ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 03 de Janeiro de 2019, 10h:09 | Atualizado: 03/01/2019, 17h:07

Para psicanalista, ansiedade é crescente e influenciada pela meta de ser feliz sempre

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Carlos Henrique Bezerra

 

A Organização Mundial de Saúde (OMS) colocou o Brasil como um dos países no mundo com o maior número de pesssoas com transtornos de ansiedade. Pessoas com qualidade de vida  abalada, que procrastinam suas atividades, sofrem de demasiado estresse, insônia, compulsividades e outras inúmeras questões rotineiras podem ser ansiosos com grandes chances de desenvolver outros males da saúde, que vão além da doença psicológica. Para entender melhor do que se trata, a reportagem falou com o psicanalista e psicoterapeuta Carlos Henrique Macena Barbosa, doutorando em Saúde Coletiva pela UFMT, que explicou comportamentos, sintomas e dados importantes desse transtorno que tem invadido mais lares do que se imagina.

Veja os principais trechos da entrevista:

O transtorno de ansiedade pode desencadear outros problemas de saúde ou sociais? É tão grave quanto a depressão?

A ansiedade está diretamente ligada a depressão e vários outros transtornos. Ela é um transtorno da esfera emocional, ligada a um impasse que é a dificuldade de o sujeito lidar com situações do dia a dia, como o trabalho, estudo ou com o constante medo de falhar. Ela é um alerta permanente. Isso afeta não só o psicológico e emocional, mas também a esfera física, que vai acarretar alteração de estado físico do sujeito, podendo levar também a depressão e outros problemas tão sérios quanto. É um transtorno grave e que merece cuidados.

Ao analisar socialmente, como as pessoas com tal transtorno tendem a se comportar na rotina?

Na esfera das relações cotidianas e dentro de alguns contextos, as pessoas tendem a recorrer a medicamentos ou drogas, como o excesso no consumo do álcool ou cigarro. Vivemos sob muita pressão, competitividade, e o não saber lidar com essa vida, com essa ansiedade, faz, muitas vezes, o sujeito recorrer a uma muleta. Essa muleta são as substâncias que irão ser usadas como sedativos da própria existência. Isso tudo para lidar com as intempéries da vida.  

Quais são os sintomas da ansiedade? Ela se manifesta de forma diferente em cada pessoa?

A ansiedade não afeta de maneira igual, vai depender do nível cultural, econômico, condições materiais. Uma das questões relacionadas a saúde social é a vunerabilidade, o sujeito estar exposto a fatores que podem o levar a ter um abalo e ficar enfraquecido. Cada indivíduo tem uma história de vida e ele tem uma predisposição diferente, uma estrutura biológica e neurológica que é de cada um, e, sobretudo, a dinâmica da personalidade de cada pessoa. Essas pressões que tem no mercado de trabalho e na vida cotidiana, como um todo, seja na forma física ou na busca pelo sucesso, vai afetar de forma diferente no comportamento  dessa pessoa. Eu costumo focar no jovem e adulto, porque ele está em fase de transição, cheio de dúvidas e sofre muita pressão. Porém, algumas pessoas vão ter dificuldades para superar adversidades, falo isso enquanto dinâmica da personalidade do sujeito.

Qual a diferença entre a ansiedade natural e o transtorno de ansiedade?

Costumo dar o exemplo entre a tristeza e a depressão. A tristeza some em alguns dias, mas a depressão permanece por semanas. Com o transtorno de ansiedade também é assim, porque ele não vai passar. É sempre um medo de falhar muito grande. Medo de viver, de errar. O ansioso pode desenvolver outras coisas como TOC, compulsividade ou pânico. Sempre que ele tem isso, certamente tem um quadro de ansiedade associado. São sintomas diferentes, mas ligados a essa impossibilidade de lidar com as pressões.

Arquivo Pessoal

Carlos Henrique Bezerra

Psicanalista Carlos Henrique também aponta que as redes sociais tem afetado as relações pessoais dos brasileiros

Os brasileiros estão mais ansiosos? Quais são os vícios de comportamento possíveis de analisar?

Algumas pesquisas mostram que 10% da população no Brasil tem transtorno de ansiedade. Para entender esse transtorno não se pode deixar de estudar a dinâmica social contemporânea. Nós temos, sobretudo da década de 80 para cá, um processo de individualismo muito grande, assim como um aumento no consumismo e no culto ao corpo. Isso se vê, principalmente, nas redes sociais, onde as pessoas querem parecer felizes. Existe uma cobrança para ser sempre forte ou bem sucedido. Coisa também que está tornando as relações distantes e mais superficiais, como um consumismo do outro, como se fossemos uma coisa também. As relações são afetadas por isso. A tecnologia, por um lado, facilita a comunicação entre as pessoas, porém dificulta as efetivas relações com o outro. Os vínculos que estão cada vez mais empobrecidos é o que leva a depressão, drogas, compusividade por comida ou compras, estresse e outros males.

O transtorno de ansiedade tem cura? Qual a solução?

As pessoas precisam entender melhor a si próprias, viver mais seus desejos, seus sonhos, ter projetos de vida. Em nível das relações, investirmos naquelas mais duradouras, mais sinceras, abertas e solidárias. Estamos em níveis de personalidade cada vez mais voltadas para metas irreais e falsas de felicidade e de vidas ligadas ao consumo. O que me preocupa são os charlatões da mídia e das religiões que se aproveitam disso para prometer receitinhas fáceis para tudo. Essa é a era do vazio de perspectivas. As pessoas tem medo do futuro, medo da vida e não admiram uma flor, um passarinho, um mar, mas ao dinheiro. Ninguém quer falar e se comunicar com o outro, as pessoas querem remédios, soluções rápidas e fáceis para tudo, ao invés de buscarem qualidade de vida. Isso é perigoso.

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