ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 25 de Outubro de 2018, 08h:49 | Atualizado: 25/10/2018, 08h:56

Nem toda mulher quer ser mãe, diz jovem que conta sobre a maternidade na internet

Analu Melo criou um canal no Youtube para falar sobre os dilemas das mulheres na criação de seus filhos

Rodinei Crescêncio/Rdnews

Analu Melo

 

A maternidade real tem sido um termo muito utilizado nos últimos anos, bem como o parto humanizado e a maternidade compulsória. Por meio de documentários, livros e pessoas imersas no universo da gestação, o que todos estes termos estão propondo juntos é que este momento seja a cada vez menos rodeado de mitos e romantismo. Para compartilhar um pouco da trajetória de mãe de primeira viagem, a jovem de 23 anos e cuiabana Analu Melo Ferreira criou um canal chamado Crianças Francesas Também Choram. A primeira publicação foi em agosto, mas que já aborda temas de bastante impacto na sociedade. Atualmente, Analu mora na França e respondeu a reportagem por telefone. Seu canal funciona como um "diário" nas redes sociais, onde ela desmistifica coisas que gostaria de ter conhecimento, mas que ninguém a havia contado. Relata que alguns conselhos para mães costumam ser maldosos. Ela mesma foi vítima de vários. Sua luta é humanizar a criação da sua filha Olívia, como amamentação, colo e atenção sem tratar como "manha".

Leia os melhores trechos da entrevista:

Como tudo começou e como se sente sendo mãe jovem e de primeira viagem?

Quando eu descobri que estava grávida, eu e o meu namorado estávamos há um ano e meio juntos, mas à distância, ele na França e eu no Brasil. Com a minha gravidez nós chegamos a conclusão de que precisávamos decidir a nossa vida pra que a nossa filha crescesse com os dois pais ao seu lado. A princípio, nós havíamos decidido que começaríamos morando os três no Brasil e, se caso não desse certo, iríamos pra França. Porém, quando eu vim apresentar a Olivia à sua família francesa, eu me dei conta que queria que ela crescesse com segurança, com tranqüilidade, com acesso à saúde e educação públicas e de qualidade. Foi por isso que mudamos de idéia e decidimos viver na França.

Durante a gravidez, como foi esse processo de descoberta e como tem sido viver a maternidade sem a romantização cultural?

Durante a minha gravidez eu conheci o universo do parto humanizado e me apaixonei, porque via nele muito do que eu sou e acredito. Infelizmente, não consegui ter meu parto humanizado e nem tampouco o natural, porque fui para uma cesárea de emergência. Apesar disso, meus olhos se abriram para a humanização não só do parto como na criação da minha filha. Apesar de eu ser sua mãe, eu não me vejo como uma autoridade sobre ela. Não quero ser uma ditadora, respeito muito a minha filha como um ser humano igual a mim e queria passar os aprendizados da minha maternidade a outras mães. Eu milito a favor da amamentação e em defesa das crianças, para que elas sejam respeitadas, acolhidas e amadas. Vi nas redes sociais a melhor forma de me expressar e de alcançar mães e futuras mães.

Arquivo Pessoal

Analu Melo

Analu amamenta a filha em um restaurante em Paris, onde mora

Acredita que seu canal pode ser importante para outras mães de primeira viagem?

 Eu não busco “conscientizar” ninguém, só quero mostrar que existe uma maternidade alternativa. Aquela que prefere dar aconchego ao invés da chupeta, que entende que os bebês necessitam de contato físico quase que em tempo integral, que coloca o bebê e a criança como o lado mais frágil e que por isso deve ser protegido e amparado. A minha maior motivação pra ter criado o canal foi porque eu escutei muito conselho idiota durante a gravidez e no pós-parto, que não queria que outras mulheres escutassem. E, caso escutem, que estejam prontas para rebater esses conselhos que são repletos de desinformação.

Que tipos de conselhos você costumava ou ainda costuma ouvir?

Nos primeiros dias de vida da minha filha, o que eu mais escutava era “não pegue ela no colo, deixe ela chorar, porque se você fica pegando muito, ela vai ficar mal acostumada”. Isso é uma mentira tão cruel, porque mães que não têm informação acreditam e deixam seus bebês chorarem pra não ficarem “mal acostumados”. O que não se diz, porém, é que carinho não estraga ninguém. Que um bebê que passou 9 meses dentro da barriga da mãe só precisa sentir o calor do corpo dela. Não dizem, tampouco, que a exterogestação existe ou que um bebê, até os três meses de idade, ainda não sabe que nasceu. Por isso ele chora, por isso ele precisa de colo, e por isso as mães precisam acolhê-los. Se eles param de chorar depois de muito ter insistido pra ter carinho, não significa que ele aprendeu a não chorar, mas ele entendeu que não importa quanto esforço faça, ele não será atendido. Isso é uma baita traição.

Você usa com ferquência o termo maternidade compulsória, o que quer dizer e como ela ocorre na sociedade?

Compulsória é o que é feito a força, e a maternidade compulsória começa desde o momento que as mulheres nascem. A forma como são educados homens e mulheres são totalmente diferentes. Desde pequenininha a gente ganha cozinha, panelinha, máquina de lavar roupa e muita boneca. Com isso, somos ensinadas a ser donas de casa e a ser mãe. A mulher passa a maior parte da vida escutando que a maior felicidade da sua trajetória será quando for mãe, e isso não acontece com os meninos. Nem toda mulher quer ser mãe. Com toda essa romantização da maternidade, tem hora que é difícil. No meu caso, minha gravidez não foi planejada e eu escolhi continuar, porque eu tinha suporte, tinha como continuar e não me arrependo. Amo minha filha, mas a maternidade é uma chatice. Tem horas que você quer dizer "preciso de duas horas para minha cabeça", e você só sabe disso quando tem filhos, porque antes você só escuta que a maternidade é linda ou que a mulher só é completa quando tem filho. As pessoas deveriam falar mais sobre isso.

Arquivo Pessoal

Analu Melo

A cuiabana Analu tem uma canal no Youtube e conta sobre sua rotina

Você chegou a visitar a Câmara dos Deputados e foi conhecer de perto o trabalho deles. Acredita que a maternidade compulsória pode afetar de outras maneiras na sociedade, além do estilo de vida ou no circulo familiar, mas em algumas Leis? Por exemplo, como a descriminalização do aborto?

Para uma mulher, quando os métodos anticoncepcionais não dão certo, não funcionam, mesmo se a mulher não quiser seguir com a gravidez ela tem que continuar. O que acaba a levando para uma clínica clandestina, um aborto caseiro ou as vezes até morrer por não ter assistência médica, porque o Estado não dá suporte para essas mulheres. A maternidade compulsória também se apóia nisso, querer te forçar a gestar um filho que não quer.

No caso da sua filha, então, como pretende educá-la, considerando todos estes contextos que apresentou em suas respostas e, especificamente, a maternidade compulsória no início da infância das meninas?

Para minha filha pretendo mostrar outras coisas, como o caminho da ciência. A educação que eu der dentro de casa é uma e a do mundo é outra, mas o que eu puder fazer dentro de casa eu vou fazer. Vejo como minha obrigação mostrar para ela que antes de ser mãe existem milhões de possibilidades dela ser feliz, e ela não é obrigada a ser mãe se ela não quiser.

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Comentários (2)

  • marcos silva | Quinta-Feira, 25 de Outubro de 2018, 14h45
    0
    2

    marcos silva, Há expressões agressivas, ofensas e/ou denúncias sem provas. Queira, por gentileza, refazer o seu comentário

  • Alexandre da Silva | Quinta-Feira, 25 de Outubro de 2018, 09h50
    1
    16

    Não quer ter filhos? Não faça sexo, é simples. Abstenha-se... agora é o direito da criança? Onde fica? Não querer gestar um filho que não Quer? Como se a criança fosse qualquer coisa... Que ridículo...

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