ENTREVISTA ESPECIAL

Sábado, 11 de Julho de 2020, 08h:23 | Atualizado: 13/07/2020, 18h:40

Não creio em vacina contra Covid de uma hora para outra, diz membro do Butantan

Prevendo contra a Covid para 2022, Luciano Gomes fala sobre vacina administrada contra a Dengue

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Luciano Gomes

Institutos e centros de pesquisa espalhados por todo mundo se dedicam a busca incessante de uma “fórmula” que seja capaz de conter o vírus da Covid-19. No entanto, mesmo que boa parte dos cientistas queira muito acelerar alguns destes processos, essa busca demanda tempo, pois os processos da vacina precisam se dividir, no mínimo, em quatro fases, que custam anos de análise para garantir a segurança, eficácia e durabilidade. Em entrevista ao , o coordenador de Pesquisa Clínica do Instituto Butantan em Mato Grosso, Luciano Teixeira Gomes, explica que “descobrir” a cura não é uma tarefa fácil, e pode demorar anos, mesmo após vacina aplicada na população, para saber seus efeitos em um vírus. Apesar de esperançoso, revela que tem sido uma tarefa complexa, e que essa é uma área que deveria ter incentivo incansável, não apenas para "apagar o incêndio" de uma pandemia. O Butantan hoje é um dos principais representantes de investigação ao coronavírus do país. Em Mato Grosso, o instituto conta com dezessete bolsistas de pesquisa, eles trabalham com o conhecido "produto final", que é o protocolo de pesquisa clínica. Entre eles estão técnicos de laboratório, biólogos, enfermeiros e pessoas de campo. Em Mato Grosso, o Butantan atua com o teste em humanos de uma vacina contra a Dengue.

Confira os melhores trechos da entrevista gravada de forma remota na segunda (6) passada:

Em MT, o Instituto Butantan tem um projeto bastante avançado no desenvolvimento de uma vacina contra a Dengue. Em 2016 começaram os testes clínicos em humanos. Em que fase está essa vacina?

Qualquer vacina, para ela chegar definitivamente a população, precisa passar por várias etapas. A primeira etapa é a pré-clínica, quando a vacina é descoberta e é feito ensaios laboratoriais. Depois vem a fase clínica, dividida em 4 etapas. Para ela definitivamente chegar na fase 4 (quando começa a ser ofertada a população) ela tem que passar por três fases anteriores. A vacina da dengue nós estamos na fase três. No caso da dengue, começamos em outubro de 2016, já na fase 3. Temos 1,3 pessoas recrutadas, que seguimos ao longo de 4 anos. Não é um processo rápido. Para demonstrar a eficácia de uma vacina, a gente precisa mostrar que ela protege. Para isso, precisamos acompanhar (os voluntários) e torcer que para que quem não tomou a vacina pegue a doença e quem tomou não pegue.

Reprodução

Luciano Gomes

Luciano Gomes, coordenador de pesquisa clínica do Instituto Butantan em MT, em entrevista aos jornalistas Airton Marques e Mirella Duarte

Quanto tempo ainda para que seja distribuída?

O que parte dos voluntários em Mato Grosso estão tomando ainda não é uma vacina, chamamos de Produto sob Investigação (PSI). Só vai virar vacina e ser disponibilizada quando tiver a eficácia comprovada.  Até então, não podemos mostrar quem (neste grupo de voluntários da pesquisa sobre a Dengue) tomou realmente o PSI ou o placebo, pois isso pode viciar a pesquisa. Para descobrir a eficácia, temos que abrir (saber quem tomou o que) para comparar. Isso só pode ocorrer quando todos os voluntários forem seguidos. Na pesquisa da Dengue, temos uns três anos para finalizar essa fase. Isso é crucial para que tenhamos um resultado fiel e condizente com as boas práticas de pesquisa clínica. O que estão fazendo em relação a Covid-19 é, talvez, acelerar esse processo, já que precisamos de uma resposta o quanto antes, mas não é uma coisa rápida. Podemos acelerar alguns processos, pois é uma emergência de saúde pública mundial, assim como a Dengue também é, mas para preservar a pesquisa e ter resultados fieis, de acordo com o que esperamos, a gente precisa terminar o acompanhamento, o que vai demorar uns três anos.

Além da vacina da Dengue, o centro do Instituto Butantan em MT vai realizar alguma pesquisa em relação a Covid-19?

A pesquisa oficial que temos da Dengue é a única pesquisa com vacina em Mato Grosso e, talvez, das poucas do Centro Oeste (em parceria com a UFMT, por meio do Hospital Júlio Muller). Sobre a Covid-19, pesquisas com vacinas são precedidas de pesquisas previas, do ponto de vista imunológico. Por exemplo, eu não sei se a própria infecção natural previne da doença. Temos muitas outras perguntas a responder. Provavelmente a gente terá direcionado para Mato Grosso uma pesquisa para avaliar esse status imunológicos. Temos muita pesquisa pela frente. A gente precisa investir em pesquisa não só em momento de pandemia. Precisamos entender que pesquisa em saúde deve ser constante.

Então, a pesquisa em MT deve ser focada nessa análise de como o sistema imunológico do paciente reage a partir da infecção?

Exatamente. E a longo prazo. Quando se faz uma pesquisa dessas há várias perguntas que podem ser respondidas. Por exemplo, se todas as pessoas dentro de uma mesma casa se contaminam, se uma pessoa assintomática contamina os outros. Essas pesquisas, muitas vezes, são multicêntricas. Por isso, o Butantan precisa de vários centros, com parceiros, como o aqui do Júlio Muller.

O instituto firmou uma parceria com o laboratório chinês Sinovac Biotech, que possui uma vacina em fase avançada de desenvolvimento, a Coronavac. Nessa semana foi anunciado que o teste em humanos já vai começar em alguns estados. MT não está na lista, por quê?

A gente já tem uma vacina em acompanhamento (da Dengue), com 1,3 mil voluntários, e vamos começar uma outra pesquisa clínica (avaliando as características mais imunológicas). A gente precisa dividir os trabalhos e o Butantan, por questão extratégica, escolheu alguns poucos centros. O centro de Mato Grosso já tem uma demanda alta de acompanhamento.

Em todos os cantos do mundo nós temos pesquisadores desenvolvendo vacinas. Mas, a vacina que for realmente eficaz para salvar vidas terá capacidade de eliminar o vírus?

Muitas vezes, tentamos acelerar alguns processos, pois o mundo anseia respostas. Quando se inicia uma pesquisa clínica de seguimento de pacientes, o que mais preservamos é a segurança do participante. Então, garantir que o paciente, a longo prazo, vai desenvolver uma resposta imune eficaz e duradoura, é fundamental. Do ponto de vista das doenças virais, a vacina é o melhor recurso de custo/efetividade que se tem. E isso só é garantido quando se tem o período para avaliar a segurança e a eficácia. E se a eficácia será de longo prazo ou não, só o acompanhamento desses pacientes pós-vacinados, que se pode determinar se será duradouro e permanente. Mesmo que se acelere os processos para ter uma liberação mais rápida, não acredito que possa ser de uma hora para outra. Não acho que os órgãos regulatórios mundiais permitam, pois tem muitas coisas para responder depois que for administrada ao participante. Não é simples. O que espero é que tenha respostas muito boas dessas vacinas num intervalo mais curto. Provavelmente em um ano após a vacinação se tenha uma resposta. Vai ser para 2022. É a opinião de alguém que entende um pouco desse seguimento clínico de vacina.

Como será a vida pós-vacina?

Ao longo do tempo, a gente percebeu que várias vacinas determinaram o curso de determinadas doenças. Por exemplo, a febre amarela só foi erradicada dentro da cidade, depois que teve a vacina. Ao longo do tempo, ficou comprovado que ela é muito duradoura, não precisando nem de reposição. É a fase 4 (pós comercialização/distribuição). Mesmo depois que é administrada a população, é preciso acompanhar como vai se dar a dinâmica da vacina. Só vamos descobrir isso, pós-acompanhamento ao longo do tempo.

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