ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 12 de Dezembro de 2019, 14h:00 | Atualizado: 12/12/2019, 14h:06

Primeira enfermeira em época difícil de MT ajudava com conhecimento de plantas

Adelaide conta memórias de trabalho no Hospital Geral e criação de escola de formação de enfermeiros

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Adelaide de Almeida

 

Quando a reportagem chega à casa de Adelaide, com um sorriso largo, ela nos recepciona. Bem aprumada com um vestido claro de fios dourados, sentada em uma cadeira de balanço, é onde ela aceita responder as perguntas. A entrevista é conduzida no ritmo das memórias, que atravessa os corredores do Hospital Geral, um dos primeiros do Estado, e também da Escola Auxiliar Doutor Mario Correia da Costa, que Adelaide teve a iniciativa de criar junto ao Governo para formar outros profissionais de enfermagem. Foi Adelaide a pioneira em muito da saúde, enquanto ela ainda era mais precária e sem a menor infra-estrutura em um Estado em crescimento. Para o , a senhora conta que naquele período, não eram só profissionais graduados que faltavam nos interiores do país, mas também medicamentos e equipamentos para tratamentos de inúmeras enfermidades. As pessoas saíam de todos os cantos de Mato Grosso e esperavam, por vezes, meses por um atendimento. Os médicos eram contados nos dedos, e a enfermeira aposentada se recorda de ser braço direito de doutores como Clóvis Pitaluga de Moura, além de uma única parteira, que muito auxiliavam centenas de famílias nas casas distantes ou no próprio hospital. Adelaide também conta que na falta de medicamentos, naquela época, indicava chás aos pacientes enfermos pelo seu amplo conhecimento de plantas adquiridos por meio das matriarcas que teve.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Como foi quando decidiu estudar e retornar para MT e ser a primeira enfermeira do Estado?

Terminei o ginásio e naquela época era difícil ir para o campo científico, mas eu gostava e queria estudar. Muitos ficavam pelo Rio de Janeiro mesmo, mas eu voltei pois Mato Grosso precisava de profissionais nessa área. Fui comissionada pelo Estado e, atuando no hospital, resolvi abrir uma escola de enfermagem que acolheu muitos candidatos. Selecionei cada um deles e dei a primeira etapa de ensino, após alguns meses, estavam prontos para estagiar no hospital. O curso era muito agradável e útil para a comunidade toda, seis meses depois, eles já eram auxiliares de enfermagem.

Rodinei Crescêncio

Adelaide de Almeida Orro

Adelaide de Almeida Orro, pioneira em MT na área da enfermagem, recebe a jornalista Mirella Duarte em sua casa para entrevista muito especial

Além da senhora, como era o convívio com outros profissionais da saúde no Estado?

O Clóvis era grande incentivador da escola, além de governador Fernando Correa da Costa, bispo e militares presentes na solenidade de formandos. Ao todo, era um ano e seis meses de curso. A escola era no próprio Hospital Geral, não tinha prédio próprio. Estive junto com a enfermeira Edna Catharina Perri Ricci, que também foi minha professora na Escola Anna Nery do Rio de Janeiro, na época, uma referência para esse curso no país. Eu e Edna nos dávamos muito bem, ela tinha mais experiência que eu, e o apoio dela foi essencial.

Quem eram os principais pacientes? Eles viajavam de muito longe para o atendimento?

Atendíamos todas as classes sociais, o hospital estava em constante crescimento, gente que atravessava o Estado todo para uma única consulta e tratamento de alguma enfermidade. Eu sonhava que a saúde fosse melhor um dia, inclusive a dos pobres, porque aqueles que têm dinheiro podem se salvar com tratamentos fora daqui. Hoje em dia, poderia e deveria ser melhor se houvesse honestidade das pessoas que dirigem esse setor público. Depois da escola de enfermagem fui chefiar serviço de saúde na Secretaria de Saúde, onde fiquei mais sete anos e depois aposentei. Trabalhei por 38 anos.

Como era atuar como enfermeira naquele tempo? Como se virava para ajudar os pacientes em um período tão precário?

Rodinei Crescêncio

Adelaide de Almeida Orro

Adelaide fala das dificuldades no período que trabalhou

Ser enfermeira aqui era muito difícil. As pessoas que atendiam os pacientes, antes dos enfermeiros, ainda não entendiam a importância dessa profissão. Tinha pouco conhecimento e as pessoas não entendiam do que se tratava, não tinha avião, os medicamentos demoravam a chegar na cidade e por isso também tínhamos que indicar chás e outras ervas para os pacientes. Contava para os médicos o que havia acontecido, eles riam e me diziam que eu não tinha jeito, mas era o único jeito de ajudar aquelas pessoas. Eu havia aprendido muito com minha mãe sobre plantas, e ela por sua vez com a mãe dela. Na fazenda que morávamos havia um pomar imenso e quando um médico chegava e questionava, eu logo dizia que não tinha outra alternativa, eles entendiam que era necessário medicar ou ajudar no tratamento daquela maneira. Parto, por exemplo, só havia uma parteira em Cuiabá e que se chamava dona Franquilina, ela atendia dia e noite, pessoas com recursos e sem recursos. Ela não estipulava valores, cada um pagava como poderia pagar. Ela não ajudava no hospital, o hospital que ajudava ela.

Haviam setores separados, como de idosos, crianças, maternidade? Como funcionou esse crescimento?

As crianças quase não eram cuidadas nos hospitais, eram cuidadas pelos pais. Não havia escolas antes dos seis anos. No hospital, não existiam setores separados como pediatria ainda, eram todos juntos. Fiz muitos partos, inclusive quando começamos com a maternidade. O berçário foi criado depois, aí levavam para maternidade só para amamentar.

Como era sua relação com as outras enfermeiras que foram se graduando? Como elas viam a senhora? Era uma referência?

Eu tinha muitas amizades, todas as enfermeiras gostavam muito de mim e eu delas. No Conselho Regional de Enfermagem de Mato Grosso, que ainda existe hoje, fui a primeira presidente e hoje ele segue firme e forte. Era muito difícil mulheres estudarem naquele tempo, mas depois de mim, muitas conseguiram estudar. A irmã, por exemplo, nascida depois de mim, se formou em Psicologia, foi à primeira do Estado também.

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Comentários (1)

  • Rosa Bottosso | Domingo, 02 de Fevereiro de 2020, 04h29
    0
    0

    Muito bom poder ver e ouvir esta grande mulher a falar de seus feitos na enfermagem Parabéns pela matéria.

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