ENTREVISTA ESPECIAL

Sábado, 28 de Março de 2020, 15h:16 | Atualizado: 30/03/2020, 09h:53

Temor com coronavírus pode elevar casos de estresse pós-traumático, diz psiquiatra

Manoel Vicente faz alerta quanto a saúde mental da população que enfrenta pandemia de coronavírus

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Manoel Vicente

Todos estão preocupados com os riscos do coronavírus para a saúde e não se pode negligenciar a saúde mental. Ansiedade e depressão já eram doenças preocupantes (sendo a depressão uma das principais causas de incapacidade para o trabalho em todo o mundo, segundo Organização Internacional do Trabalho). O conversou com o psiquiatra Manoel Vicente de Barros que alertou para o impacto da doença. Segundo ele, após se controlar a crise gerada pelo Covid-19, podemos viver uma pandemia de depressão e estresse pós-traumático. 

Confira os melhores trechos da entrevista:

Vivemos uma pandemia em um mundo globalizado, como você tem visto o impacto dessa situação na saúde mental das pessoas?

É meio que generalizada a tensão que está acontecendo. As pessoas têm ficado ansiosas sozinhas e angustiadas. Talvez porque elas não têm como conversar com os outros, se estiverem isoladas, e não estão vendo pessoalmente os amigos e familiares. Elas têm a falsa impressão de que estão preocupadas sozinhas. Na verdade, tenho visto também entre as pessoas com quem convivo, na família ou amigos, e dentro do consultório. É generalizada a tensão e a angústia. Até alguns pacientes da saúde mental, que vinham com quadros estáveis, de repente se veem diante de vários conflitos que são complexos, têm muitas camadas. 

Como o medo do coronavírus está afetando diretamente as pessoas?

Eu costumo dizer que a ansiedade tem três grandes medos: de ameaças externas, de ameaças internas e medo nas relações interpessoais. O coronavírus consegue abarcar esses três grandes medos. Porque é uma ameaça externa ao mesmo tempo que é uma doença que pode ser desenvolvida internamente. Como as pessoas são confinadas com seus familiares, com quem podem ter desafetos, as coisas se complicam nas relações interpessoais. O cotidiano das pessoas foi afetado.

Quais os riscos para a saúde mental?

Elas ficam confinadas e precisam encarar familiares com quem já tiveram dificuldades e obrigadas a conviver por conta do confinamento.  Imagina aquele familiar com quem você teve uma discussão política, nesse contexto de polarização, e agora você tem que conviver com ele dentro da mesma casa sem poder sair. Ou então, as pessoas que estavam com uma seguridade de emprego e passaram a questionar como vai ficar o futuro, como as coisas estarão daqui 2 meses.  Dentro do trabalho também começa a eclodir um monte de conflitos. Quem cuida, por exemplo, de um parente idoso e tem tomado todos os cuidados com higiene, mas chega no trabalho e vê os colegas brincando sobre o assunto, espirrando em cima de gracinha. Como médico, me questiono se a pessoa tem uma ansiedade causada por esse momento e ela precisa de um atestado. Porque aqueles que tem um trabalho que poderia ser convertido em home office, não é liberado para isso?

Assessoria

Manoel Vicente

Manoel Vicente, que é especialista em depressão e ansiedade

Como andam as pessoas que já estavam em tratamento para doenças mentais, como ansiedade e depressão?

Tem pacientes que estavam muito bem resolvidos, com medicação estável há meses, mas se veem tendo medo pela vida da avó que ela cuida, por exemplo. Mas  essa pessoa precisa pegar um ônibus para ir até o trabalho, conseguir dinheiro para poder cuidar da avó dela.  Ela não tem outra opção. As pessoas estão em um xeque-mate e precisam aprender a filtrar notícias falsas,  alarmistas, ou pior, aquelas negacionistas do mundo real, que acham que não tem nenhum perigo.

Entre profissionais da saúde, como estão chegando as informações?

Nós estamos falando de leigos e leigas que estão perdidos, mas não só eles estão. Dentro da comunidade médica não se esperava tudo que está acontecendo. Procuro ler o que há de mais novo em publicações científicas em torno do coronavirus e ainda se sabe muito pouco. A cada dia, a própria Organização Mundial da Saúde muda um paradigma. Isso acontece até mesmo com os médicos da China, que foram os primeiros a lidar com os casos, não sabem todos os detalhes. A gente vê um excesso de informações circulando e também novas informações chegando a todo momento e isso traz uma sensação de insegurança ao ponto de ter uma migração de médicos e outros profissionais da saúde que tem indo morar em hospitais e hotéis para proteger a família do contágio.

Quais as perspectivas para os próximos meses, depois de passada a crise da pandemia?

Esse estresse social, financeiro e emocional tende a aumentar os quadros depressivos. Se no primeiro momento a ansiedade chama atenção, é preciso pensar no que vem depois. Alguns vão viver situações mais dramáticas de ver pessoas muito queridas indo ao hospital. Quem for internado, vai vivenciar situações trágicas dentro de hospitais, se acontecer realmente um colapso, e tudo indica que vai acontecer dentro de algumas semanas. Alguns vão deixar de estudar e até de trabalhar, o que em outro momento era o propósito da pessoa, aquilo que a deixava mais tranquila. A tendência é que depois de um tempo a gente ainda tenha que tratar o estresse pós-traumático. Quando teve a epidemia de síndrome da insuficiência respiratória aguda na China, em 2002, mais da metade da população desenvolveu estresse pós-traumático.

A rede de saúde mental desde a lei antimanicomial de 2001, passava por uma evolução que foi interrompida no início do atual governo federal, suspendendo até recursos.  O SUS está preparado para isso após a pandemia?

Especialmente em Cuiabá, a rede de saúde mental já não possuía condições de atender aqueles que precisam. Apesar de todas as portarias do Ministério da Saúde, Cuiabá não tem nenhum lugar de atendimento 24 horas para situações de saúde mental. Qualquer capital hoje em dia tem esses serviços, mas em Mato Grosso nós não temos. Alguns meses atrás se falou na possibilidade de ter postos de atendimento na Policlínica do Verdão. Contudo, diante da atual situação, é bem provável que o espaço seja destinado agora para atender pacientes com coronavirus. A saúde mental já era deficitária, já não havia a porta de entrada para as pessoas, agora está ainda mais em segundo ou terceiro plano, por se entender que algo muito mais intenso está acontecendo agora.

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Comentários (1)

  • Soares | Domingo, 29 de Março de 2020, 16h04
    1
    1

    Que cara chato, depressivo é ter que ler opiniões tão negativas. Todas as respostas dele levam para um lado trágico, negativo.

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