ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 12 de Abril de 2018, 09h:13 | Atualizado: 12/04/2018, 09h:17

Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista, diz líder das mulheres negras

Gilberto Leite/Rdnews

 Antonieta Lu�sa Costa imune

Antonieta Luísa Costa, 50 anos, é presidente do Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso (Imune)

Politizada, com tom firme ao se demonstrar convicta de suas ideias e ideais, Antonieta Luísa Costa, 50 anos, é presidente do Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso (Imune) e Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Cepir), uma das vozes do Movimento Negro em Mato Grosso, trazida pelo seu pai Geraldo Henrique Costa no começo dos anos 80. Antonieta contou ao um pouco de sua trajetória como militante, educadora, feminista e mulher negra. Como entrou na luta antirracista na sociedade e os caminhos a serem percorridos pela igualdade. Busca que a lei saia do papel a fim de que sejam realizadas políticas públicas e apoia as pessoas com pouca acessibilidade e atenção do poder público. Confira as melhores partes da entrevista.

O que te despertou para lutar contra o preconceito e ser uma voz tão ativa nessas pautas e em defesa da vida das mulheres?

O fato de ser negra, mulher e ter nascido em uma família consciente. Vejo que apesar de 54% da população desta região ser negra, não existia políticas públicas para nós. Quando eu comecei a me atentar para essas discussões, eu tinha em torno de 14 anos. Comecei a reconhecer a cultura negra através da dança. Na época a Terezinha Arruda era secretária de Cultura e criou uma oficina de dança afro e teatro. Ivan Belém e o Liu Arruda que davam as aulas de teatro. Lá começamos a abordar este tema. Todavia, acredito que o principal foi ter nascido em uma família negra, onde meu pai, Geraldo Henrique Costa, foi o fundador do Movimento Negro em Mato Grosso. No final da década de 70, ele esteve em São Paulo, conheceu o Movimento Negro e na década de 80 ele fundou o movimento negro aqui.

Acredito que o principal foi ter nascido em uma família negra, onde meu pai, Geraldo Henrique Costa, foi o fundador do Movimento Negro em Mato Grosso.

Sofreu racismo ou outro tipo de preconceito que queira mencionar?

O preconceito é muito comum dentro da comunidade negra, mas quando se é mulher, se é negra e acima do peso, a gente sofre vários tipos de discriminações. Houve uma vez que eu estava na cozinha, por exemplo, na secretaria onde eu trabalhava, e acharam que eu era a cozinheira porque eu estava na copa, porque naquele momento eu estava na copa, mesmo eu explicando que eu trabalhava em outro setor, mesmo assim a pessoa insistia em dizer "invadi seu trabalho", "invadi sua cozinha". Ela reafirmava a todo momento que aquele espaço era o meu. Quando aconteceu isso eu já tinha uma identidade formada enquanto mulher, enquanto cidadã, uma consciência política e social sobre a inserção do racismo no meio em que eu vivia e eu soube lidar com isso, mas, quando eu tinha sete anos, me lembro de uma vez ir comprar leite e a comerciante dizer que não vendia leite para negros e me expulsar do lugar. Dizia repetidamente "xô daqui".

Como o Imune ou o Cepir podem debater essas questões com as mulheres do Estado?

Recentemente através do Imune, o Fórum Nacional de Mulheres Negras e realizamos uma oficina chamada Vozes Femininas Negras coordenada pela Silvana Viríssimo de São Paulo e a Ana José Alves de Mato Grosso do Sul, e, durante essa oficina, os relatos foram muitos, as meninas choravam ao apresentar as discriminações sofridas.

Porque mulheres ainda morrem tanto em Mato Grosso e, de forma geral, no Brasil?

Mulheres negras são mais vulneráveis, são essas mulheres que são grande maioria na periferia, é para essas pessoas que não existe política pública e as suas afirmativas. E é para esse grupo que tudo chega pela metade e quando chega, é para este grupo que a assistência é negada quando a mulher é vitima da violência. Existe um dossiê que se chama Dossiê das Mulheres Negras no Brasil, que aponta a situação das mulheres negras, tem um recorte regional que diz que as mulheres negras do Centro Oeste são as que estão em pior estado de exclusão. Precisamos fazer estes debates chamando a atenção do poder público para que se implemente as políticas públicas, e quando se trata de violência ainda tem um agravante, pois não temos uma política de monitoramento, não temos um recorte étnico racial, apesar de percebermos pelas fotos ou por todas as matérias que passam pela tv e vermos que a maioria das vítimas são negras.

Gilberto Leite/Rdnews

 Antonieta Lu�sa Costa imune

Antonieta Luísa Costa é presidente do Conselho Estadual de Promoção da Igualdade Racial

Estas mulheres ainda são estereotipadas, hipersexualizadas ou tratadas como objeto?

Os estereótipos existem a todo momento. Nós que somos vistas como gostosas, globeleza ou boas de cama outrora, a cozinheira, lavadeira, empregada doméstica. Todos estes estereótipos frutos de uma sociedade racista, estereótipos que só vão deixar de existir a partir do momento que se tirar da invisibilidade essas mulheres e incluí-las com uma política que chamamos de empoderamento feminino, e chegarmos nas repartições públicas, na Câmara de vereadores, nas Assembleias Legislativas e encontrar ali um referencial. Enquanto estivermos na invisibilidade também vamos estar mais vulneráveis.

Recentemente tivemos o caso de Mariele Franco, uma mulher negra, militante, que teve visibilidade, e foi morta em possível execução. O que dizer sobre este caso?

A massa quer legitimar a repressão. O caso da Mariele Franco é uma voz que não se fala, ela passou por processos antirracistas, antiopressão, anti todas as formas de violência, não só contra as mulheres, mas contra o povo oprimido, contra o povo pobre das comunidades. Ela era uma voz que falava sobre o genocídio dos negros na periferia, e acharam que ela tinha que se calar. Essa geração da Mariele é uma geração que luta contra a desigualdade, em prol da democracia e isso não é bem visto, mas mesmo após sua morte a voz dela vai ecoar em cada uma de nós mulheres negras cada vez mais alto. Quando você faz a opção de lutar por uma sociedade mais justa, mais igualitária como é o propositivo do feminismo negro e das mulheres negras de um modo geral, a gente sabe que o risco está posto e ao mesmo tempo nos acalenta muito saber que com a tentativa de calar a Mariele, eles levantaram a voz de muitas outras Marieles.

Em seu ponto de vista, existem mais ou menos racistas?

Não basta não ser racista, é preciso ser antirracista. Escutamos muito o discurso "eu não sou racista", é importante não ser racista, mas é mais importante não permitir que o racismo se perpetue, pois é isso que vai fazer a diferença. A dor do outro tem que ser a minha dor também, porque é muito simples não sentir a dor do outro, mas, quando me dói, todo mundo tem que sentir a minha dor. Como Martin Luther King dizia, "o que me incomoda não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons". Às vezes as pessoas se juntam, dão forças para uma piada preconceituosa, sorriem, mas não se juntam para lutar contra isso. Na dúvida, fique do lado dos pobres, fique do lado dos oprimidos.

Gilberto Leite/Rdnews

 Antonieta Lu�sa Costa imune

Antonieta Luísa Costa diz que movimento feminista não agregou as mulheres negras

Podemos dizer que a sua luta se alinha, então, ao feminismo negro? Como distinguir?

O movimento feminista não agregou as mulheres negras, ele tinha um olhar direcionado para um único tipo de mulher. Nós não podemos ter o mesmo olhar porque nós somos diferentes e, viva as diferenças, que bom que somos diferentes, pois dentro das diferenças é que se cresce, não se cresce na igualdade. O feminismo negro nasceu na perspectiva de buscar o entendimento de que nós não somos iguais, e se eu quero um mundo mais justo, eu tenho que também olhar as diferenças. Quando a gente fala de feminismo negro, a gente fala de uma política que vai atender um grupo que historicamente foi excluído, e falar de mulher negra é também falar de condições de vida, perspectivas e diversas outras situações.

Como combater o racismo na sociedade? Qual a solução?

Vamos completar 130 anos da dita libertação dos escravos, mas desde 1888, não tivemos liberdade nenhuma. Na verdade todas as leis, inclusive, antes disso foram sacanas com o povo preto. Desde a de 1850 na Inglaterra, pois como você poderia se considerar livre se sua mãe é escravizada? Só existe uma maneira de mudar, educação. Temos instrumentos legais para isso, temos a Lei 10.639, que é a de obrigatoriedade do currículo da história da África, do povo africano, das lutas e conquistas do povo negro e da contribuição do povo negro na formação da cultura brasileira. Não vejo, e o movimento social negro não vê, outro caminho a não ser pela educação.

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Comentários (4)

  • Mariazinha | Sábado, 14 de Abril de 2018, 18h11
    0
    1

    Mariazinha, Há expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas. Queira, por gentileza, refazer o seu comentário

  • Valdir F. Santos | Sexta-Feira, 13 de Abril de 2018, 12h35
    6
    0

    Laura você pode não ser racista, mas demonstra total desconhecimento do assunto(racismo).

  • Souza | Quinta-Feira, 12 de Abril de 2018, 15h01
    5
    0

    Não existe raça..... Existe sim a NATUREZA se adaptando para maximizar o equilíbrio fisiológico da vida humana.... A cor da pele é definida de forma diretamente proporcional a necessidade de VITAMINA D para vida humana, cuja a principal fonte é a LUZ SOLAR(pois os raios ultravioletas do tipo B (UVB) são capazes de ativar a síntese da VITAMINA D)...... A pele clara tem mais facilidade para absorver VITAMINA D e a escura menos facilidade.... Ou seja, ao longo do tempo, em lugares com abundância de Luz Solar(AFRICA), teremos excesso de Vitamina D e abundância de pele mais ESCURA(melanina maximizada para proteção do excesso de VITAMINA D para manter o equilíbrio fisiológico). Em lugares com carência de Luz Solar(EUROPA), teremos carência de Vitamina D e abundância de pele mais CLARA(melanina minimizada para maximizar absorção de VITAMINA D)..... Fisiologicamente, todos somos semelhantes... Culturalmente ocorre comportamentos e costumes diferenciados........ O RACISMO UMA DAS MAIORES BESTEIRAS QUE AINDA TEM ESPAÇO EM NOSSO MUNDO..... Espero ter contribuído....

  • Laura | Quinta-Feira, 12 de Abril de 2018, 14h28
    6
    6

    Se não sou racista, isso está implícito. Esses petistas são cérebro de Dilma mesmo.

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