ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 17 de Maio de 2018, 08h:54 | Atualizado: 17/05/2018, 19h:34

Novas tecnologias sofrem resistência no campo, afirma superintendente do Imea

Insegurança no campo, alto custo pra produzir, controle de pragas, déficit de armazéns, falta de mão-de-obra qualificada, dificuldades para escoar a safra, baixo preço dos produtos, barreiras no mercado externo. Esse é um rol de problemas que já faz parte do cotidiano do homem do campo no Estado que é o maior produtor de grãos do país e usa máquinas com tecnologia de ponta. O desafio, agora, é ampliar o uso das tecnologias, melhorar qualidade e velocidade do sinal de internet e fazer melhor uso dos serviços digitais. O superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), Daniel Latorraca, afirma que os desafios que envolvem a produção agrícola em Mato Grosso são tratados com prioridade pelas lideranças do agronegócio. Economista com MBA em Agronegócio, com formação pela UFMT e Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo, respectivamente, Daniel é o gestor de um programa inovador no Estado, o Agrihub. Uma iniciativa da Famato, o programa aproxima os principais desafios do meio rural das tecnologias desenvolvidas no mercado. Em outras palavras, o Agrihub nasce para ser a ponte entre as dores no campo e as inovações tecnológicas. Entre os principais desafios, os da tecnologia estão na pauta do dia e foram destaque na programação de dois importantes eventos do setor em abril, a 11ª Parecis SuperAgro, realizada em Campo Novo do Parecis e o Summit AgriHub, em Cuiabá em abril. Confira a entrevista.

Gilberto Leite

Daniel Latorraca

 Daniel Latorraca avalia que o produtor rural deve ter cada vez mais um perfil inovador, com apetite de novos investimentos e apoiando pesquisas

Como está a realidade tecnológica dentro do Estado hoje?

Na verdade utilizamos tecnologia de ponta, não perdemos nada em comparação aos nossos competidores nas máquinas, produtos e insumos. Mas o que se vê é que as máquinas que os produtores possuem fazem muito mais do que tem sido utilizado. Por exemplo, o mapa de colheita, que é muito importante para o produtor, pois ele consegue ver com detalhes o quanto que ele colheu por área com precisão, mas ainda não se utiliza alguns recursos seja por um desafio operacional, ou porque não se tem uma mão de obra treinada para isso, ou porque o sistema de uma máquina da empresa A não conversa com o sistema de uma máquina da marca B.

Sinal de internet é apontado como um gargalo no campo.  Isso interfere no desempenho das lavouras?  

Também falta conectividade no campo, falta internet. Com isso, para se promover mais inovação no campo, estamos tentando levar esses gargalos para os empreendedores, pesquisadores e as universidades resolver. Na verdade, o campo sempre se utilizou de tecnologia, se não fosse pela tecnologia nós não teríamos agricultura no Cerrado, muito menos em Mato Grosso. Mas como é que eu posso em um ambiente competitivo reduzir o meu custo e aumentar a produtividade? E aí não é só nas tecnologias que a gente compra que vamos conseguir as respostas e sim nesses novos serviços digitais, que podem nos auxiliar, principalmente, quando estamos falando de médios e pequenos produtores, que possuem times enxutos e que precisam cada vez mais de informações e dados gerenciais para se manterem em atividade dentro da propriedade.

Não é só nas tecnologias que a gente compra que vamos conseguir as respostas e sim nesses novos serviços digitais

O que o pequeno ou médio produtor precisa para integrar o Agrihub?

Precisa ter interesse e perfil. No início, a primeira coisa que fizemos foi identificar os produtores que queriam participar do projeto. Para isso criamos a rede de Fazendas Alfa, que inclui aqueles que querem testar as tecnologias dentro da sua propriedade, ajudar as startups com monitoria com sua experiência de negócio. Hoje, existem 53 produtores na rede Alfa, mas existem novos produtores buscando isso. E independe do tamanho. Na rede de Fazendas Alfa temos produtores com 100 hectares e até com 10 mil hectares.

Qual o perfil ideal de produtor para integrar a Rede de Fazendas Alfa?

O que procurávamos eram produtores visionários, que valorizassem a pesquisa, com apetite ao risco. E são esses perfis que estão mais abertos para as novas tecnologias. Hoje, estão sendo realizados 42 testes em Mato Grosso, frutos dos nossos eventos de conexão. Nós trouxemos os produtores Alfa e as inovações para a mesma mesa. E para os problemas que não encontramos soluções já em implantação no país, nós criamos uma maratona aos universitários de Mato Grosso que vão em busca dessas soluções. Já foram quatro hackathons, cada um com 52h de duração, para desenvolver um protótipo de solução para o campo.

Existe ainda muita resistência dos produtores rurais em aderir às novas tecnologias?

Sem dúvida, o caminho é longo e no Brasil existem muitos desafios estruturais. A nossa briga sempre foi logística, transporte, silos, armazéns, construção de estradas. Mas, notamos estar entrando nessa agenda a infra-estrutura de comunicação. Agora, estamos falando de gerar mapas de colheita, ter informações mais autônomas dentro das propriedades. Isso tudo precisa de conexão, de internet, de uma rede de comunicação. Os produtores que não têm internet no campo demonstram uma resistência maior, mas os produtores que já têm internet ou alguma estrutura ou mesmo aqueles que não têm, mas estão procurando soluções, esses produtores estão cada vez mais em busca. O que de fato acontece é uma sucessão. Os primeiros que chegaram ao campo já estão sendo sucedidos pelos filhos. Isso tudo favorece o maior uso de novas tecnologias.

Entre problemas crônicos no campo, déficit de armazenagem é uma realidade. Quais são as saídas? 

A armazenagem é um deficit muito grande para os produtores. Os benefícios de se ter armazéns dentro da propriedade já estão comprovados. Entre esses benefícios, se destacam a padronização da própria soja para não ter problema de classificação, não pagar o frete da ponta curta - que é da fazenda até o armazém da trading -, ter como fazer a mistura dentro do armazém quando se tem uma safra mais problemática. Ou seja, tem uma série de fatores e de comercialização para esperar um preço melhor.

Em que momento se torna viável ter armazém dentro da propriedade?

Para cada produtor existe um cenário diferente, porque tanto se observa o investimento que precisa ser feito em uma estrutura como essa, quanto se observa o perfil do produtor. O Imea já possui estudos referentes a um produtor, que é típico aqui em Mato Grosso, com área de 1,5 mil hectares para menos. No nível de comprometimento que esse produtor tem com a safra não sobra margens para fazer um armazém sozinho. Ele teria que se juntar a uma cooperativa ou qualquer outra estratégia para ter uma capacidade de financiamento para fazer o armazém. Já aquele produtor com mais de 3 mil hectares, por exemplo, possui uma capacidade maior para financiar a construção de um armazém.

Gilberto Leite

Daniel Latorraca

Daniel aposta em abertura de mercados para o Brasil 

Brasil é livre da Febre Aftosa com vacinação. Que mercados podem ser abertos com essa conquista?

Essa é uma grande novidade. Se a gente parar para pensar em Mato Grosso hoje, nas nossas grandes produções, sejam elas de grãos ou de carnes, o Estado é um grande gerador de excedentes. Ou seja, toda grande produção se destina para outros Estados ou para outros países. Quando você tem esse selo ou essas conquistas, como Brasil 100% livre de Febre Aftosa, isso abre uma série de possibilidades. Em especial, abre novos mercados que deixaram de comprar a carne brasileira por causa dos riscos ou porque nunca compraram. Esses mercados vão ver o Brasil de uma maneira diferente. Então, toda essa questão sanitária que vem se discutindo muito nos últimos 15 meses é fundamental para que nossos compradores e até investidores, tenham mais confiança, não só para investir no país, como para comprar nossos produtos.

Existe muito espaço ainda a ser conquistado.

Mato Grosso já se consolidou como grande fornecedor de carne bovina e suína também, mas acreditamos que ainda temos muito espaço para conquistar com nossa carne que é de qualidade, atingindo cada vez mais público em outros países. Acredito que já temos feito grande volume com a exportação para o oriente médio, países como Rússia, China, Cota Hilton. Com isso, a potencialidade é de aumentar o volume para países já exportadores, principalmente para China, que é nossa maior compradora de soja e de carne, e atingir mercados como Japão, sudeste asiático, México e Chile, que são parceiros comerciais.

Há rumores de que existe lobby da indústria de vacinação nessa conquista de país livre da Aftosa ainda com vacina. Como você avalia isso?

Acredito que não. Quando falamos em comércio internacional de importação e exportação tudo o que as pessoas que estão no meio dessa relação comercial exigem, entre comprador e vendedor, é confiança. Por isso que existem os certificados, os selos, as inspeções, que aqui no Brasil são feitas com o SIF – Serviço de Inspeção Federal. Então, vejo que a questão da febre aftosa como relevante sim. Não conseguimos medir o quanto isso aumenta ou não para Mato Grosso o consumo de carne na exportação. O que conseguimos afirmar é que o risco de se comprar carne do Brasil diminuiu muito com o anúncio de que nosso rebanho bovino é livre de Aftosa com vacinação. Agora vamos para um estágio superior, com o propósito de, até 2023, sermos livres da aftosa sem vacinação.

Em relação ao etanol de milho. Existem previsões de novos investimentos em Mato Grosso?

Mato Grosso é o protagonista desta tendência. O Estado teve a primeira indústria flex do país produzindo etanol de cana-de-açúcar e etanol de milho. Nós do IMEA - eu sou economista, temos estatísticos, zootecnistas, geólogos -, realizamos uma série de estudos estratégicos anualmente. O mais recente deles foi o estudo sobre o etanol de milho, no qual avaliamos o mercado e como está a situação de energia para essas unidades de etanol de milho, que precisam de eucalipto (O eucalipto é utilizado para produzir fogo nas caldeiras nas usinas que produzem etanol). Todo esse arranjo precisa ser estruturado. Hoje o etanol de milho é uma tendência nacional, está comprovado que é economicamente viável, principalmente, no Centro-Oeste e em Mato Grosso, onde produzimos 30 milhões de toneladas de milho e consumimos apenas 4,5 milhões de toneladas. Ou seja, tem muito espaço ainda no mercado interno para agregar valor a este milho. Eu vejo que, com certeza, há uma grande tendência para o futuro e que está começando agora. Hoje já temos três plantas flex, temos uma planta 100% de milho em Lucas do Rio Verde e uma série de outros projetos em construção e em licença ambiental para serem inauguradas nos próximos anos. Vejo que isso é uma grande oportunidade para o Estado, não só de agregar mais valor por este milho, como consolidar ainda mais essa tendência de integração entre agricultura e pecuária.

Em que fase está Mato Grosso nessa integração entre lavoura e pecuária?

É uma tendência que começou muito recentemente, nos últimos 10 anos, e tem agregado cada vez mais valor. O Imea hoje tem uma parceria com a Embrapa Agrossilvipastorial de Sinop em que levantamos o custo de produção nestas lavouras integradas. Há integração Lavoura-pecuária, Pecuária-Floresta e essas plantas de etanol de milho que vêm em um momento muito importante na integração-lavoura-pecuária. Isto porque, além de necessitar do eucalipto para biomassa, disponibiliza o DDG – que é um farelo que sobra do processo industrial do etanol, retornando para os gados, sejam eles em confinamento, semiconfinamento, suínos e aves. É o que se estabeleceu em Lucas do Rio Verde.

2018 está sendo um ano de recuperação, não só para a economia, como também para o agronegócio

O custo de produção do etanol de milho tem vantagens sobre o da cana-de-açúcar?

Quando se compara a cana com o milho, a produção de cana por hectare é muito superior à do milho, mas quando se compara o custo industrial de produção do etanol, o milho leva vantagem em relação à cana.

Na safra atual, quais os principais riscos para o produtor. Há alguma cultura agrícola em risco?

Posso dizer que 2018 está sendo um ano de recuperação, não só para a economia brasileira e mato-grossense, como também para o agronegócio. No ano passado, nós tivemos uma boa produção, mas não tivemos bons preços, de maneira geral. Neste ano, o que estamos observando é que na soja tivemos novamente uma boa produção, batemos um recorde de produtividade, o Estado está colhendo quase 56 sacas por hectare, que é uma boa notícia. Os produtores estão fazendo o papel de casa, sendo mais eficientes por hectare, e isso, com certeza, é o que garante o desenvolvimento nos próximos anos. Este ano é um pouco diferente porque os preços se elevaram por conta da quebra da safra na Argentina e, também, em razão da redução das áreas que deve haver na produção americana. Então isso, de alguma maneira melhora bastante o valor bruto da produção (VBP) e o faturamento geral do setor, não só na soja e no milho, como também no algodão. Porém, se o produtor está ganhando dinheiro ou não, vai depender muito do produtor, pois sabemos que os custos de produção se elevaram muito também. A receita subiu, mas os custos também. Dessa forma, o produtor que não teve uma boa produtividade está passando dificuldades, tendo que basicamente passar a sobra para os credores.

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