ENTREVISTA ESPECIAL

Sábado, 07 de Março de 2020, 08h:00 | Atualizado: 07/03/2020, 08h:09

Vejo como resistência, só queria correr, diz Cinderela negra, atleta que corre descalça

Nos anos 80, Jorilda Sabino ganhou destaque nacional ao correr a São Silvestre sem tênis de pés no chão

Rodinei Crescêncio/Arte/Rdnews

Jorilda Sabino

Quando se mudou com a família para uma das casas do bairro Pedregal, em Cuiabá (MT), nos primeiros dias de vida, Jorilda Sabino rapidamente deu os primeiros passos na carreira de atleta, que seguiu durante 15 anos. Aos nove, lembra que gostava de "acompanhar" os passos da irmã mais velha e, juntas, começaram a frequentar aulas de atletismo na UFMT, que faziam parte de um projeto social da Associação Atlética Uirapuru - responsável por descobrir outros grandes talentos do esporte mato-grossense. Além do acesso aos treinamentos de forma gratuita, os cafés da manhã oferecidos pela Uirapuru, enchiam os olhos das crianças, que, junto aos outros sete irmãos, viviam em situação de vulnerabilidade financeira. Foi na pista de atletismo da UFMT que ela conquistou as primeiras marcas. Em 1985, na primeira Corrida de Reis realizada em Cuiabá (MT), Jorilda ocupou o lugar mais alto do pódio. No ano seguinte, viajou para representar Mato Grosso na Corrida de São Silvestre, em São Paulo (SP), onde chamou atenção da imprensa nacional por correr descalça e vencer a competição em segundo lugar. Fato que deu origem ao apelido que já atravessa decadas: "Cinderela negra". Sobre o costume de competir com os pés no chão, Jorilda afirma que, além, claro, das condições financeiras da família não serem das melhores, era daquela forma que gostava (e já era acostumada) de "voar" pelas pistas de corrida.  Exemplo de garra e resistência da mulher negra, ela não se intimida em abordar pautas raciais. Ressalta que é importante e necessário que os próprios negros falem sobre suas vivências, já que homens e mulheres brancos serão capazes de fazê-lo.

Confira os melhores trechos da entrevista: 

O fato de uma criança pobre e negra correr descalça pode ser encarado como uma forma de resistir em uma sociedade desigual?

Na vedade, hoje em dia, até posso te dizer que era uma forma de resistir. Mas, naquele tempo, não era isso que eu pensava. Eu era uma criança de nove anos que só pensava em correr. Era acostumada a praticar corrida descalça, venho de uma família muito humildade, acostumei a correr na rua com o pé no chão. Quando comecei a treinar, não tinha condições. Não sei o que as pessoas pensavam [em ver a cena dela correndo descalça]. Deviam achar meio estranho, né? Eles não estavam acostumados, para eles era uma novidade, para mim não.

Você já se sentiu subestimada, tanto no esporte, quanto em seu cotidiano, por ser mulher e negra?

Em relação a ser negra, não sentia. Naquela época, era muito pequena, o racismo era velado. Me sentia subestimada, talvez, por correr descalça, fiz isso durante metade da minha carreira praticamente. Era uma menina franzina que fazia marcas boas [na corrida]. Além disso, não estava no eixo RJxSP, de onde os grantes atletas saíam. Mas, acho que não existe nenhum negro que não tenha passado por racismo. Eu, como mulher negra de quase 50 anos, acredito que a maioria já tenha passado por algum constrangimento relacionado ao racismo. Naquela época, não existia o "politicamente correto", as pessoas demonstravam mais os seus preconceitos.

Marcelo Victor

Jorilda Sabino

Jorilda Ribeiro mora em Campo Grande, onde trabalha em projetos sociais de iniciação esportiva, colocando brilhos nos olhos de outras crianças

De lá para cá, quais foram as principais mudanças que você observou com relação a conscientização de homens e mulheres brancos sobre racismo?

A principal mudança que vejo é que, hoje em dia, podemos discutir sobre isso [o racismo]. Embora fosse muito pequena naquela época, tenho uma percepção a respeito do que vivi. Hoje em dia, acho que está mais fácil com relação ao acesso a informação sobre questões raciais, até mesmo por conta das redes sociais. Mas, na verdade, penso que se os brancos forem falar de racismo, eles não vão saber. Eles não entendem nada sobre isso, é como se um homem falasse sobre feminismo, sobre algo que a mulher vivencia no dia-a-dia. Então, acho que a população negra tem, como obrigação, discutir sempre sobre o assunto, até memso para as pessoas se informarem e entenderem bem.  Naquela época não existia o politicamento correto, não se isso talvez "segure" mais a pessoa ou faça com que tenha cuidado com o que fala. Até mesmo nas redes sociais é preciso ter cuidado se você não tiver um discurso politicamente correto. Antigamente, "as coisas" não eram tidas como racismo. 

O que acha que precisa mudar para que mulheres negras tenham mais visibilidade e representatividade? 

Acho que, para isso, tem que ser feita uma desconstrução. Leva tempo. Mas já conseguimos certos avanços. Antigamente ninguém pensava em ver a Maju Coutinho, por exemplo, apresentando o Jornal Nacional. São exemplos que vão melhorando, abrindo a mente das pessoas, mostrando que as mulheres são tão capacitadas quanto os homens. Hoje em dia temos mulheres em cargos altos, é com o tempo, vamos conseguindo ocupar esses espaços. 

Reprodução

Jorilda Sabino

Imagens de momentos marcantes de Jorilda: corrida descalça, carregando a tocha olímpica em 2016, e recorte de reportagem de jornal da época

Como você se sente quando vê essa representatividade na prática? 

É um orgulho para qualquer pessoa. Imagina o quanto ela [Maju Coutinho] teve que se mostrar uma profissional excelente e qualificada para estar naquele lugar. Percebemos que ela ainda é criticada, justamente por conta da situação de ocupar esse espaço que está ocupando, que, antes, era quase improvável. As pessoas procuram um meio de desqualificar, como quando fizeram criticas de que ela gesticulava demais e etc.

Qual a importância do acesso ao esporte, na sua opinião? 

O atletismo, na minha vida e da minha família, foi um divisor de águas, melhorou nossas vidas. Tenho uma irmã que seguiu pelo mesmo caminho, hoje ela vive super bem em Cuiabá. Também tenho um irmão que se tornou profissional de Educação Física. Melhorou muito, todos estão bem de vida. 

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Comentários (2)

  • HELIO AUGUSTO GOMES | Sábado, 07 de Março de 2020, 21h31
    4
    0

    Mil parabéns, mas mérito tem dividir com professor EXpedito !

  • Neiva Lucia De Almeida | Sábado, 07 de Março de 2020, 11h23
    2
    0

    Parabéns ao Rdnews pela belíssima matéria, com a nossa eterna Cinderela, Jorilda Sabino.

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