Arte e Cultura

Sexta-Feira, 04 de Maio de 2018, 09h:36 | Atualizado: 05/05/2018, 11h:36

Pacha Ana faz poesia marginal e participa de batalhas com rimas e críticas sociais

Gilberto Leite

Patcha Ana

Mato-grossense Pacha Ana chega com poesia marginal, rimada e politizada, aos espaços historicamente masculinos no rap de Cuiabá e de todo o Brasil

Nascida em Rondonópolis, já aos cinco anos de idade, Ana Gabriela Santana Corrêa, a mc, cantora, compositora e poeta marginal também conhecida como Pacha Ana, ouvia rap. Escreve desde que se entende por gente. Segundo ela, nunca foi boa com gramática na escola, mas gostava de ler crônicas, textos de história e política. Recentemente foi semi finalista do Slam Br, copa brasileira de poesia, realizada no Sesc Pinheiros de São Paulo.

Antes disso, Pacha já recebia notoriedade por “colecionar folhinhas”, como ela diria, por conta das seguidas vezes que foi vencedora do Slam do Capim Cheiroso, em Cuiabá, assim como as mais de quinze batalhas de hip hop de freestyle na Capital, em São Paulo ou Belo Horizonte, capitais onde mantém firmes conexões por conta do gênero que vive com intensidade nos últimos anos.

Além disso, está em fase de produção do seu primeiro disco intitulado Omu Oyá, que em iorubá significa filha de Iansã e deve ser lançado até agosto deste ano. Em casa, os pais não gostavam de rap. Ela e a irmã iam contra a corrente e ouviam no fone baixinho ou quando eles não estavam em casa. Com o tempo, a irmã foi ouvir e viver outras coisas. "Eu continuei apreciando o estilo”, conta.

Ana ainda revela, que demorou a escrever músicas de rap por não querer ser vista com maus olhos pela família, ainda que escrevesse e tocasse violão, foi abordada certa vez por um amigo que a incentivou a escrever o que ouvia ou que gostava, afinal, por que não o rap? Entrar na universidade, segundo a poeta, foi fundamental para que ela ampliasse e passasse a externizar entre palavras as vivências de uma mulher negra. Quando passou a morar sozinha, há cinco anos, se abriu uma porta para o mundo. Veio a certeza que estava no caminho certo. "Pensei: é isso que tenho que escrever". Nessa trilha, primeiro escreveu o rap, depois participou do primeiro slam. "Ganhei e viciei”, brinca.

A mc conta que demorou a se identificar como poeta marginal, primeiro teve contato com o rap e depois com este estilo de poema. Não sabia que rap era poema. "Muitas pessoas fazem rap e não sabem que é poesia, quando eu me inscrevi a primeira vez no slam há mais ou menos um ano atrás percebi que já tinha sete competições nas costas. Então entrei na batalha de rima freestyle (que diferente do slam com rimas decoradas precisa ser um improvisada na hora). Antes me faltava coragem, quando eu entrei, ganhei”, lembra.

Agora, já soma três anos de carreira como cantora e um ano e meio nas batalhas de poesia.

Gilberto Leite

Patcha Ana

Para Pacha Ana, não adianta fazer poesia fechada para um grupo seleto ouviu. Tem que tocar o cara ali da esquina

Representatividade

O rap, segundo Ana, é um espaço ocupado em maior parte por homens. Em Cuiabá, isso é ainda mais marcante e a aceitação da mulher difícil. "Além do patriarcado tem os resquícios dele. Eu sou conhecida como PachaAna, mas se eu fosse namorada de alguém eu poderia ser só a namorada do mc tal", explica.

Para ela, representatividade feminina é importante. Se antes não tinha nenhuma mulher no rap, agora ela estão se aproximando, a cada dia mais.

"No começo senti que eu era uma pedra no sapato da galera. Eles não gostavam de mim, mas tinha que ser engolida, porque era o lance de não estar só no enfrentamento e sim estar construindo junto. Foi muito difícil para mim entrar na Batalha da Alencastro, que só tinha homens e, agora, já tem mulheres. Quando eu estava só de fora, observando, era uma coisa. Quando entrei e comecei a rimar com eles e a expor as minhas idéias em rimas, fui tolerada", ressaltou.

Conquistando este espaço, ela conheceu várias mulheres do rap em São Paulo e fez duas parceiras que são fundamentais para o crescimento como mc e compositora, que são Issa Paz e Sara Donato do Rap Plus Size, um dos grupos de rap femininos mais consolidados e que tem uma produtora só de mulheres. "Ajudam a batalha só de mulheres, eventos de mulheres e com falas para mulheres”, pontua.

Muitas pessoas fazem rap e não sabem que é poesia

Sempre que Ana vai para São Paulo, desde então, participa de apresentações e na última ida realizou algumas gravações. Lá conheceu várias outras poetisas, entre elas que considera uma de suas inspirações na poesia marginal, Jade. “Eu disse: quero ser como essa mulher. Depois, acabei virando amiga dela".

Depois de São Paulo, passou por Belo Horizonte e conheceu um produtor que foi diferente de outros que já havia conhecido. Com outros e ser mulher, sentia um constante enfrentamento, a necessidade de dizer "eu quero assim, assim e assim". Do outro lado, o homem sempre se reafirmando, mostrando erro, como se fosse desqualificada.

Pacha diz que feminismo é um termo e ser mulher é muito mais do que isso. "Conheço várias poetas marginais que não são feministas, que não se intitulam assim. É só uma palavrinha. Ser mulher é uma vivência muito maior do que isso. É um tema que está tão difundido entre as pessoas que tem hora que soa clichê.  Eu não me sinto contemplada, não apenas sobre o feminismo, mas eu não me sinto contemplada em vários discursos que as pessoas pregam que elas acham que contemplam o mundo, mas não contemplam", opina. 

Não adianta querer falar sobre a poesia e como ela é maravilhosa e não contemplar um cara que está ali na rua tentando me escutar

Marginalidade

Ana ressalta que a poesia marginal é diferente da acadêmica e vê na marginalidade não somente um discurso mas sim a prática.

"Eu não sou uma menina periférica, mas sei o que é ser uma menina negra e sei o que é estar na margem em vários aspectos e em vários espaços", afirmou. "Não adianta querer falar sobre a poesia e como ela é maravilhosa e não contemplar um cara que está ali na rua tentando me escutar. Se ele não estiver entendendo nada, não adianta, acabou para mim".

Para ela, certos movimentos sociais não contemplam as pessoas que mais precisariam deles. "Se quem não tem acesso e não se sente contemplado, a gente esta fazendo isso ou aquilo para quê? Este é meu impasse com os movimentos", argumenta.

Carreira

 Ao gravar o primeiro disco através de um edital da cultura de 2017, escreveu o primeiro projeto, para o qual teve a ajuda e incentivo das amigas Laris e Karola Nunes.

Recentemente está ministrando oficina de poesia para crianças. Ficou imersa no Sesc Poconé com o coletivo chamado Slan Despejo e, na última semana, foi quem representou Mato Grosso entre as convidadas. "Compor uma semana matogrossense, como mulher, negra e artista local aqui no Sesc é um grande passo. Poderia ser outra pessoa e de qualquer lugar do Brasil, mas estou muito feliz por ter sido eu, por terem me chamado", agradece.

A compositora ainda acredita que escrever sobre uma coisa que não vive é muito mais difícil. "Se eu vivo aquilo não irá me faltar vocabulário e é pra eu saber na hora de rimar o que eu estou falando. O freestily me ajudou em vários outros processos e meter a cara, dar ela a tapa ou falar sobre assuntos de margem em espaços que não estão à margem é difícil. Entrar dentro do Sesc e falar sobre racismo, por exemplo, é difícil isso, mas para mim é mais fácil do que eu tentar reproduzir os modos eurocentrados", defende.

Para finalizar, Ana diz que é fundamental para a ascenção das mulheres no movimento do hip hop em Cuiabá e Mato Grosso, a batalha das minas. "É importante que a gente tenha um coletivo de acolhimento de mulheres, independente de qual seja a causa,  não só ficado no hip hop, mas em mulheres e as encoragem a freqüentar espaços que ainda são minoria, sem se sentirem intimidadas".

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Comentários (1)

  • Carlos Araújo | Sexta-Feira, 04 de Maio de 2018, 15h42
    4
    0

    Sou seu fã. Uma artista, que com a sua voz tenta derrubar as mazelas e a desigualdade da sociedade.

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