ENTREVISTA ESPECIAL

Quinta-Feira, 09 de Agosto de 2018, 10h:30 | Atualizado: 09/08/2018, 11h:03

Sem se arrepender de piada considerada racista, cuiabano testa limites do humor

O Jacaré Banguela fala sobre piadas com candidatos e sacramenta que o limite do humor é o dinheiro

Rodinei Crescêncio

Rodrigo Fernandes

 

O Brasil é o país dos memes, não importa o momento, quase tudo vira piada. Por isso o resolveu abordar um tema que efervesce os debates. Youtubers, humoristas e pessoas públicas que geram discussões de todos os tipos. O entrevistado desta semana é um comediante cuiabano, Rodrigo Fernandes, e que alavancou a carreira com o blog Jacaré Banguela, criado em 2004. Desde 2006, ele publica conteúdo de humor no Youtube, o que o levou tomar proporções maiores pelo país. Fruto da internet, Rodrigo foi contratado pelo SBT e, até este ano, participou do Programa da Eliana ao se consolidar como humorista. Mês passado, após um twitte sobre o cantor e ator Jaden Smith, filho da lendária estrela de cinema Will Smith, causou indignação nas redes sociais. O comediante foi acusado de racismo e recebeu uma resposta do jovem, também em tom de ironia. Por conta da polêmica, ele perdeu contratos, e se desvinculou a pouco mais de duas semanas da TV que trabalhava. Residindo em São Paulo, ele falou pelo celular e email sobre os limites do humor, importância do comediante em temas políticos e sobre o comentário que fez sobre Jaden.

Confira os melhores trechos da entrevista:

Hoje se discute muito sobre os limites do humor. Piadas com grupos de minorias, como nordestinos, negros e homossexuais, são frequentemente questionadas. Dá pra ser bem humorado sem alguém se sentir ofendido?

Divulgação

Tweet Rodrigo

Tweet do humorista sobre o ator Jaden Smith durante a final da Copa do Mundo na Rússia foi considerada racista

Toda piada tem um alvo. Isso é um fato. Você não faz uma piada sobre o nada. O alvo pode ser o próprio comediante ou tudo ao seu redor. Eu vejo da seguinte forma: se eu incluo todo mundo nas minhas piadas, meu humor atinge a maior parte da plateia. Se eu excluo pessoas, credos, raças, gêneros... aí eu estou sendo seletivo. Vejo que alguns grupos que pedem inclusão social são os que mais reclamam de piadas. Bem, eles têm que decidir então. É pra incluir ou é pra excluir? O comediante faz a piada pra que a plateia ria. Pode acontecer de alguém se ofender? Claro, mas quem não se ofendeu riu. De que lado você quer estar na platéia? Do lado que se diverte ou se ofende?

Com a mente fria, após as retaliações sobre Jaden Smith e seu comentário, que foi bastante criticado, se arrepende ou pretende mudar sua maneira de fazer piadas? Qual o limite do humor?

Tem uma frase popular que eu não sei de quem é, mas diz que "Eu sou responsável pelo que eu digo, não pelo que você entende". Sinto que foi um pouco isso que aconteceu naquele caso. Eu falei uma coisa e algumas pessoas fizeram questão de entender outra. Claro que isso me fez repensar algumas coisas, mas jamais em desistir de fazer humor. Acho que estamos passando por uma fase de adequações e já já tudo se encaixa de uma nova maneira. Perdi alguns contratos por conta da piada, mas não me arrependo de tê-la feito. Talvez me arrependa de como a fiz. Se eu tivesse deixado mais claro o tom da piada, talvez nada disso tivesse acontecido. Não da pra saber. Entre os comediantes, já existe resposta para a pergunta sobre o limite do humor. É o dinheiro. Quando você começa a perder, é hora de repensar, mas nunca de parar.

O Jacaré Banguela teve como alavanca o blog e canal na internet, se tornou popular e ganhou notoriedade por outras partes do país. Por conta disso, você também atuou no meio televisivo. Sendo fruto deste meio, como vê os haters ou o constante policiamento dos internautas nas publicações?

A gente se acostuma. Com o tempo ficamos mais tranquilos com pessoas que discordam da gente. Eu sou do time do debate e geralmente parto do princípio de: o que te incomoda? Me fala e a gente se resolve. Na internet nem sempre é assim. As pessoas querem simplesmente impor seus pensamentos como se fossem verdades absolutas e não existe diálogo. Na maioria das vezes em que percebo que a pessoa não quer conversar, mas sim brigar, eu silencio ela e sigo minha vida tranquila. 

Divulgação

Rodrigo Eliana

Rodrigo durante programa apresentado por Eliana, no SBT; ele perdeu o contrato após a polêmica com Jaden Smith

O STF liberou piadas e paródias com políticos também em período de eleição. Qual sua opinião sobre a tentativa de restrição e qual o papel do humorista ou chargista na geração de conteúdo durante o processo eleitoral?

Acho que o maior desafio sempre é competir com os políticos. Enquanto a gente se esforça pra falar coisas absurdas e engraçadas, a maioria deles fazem isso com uma naturalidade exemplar! Política é algo muito complicado e tem muito do jogo da manipulação, por isso acho que o humorista é importante pra apontar esse jogo. Abrir os olhos do público usando a comédia para que a gente não fique refém dos poderosos. Sou totalmente a favor da liberdade de expressão, inclusive pra discordarem de mim. Censura nunca é a melhor solução.

Na sua opinião, qual o futuro do humor brasileiro?

Nós somos palhaços, bobos da corte animando o Rei. Enquanto o Rei estiver bravo e querendo a nossa cabeça, vamos ficar acuados como estamos. Pisando em ovos. Acho que logo o Rei acalma e nós voltaremos a falar sobre tudo, todos e todo mundo rir junto. Por enquanto, a comédia parece ser algo proibido, como se estivéssemos em período de Inquisição. A pessoa que não ri quer proibir que as outras riam e isso é cruel. Mas tenho certeza que com o passar dos tempos tudo vai melhorar e no final vamos rir de tudo isso.

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