentos sociais, mais do que nunca, precisam se fortalecer e mostrar sua cara, porque isso afeta diretamente as mulheres chefes de família, brancas ou negras. Todas as negras que não participam da vida social como deveriam também.

Não é tudo baseado nas alemãs e americanas?

Não. Acredito que na verdade foi só inspiração enquanto modelo de luta, os Panteras Negras (grupo mais radical surgido no meio da luta pelos direitos civis nos EUA nos anos 1970) e tudo o mais. Tivemos que adaptar isso à nossa realidade. O que acontece nos Estados Unidos é, em certos aspectos, diferente do que acontece no Brasil, já que temos um racismo à brasileira, com toda uma sociedade muito mais miscigenada, com negros, indígenas, brancos e outras culturas. Então temos sim uma forma própria de vivenciar essas experiências e de luta também. Tudo está sendo construído ao longo do tempo.

Pedro França

jackeline Silva senado Senador Abdias Nascimento.jpg

Militante negra Jackeline Silva recebe comenda dos senadores Lídice da Mata (PSB) e Paulo Paim (PT)

Algumas mulheres acusam as feministas de emascularem os homens. Como vê esse tipo de visão?

Eu não tenho nenhuma opinião formada sobre isso.

Há homens que reclamam que feministas querem o fim das relações homem/mulher devido ao forte combate aos assediadores. Qual o limite entre assédio e galanteio?

O que percebo é que, com o avanço do feminismo, a partir do momento em que as mulheres se apropriaram de informações, estão convivendo mais com outras mulheres e começando a enxergar todas as dificuldades que foram impostas pela sociedade. Assim, começaram a questionar tudo em suas vidas, inclusive seus parceiros e os homens com quem elas convivem. Por conta disso, acaba por acontecer essa briga entre os sexos. Começam a dizer que para ser feminista tem que ser sapatão, por exemplo, mas não é preciso ser feminista para buscar igualdade de direitos entre todos os sujeitos. Precisa, especialmente, respeitar as peculiaridades do gênero feminino. Ponto. É assim que entendo. Mas durante a história, as mulheres sempre sofreram abusos, especialmente as mulheres negras. Isso foi se cristalizando na sociedade, seja através de piadinhas, seja através de cantadas de todo tipo. A partir do momento em que a mulher vai compreendendo que é um ser autônomo e que um homem, um sujeito, está tentando seduzi-la e há outro momento (em que este homem) a está assediando, é preciso pedir e exigir respeito por seu corpo. É muitas vezes sutil o abuso psicológico, a cantada, até chegar ao abuso sexual em si. Mas as mulheres ainda estão compreendendo o próprio corpo e elevando a própria autoestima por meio do feminismo, do movimento. Isso se dá também pelo aumento dessa troca de informações entre as mulheres de que falei antes. Hoje, se encontra muitas mulheres que não se dizem feministas, mas integram grupos e ensinam como lidar e exigir respeito nas relações com os homens.

Alguns ironizam dizendo que são aparência e poder aquisitivo o limite. Se for bonito ou rico, é galanteio; se for feio ou pobre é assédio. O que diria a esses?

Prefiro nem comentar, porque para mim esse é um argumento ridículo. Independe do perfil da pessoa. O abusador, o violento contra a mulher, se mascara de todas as formas. Independente do status social, da aparência física, estupro é estupro, abuso é abuso. Violência é violência e deve ser sempre combatida.

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Comentários (2)

  • Henrique Tadeu | Sexta-Feira, 10 de Março de 2017, 12h53
    0
    2

    Parabéns Jackeline... a luta é nossa.

  • Renato | Sexta-Feira, 10 de Março de 2017, 11h14
    2
    1

    Sempre querendo posar de coitados. Sem contar que tem cotas para negros e índios e para os brancos, amarelos, pardos, mamelucos, cafuzos, nada. E ainda querem posar de vítimas? Dizer que são discriminados? É pra acabar.

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