ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 12 de Setembro de 2019, 14h:42 | Atualizado: 12/09/2019, 15h:05

Querem nos forçar a ter outra religião, diz Babalawo sobre ataques ao Candomblé

Baba Georg Baranjak fala sobre a intolerância em torno das religiões de matriz africana em MT e no país

Rodinei Crescêncio

Georg Baranjak

 

Desde que era menino é um apaixonado pelo africanismo e, por isso, junto à família, desenvolveu sua espiritualidade nos terreiros das religiosidades de matriz africana. Georg Baranjak contou à reportagem que chegou em Cuiabá em 1964, vindo com a família da Capital paulista – em pleno momento de efervescência política no país. Por ter morado alguns anos no Rio de Janeiro, percebeu que há 50 anos as favelas, ainda repletas de casas de axé, tinham como apoio e proteção os terreiros de Umbanda e Candomblé. Ele, que fez santo em 1973, montou seu primeiro terreiro quase uma década depois no bairro Lixeira, e, desde então, auxilia na abertura de inúmeras casas e terreiros em Cuiabá e Várzea Grande. É historiador de formação e Membro do Comitê Estadual dos Povos e Comunidades tradicionais do Estado de Mato Grosso, mas antes disso, sacerdote de Umbanda, Candomblé e Culto de Orunmilá Ifá – o último, quando adquiriu conhecimento e sabedoria após ir até a Nigéria. Em entrevista, ele definiu alguns tópicos da intolerância religiosa no Brasil, além de racismo e interpretações errôneas, a partir do cristianismo, que foram projetaram nas divindades africanas.

Veja os principais trechos da entrevista:

Não é comum que se abram terreiros em um momento de tanta intolerância religiosa no país. Qual a maior dificuldade de ser de uma religião de matriz africana e o que enfrentam?

Comum não é, mas também não é nada abstrato. O maior problema de quem vai abrir hoje um terreiro é a discriminação religiosa, social, racial, homofóbica e xenófoba. Já pensou hoje uma mulher ser negra, lésbica e mãe de santo? Está morta. Um homem homossexual, negro e religioso? Está morto. Quando chego a qualquer lugar para fazer palestra, seja como historiador ou qualquer outra função, quando digo que sou do Candomblé e que apesar de não ser negro - conto que iniciei na umbanda com quatro anos de idade e sou defensor dessa cultura ancestral negra e religiosa do Brasil -, todo mundo vira a cara. Teve uma vez que não me esqueço, estava em um supermercado e encontrei uma pessoa que me conheceu em uma palestra. Quando a pessoa me viu, até benzeu o corpo e se mudou para o outro lado.

Rodinei Crescêncio

Georg Baranjak

Babalawo Georg Baranjak em frente à árvora Iroko, considerada Orixá do Candomblé, plantada em terreiro localizado no bairro CPA III, em Cuiabá

Acredita que as religiões de matrizes africanas ainda são demonizadas?

O demônio só existe em uma cultura, que tem origem a partir do cristianismo. Para eles existem, louvam o satanás e o demônio. Nós não, porque não existe essa figura nas nossas religiões de matrizes africanas. Essa confusão religiosa ocorreu porque existiu um pastor evangélico que foi na África fazer uma pesquisa na Nigéria, e teve contato com algumas divindades, entre elas, Exu. Quando ele retornou aos Estados Unidos não havia nenhum termo para traduzir essa entidade que considerou escura e sombria, e no livro descreveu que Exu é o demo. Até hoje fazemos campanha para desmistificar isso, uma interpretação errada, preconceituosa e racista – por ser uma religião de negros, e na religião protestante onde eles se acham superiores, brancos demais, fizeram uma comparação demoníaca a essa divindade. Tentaram fundir, de alguma maneira, as crença ocidental com a oriental. São coisas diferentes, não comparamos e não cultuamos o demônio, porque ele sequer existe para nós.

Por qual motivo acredita que isso ainda ocorre?

Continuo achando que a falta de conhecimento domina, mesmo que com a internet e a globalização. Afirmo que só não entende o que é a religião, quem não quer. O Brasil diz ser laico, mas foi eleito um presidente como Jair Bolsonaro que quer tratar nossa religiosidade como nos tempos de colônia, ao seu lado, em todas as bancadas, há um pastor evangélico. Querem nos forçar a ter outra religião. Os ataques são intensos aos terreiros, e quando Bolsonaro facilitou o favorecimento de armas, não foi para combater a bandidagem, porque ela continua comendo solta, seja a de políticos ou outros tipos de criminosos. Nas igrejas falam o tempo todo, louvam e homenageiam demônios, capetas e o diabo. Na cultura africana, em geral, tanto no oriente, como na África ou China, não existe demônio. Em nenhuma dessas culturas há a personificação do mal, o que existe, é a duvida do ser humano entre fazer o bem e fazer o mal. Ser bom ou mal não se trata de religião, mas da maldade que está no coração de cada um.

Rodinei Crescêncio

M�e Edna de Oxum e pai Georg Baranjak

Georg recebe o Rdnews ao lado de sua filha espiritual, a mãe Edna, e posa ao lado de estátua de Oxossi e Logunedé

Acha que há uma inversão de valores das periferias ou pessoas que também tem descendência negra favorecem na discriminação ou intolerância religiosa?

Antigamente os negros, de todos os níveis, e até os bandidos, ficavam dentro do terreiro para proteger as casas de santo. Hoje, com essa inversão histórica, perseguição aos terreiros e infestação de igrejas protestantes em todas as periferias, até negros com descendência em Candomblé, Umbanda, negra ou indígena, aprenderam a odiar suas origens e querem, junto com as religiões que nos atacam, acabar com os terreiros também. No rio de Janeiro é onde isso mais acontece, sendo que historicamente no morro, onde foram antigos quilombos e hoje permanecem muitos terreiros, eram também um meio de proteção para o povo negro que se refugiava da escravidão. O pessoal da favela não tinha acesso aos tratamentos médicos, por exemplo, e iam no terreiro tomar banhos e chás ou consultar o oráculo. Morei no Rio de 1973 até 1982, e o que mais via por lá era pessoas da favela no terreiro. Quase cinqüenta anos depois, continua a mesma coisa. Só que hoje em dia, dentro dos presídios, existem alas evangélicas que estão dominando tudo. Porque a Igreja Católica deixou, por muito tempo, de atender os pobres e a periferia, com isso, as igrejas neopetencostais dominaram estes territórios também, e é desta forma que até quem tem ancestrais dessas religiosidades estão se virando contra ela. Não gostando da própria cor, negros se casando com mulheres loiras e não favorecendo – como orgulho – o próprio povo negro.  

Como acredita que outras religiosidades atraíram o povo negro para a esfera deles? Acredita em algum tipo de apropriação cultural?

A exorcização é coisa de terreiro, banhos de proteção e amarração. existem igrejas que estão fazendo o que nós fazemos há séculos, além das questões espirituais, as simbólicas, como fazer nosso acarajé e a capoeira. É uma apropriação para que exista essa identificação com o povo negro e, então, fiquem mais fortes com eles. O terreiro não cobra trabalho e consulta, se a pessoa tiver condições de dar, ela dá. Se não tiver, ela vai lá ajudar a fazer uma limpeza na casa ou ajudar, lavar uma roupa, cuidar das crianças ou uma atividade e outra. A Igreja Católica ajudou a escravizar nas colônias, não estavam do lado do povo negro. O Brasil foi colonizado por brancos, e o Brasil hoje é a segunda maior população negra do mundo. Na época da escravidão fizeram que mulheres negras virassem parideiras para que tivessem mais filhos negros e virassem seus escravos. Me pergunto cadê a consciência racial disso, sendo que já estamos em 2019 e indo para 2020. Onde está a compreensão da nossa história e me pergunto que religião, além das nossas, que vai falar disso? Não existe. Todas as religiões de matrizes africanas que conheço pregam o bem, não conheço uma única que não prega isso. Daí, vem outras religiões não africanas e de culturas diferentes com interpretações errôneas, e pregar o ódio contra os terreiros que são a resistência de todas essas pessoas.

Em vídeo, Georg Baranjak fala sobre risco de ataques a terreitos em MT:

Acredita que, de certa forma, manter um terreiro e as tradições vivas é um tipo de resistência?

Quanto mais o cristianismo bate no povo de matriz africana, mais terreiros abrem. Para mim, essas intolerâncias que estão acontecendo em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, onde mais invadem os terreiros, quebram tudo e matam os pais de santo, é que se mostra que ainda somos resistência e também existimos, pois estamos incomodando. Estamos mostrando que a nossa cultura nesse país, desde 500 anos atrás, existe. Nossas roupas e nossos colares existem, por mais escondidos que ainda tenham que permanecer, por questão de sobrevivência, estão também dentro do nosso ser.

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Comentários (4)

  • Cleber | Sábado, 14 de Setembro de 2019, 15h43
    0
    3

    Todas religiões tem força, mas a única que salva e tem poder chama-se JESUS CRISTO.

  • Dr. Eurípedes | Sábado, 14 de Setembro de 2019, 09h41
    2
    1

    Seitas que fazem sacrifícios de animais, não são de Deus. Deus e Jesus não precisam de sangue de animais indefesos para se satisfazerem ou atenderem seus pedidos. Jesus quando esteve entre nós, NUNCA, pediu ou ordenou que se oferecessem sacrifícios para ele ou o pai. E sim, que nos amasse uns aos outros, sem distinção. Corram destas seitas malignas, não dão futuro pra ninguém. Querem algo para suas vidas ??? Peçam direto pra Deus, Nosso Pai e Criador, através da oração e da caridade que fazemos para com o nosso próximo. Se for de seu merecimento, Deus e Jesus te atenderá. Que Deus nos abençoe !!!

  • ozeias souza de oliveira | Sexta-Feira, 13 de Setembro de 2019, 08h01
    5
    7

    Jesus disse Eu sou o caminho a verdade e vida. Ninguem vem ai pai a não ser por mim.

  • Valdemir dos Santos Filho | Sexta-Feira, 13 de Setembro de 2019, 07h23
    1
    4

    Gostaria de saber aonde fica

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