ENTREVISTA ESPECIAL

Sábado, 11 de Abril de 2020, 08h:20 | Atualizado: 11/04/2020, 08h:26

Professora da UFMT cria força-tarefa para testes da Covid-19 no Estado - saiba mais

Rosane Hahn

Para assegurar rapidez e confiabilidade na detecção dos casos da Covid-19 em Mato Grosso, a professora e chefe do setor de gestão de pesquisa e inovação tecnológica do Hospital Universitário Júlio Muller, Rosane Hahn, estabeleceu uma parceria com as faculdades de medicina e veterinária da UFMT, com a utilização equipamentos que possibilitam a execução de testes na metodologia RT-PCR para pacientes internados na unidade e profissionais de saúde com sintomas de infecção pelo vírus. 

Tanto o Hospital Júlio Muller, quanto as faculdades de medicina e veterinária da UFMT, possuem os aparelhos necessários para a realização do exame. Assim que observou que as instituições tinham mão de obra qualificada de professores especializados e equipamentos para ajudar na pandemia causada pelo novo coronavírus, Rosane resolveu criar uma força-tarefa. Os dois equipamentos (um da faculdade de medicina e outro da faculdade de veterinária) serão levados para o laboratório de pesquisa do Hospital Júlio Muller, onde serão realizados os testes na metodologia RT-PCR, considerada como “padrão ouro” (excelência) no diagnóstico da doença. 

As testagens "piloto" para calibrar as máquinas estão previstas para começarem na próxima semana. Os kits de teste para Covid-19 já foram adquiridos e devem chegar em, aproximadamente 20 dias. A demora na entrega é decorrente da falta de insumos necessários para lidar com o diagnóstico molecular laboratorial vírus, situação que se repete em todo o mundo. 

Rosane é formada em Farmácia Bioquímia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), no Rio de Janeiro. Ela concluiu a graduação em 1983. Cinco anos depois se tornou mestre em Ciências Biológicas com enfâse em Microbiologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Em 2002, a professora adquiriu o título de doutorado nas mesma área também na UFMG. Atualmente é docente-orientadora vinculada ao programa de pós-graduação em Ciências da Saúde na UFMT, na área de doenças infecciosas. Entre 2014 e 2019, Rosane ainda assumiu a presidência da Sociedade Brasileira de Micologia. 

Confira os melhores trechos da entrevista:

Rosane Hahn

Como está estruturada a força-tarefa com a participação a UFMT e qual o papel do Júlio Muller nesse trabalho?

Nós realizaremos o método de RT-PCR que é o “padrão ouro”, o mais sensivel e específico para o diagnóstico laboratorial para pacientes com sintomas da Covid-19, principalmente na fase aguda da doença. Esses testes podem ser realizados por laboratórios privados, temos alguns, mas eles não realizam o teste em Cuiabá, enviam para Brasília ou São Paulo. Em termos de laboratórios públicos, é o Laboratório Central do Estado (LACEN), que tem a responsabilidade estadual em realizar esses exames. 

Como o estado de Mato Grosso apresenta grande extensão territorial, nós, enquanto Hospital Júlio Muller - que é referência em Cuiabá para internação e tratamento dos casos graves da COVID-19, resolvemos fazer uma força-tarefa, Temos um laboratório de pesquisa, que atualmente sou a responsável. Fizemos parceria com as faculdades de medicina e veterinária da UFMT, onde contamos com três professores com larga experiência na tecnologia R-PCR.

Contaremos com três equipamentos para atender não só aos pacientes que foram internados na unidade, como todos os servidores terceirizados e profissionais de saúde do hospital, além dos médicos residentes de todas as especialidades que também estarão na linha de frente. As máquinas já estão no hospital, na segunda começaremos testes com amostras positivas e negativas, que seriam os controles para validar os equipamentos.

Cada estado tem sua população e peculiaridades, aqui em Mato Grosso ainda temos um dos melhores cenários, é muito complicado fazer uma estimativa

Estamos esperando a chegada dos materiais de consumo (kits) para que possamos fazer os testes. Solicitamos em 20 de março, fizemos uma compra de emergência, o prazo para entrega é de 20 a 30 dias,a previsão para chegada é por volta do dia 20 de abril. Será muito importante como colaboração. O LACEN vai estar muito sobrecarregado para fazer testes de todo o estado. Tomei a iniciativa porque temos profissionais e equipamentos.

O pico de casos da Covid-19 está previsto provavelmente para acontecer entre a segunda quinzena de abril e primeira quinzena de maio. Como pesquisadora, você acredita que Cuiabá está preparada para esse tipo de atendimento?

Cada estado tem sua população e peculiaridades, aqui em Mato Grosso ainda temos um dos melhores cenários, é muito complicado fazer uma estimativa. Acho que a SES tem feito um esforço imenso para isso, mas, como qualquer outra capital, para uma “explosão de casos” é preciso organização prévia do sistema de saúde. Tem sido feito um esforço muito grande, para que essa curva seja achatada, mas dependendo de como ocorra esse “boom”, não há como prever. Em relação aos EPIs há atualmente grande dificuldade de aquisição mas a faculdade de medicina tem se empenhado na aquisição, assim como o governo estadual (SES-MT), porém tem sido utilizados com muita parcimônia justamente para que se tenha unidades disponíveis para os profissionais que atual na linha de frente. 

Sobre a cloroquina: o Estado recebeu doses do medicamento, ainda não foi usado na rede pública, mas qual a sua avaliação sobre a medicação?

A única coisa que podemos falar é que foi liberada pelo Ministério da Saúde para tratamento dos casos graves (ou seja pacientes internados). Existem estudos e experiências com êxito no tratamento de alguns pacientes, mas os estudos publicados envolvem número reduzido dos mesmos. Não há ainda estudo clinico randomizado robusto, motivo pelo qual não está liberada para casos leves ou moderados da doença. 

Temos visto alguns movimentos para reabertura do comércio, o isolamento social é importante para conter a pandemia do novo coronavírus?

O isolamento social ainda é importante, apesar de não impedir que as pessoas se infectem, ele serve para que o SUS se estruture para quando ocorram muito mais casos da Covid-19. Grande parcela da população será infectada, existem àqueles com maior risco, que terão a doença em sua forma agravada. Mas, na minha opinião, é uma medida muito sensata, acho que o cenário poderia estar pior sim. Claro que, falando de saúde e não de economia. 

Rosane Hahn

Na sua opinião, quando a pandemia do novo coronavírus acabar, é possível que a população dê mais valor aos pesquisadores e especialistas da ciência?

Acho que sim, sou pesquisadora, tudo que tem sido testado, tudo que está se construindo, está se construindo no mundo todo através de evidências científicas. A própria cloroquina, toda a discussão é porque ainda precisamos fazer um estudo maior, um ensaio clínico randomizado controlado. É uma grande oportunidade, diante dessa pandemia e da crise, para que vejam quanto a ciência e tecnologia são importantes. O quanto todos os governos precisam entender e investir em ciência e tecnologia.

Muitos pensam que a pesquisa não se torna prática, mas, essa força-tarefa que articulei com a universidade é o maior exemplo da ciência aplicada. Vamos fazer uma parceria inter-institucional com a secretaria estadual de Saúde (SES). É a importância da universidade que faz pesquisa, que tem profissionais treinados, que publica artigos científicos. 

Aqueles que sentirem febre, tosse e dificuldade em respirar devem procurar orientação médica

Qual a diferença da pandemia causada pelo novo coronavírus com relação a outras epidemias?

Seria a transmissibilidade, a velocidade de propagação do vírus é muito grande. Sinais comuns da infecção incluem febre e tosse seca e, em menor proporção, sintomas respiratórios, dores no corpo e incômodo na garganta. Algumas pessoas são infectadas, mas não apresentam sintomas e não se sentem mal. Cerca de 80% se recuperam sem precisar de tratamento especial e uma em cada seis pessoas que contraem o coronavírus acaba gravemente doente e desenvolve dificuldade em respirar.

Pessoas idosas e com problemas crônicos, como pressão alta, problemas cardíacos ou diabetes, têm maior probabilidade de desenvolver a forma grave da doença. Aqueles que sentirem febre, tosse e dificuldade em respirar devem procurar orientação médica. Nos hospitais, vivemos dois momentos, o de “pesadelo” em que pensamos que tudo isso não está acontecendo, mas, logo precisamos voltar para a realidade e enfrentar. Vemos países tomando medidas extremas, como no Reino Unido em que profissionais de saúde estavam usando sacolas plásticas para se proteger por conta da falta de EPIs. O novo coronavírus é sério e é real.

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